External Publication
Visit Post

Como cientistas descobriram a idade de tubarões usando lasers

Galileu [Unofficial] May 4, 2026
Source
Por décadas, determinar a idade de um tubarão foi mais um exercício de estimativa do que de precisão científica. Agora, um estudo publicado na Marine Ecology Progress Series, que combina lasers, geoquímica e ecologia marinha promete mudar esse cenário, auxiliando na melhoria das estratégias globais de conservação. Pesquisadores da Universidade de Melbourne, na Austrália, e de outras instituições da Oceania desenvolveram uma técnica inovadora capaz de estimar a idade dos tubarões com base na composição química de suas vértebras. O método utiliza feixes de laser e análise de isótopos (átomos de elementos químicos que têm características próprias) para decifrar registros ambientais armazenados no corpo desses animais ao longo da vida. No cenário atual, mais de um terço das espécies de tubarões e seus parentes evolutivos estão ameaçados de extinção, principalmente devido à pesca em excesso e à falta de conhecimento detalhado sobre seus ciclos de vida. Uma leitura química do tempo A espécie usada no estudo foi o tubarão-dente-de-lança (Glyphis glyphis). Estima-se que restem menos de 2.500 indivíduos adultos na natureza. Tradicionalmente, cientistas estimavam a idade dos tubarões observando anéis claros e escuros em suas vértebras, semelhantes aos anéis de crescimento de árvores. Cada faixa era interpretada como um ano de vida. Entretando, essa suposição nem sempre se sustenta. A nova abordagem abandona essa lógica simplificada e mergulha na microquímica. Utilizando técnicas como microfluorescência de raios X (micro-XRF) e espectrometria de massa com ablação a laser (LA-MC-ICP-MS), os cientistas analisam elementos como cálcio, potássio e estrôncio incorporados nas vértebras ao longo do tempo. Amostra de vértebras de tubarão preparada para análise geoquímica Hilary Lewis Esses elementos funcionam como uma espécie de “impressão digital ambiental”. À medida que o tubarão se desloca por diferentes habitats, rios, estuários ou oceanos, sua estrutura óssea registra mudanças químicas da água. Com isso, os pesquisadores conseguem não apenas estimar a idade, mas também reconstruir a trajetória ambiental do animal. Ao relacionar a química das vértebras com eventos ambientais, como ciclos de chuva e seca. Os cientistas conseguem cruzar dados geoquímicos com registros de precipitação e características do solo das regiões habitadas pelos tubarões. No caso do tubarão-dente-de-lança, que vive em rios do norte da Austrália e da Papua-Nova Guiné, as variações na concentração de estrôncio nas vértebras acompanharam mudanças sazonais no ambiente. Esse tipo de análise revela que as marcas visíveis nas vértebras nem sempre correspondem a ciclos anuais, um achado que desafia décadas de estudos baseados em métodos ópticos tradicionais. Implicações para a conservação Saber com precisão a idade de um animal é fundamental para entender sua reprodução, crescimento e sobrevivência, dados essenciais para políticas de conservação eficazes. Métodos imprecisos podem levar a erros graves na gestão populacional de tubarões. Com a nova técnica, cientistas ganham uma ferramenta muito mais confiável para monitorar espécies ameaçadas e desenvolver estratégias de proteção mais eficientes. Além disso, a abordagem abre portas para aplicações ainda mais amplas, como a reconstrução de ambientes aquáticos do passado e a análise de impactos de poluição em ecossistemas.

Discussion in the ATmosphere

Loading comments...