Como a evolução privilegiou os genes ruivos, segundo este estudo
Galileu [Unofficial]
April 18, 2026
Um novo estudo revelou que o gene associado ao cabelo ruivo tem sido favorecido pela seleção natural ao longo dos últimos 10 mil anos na Europa. A pesquisa, baseada na análise de quase 16 mil restos mortais antigos e mais de seis mil participantes, sugere que características como cabelos ruivos e pele clara podem ter oferecido vantagens adaptativas relacionadas à produção de vitamina D. Os resultados foram publicados na revista científica Nature em 2024. Embora o estudo não tenha tido como objetivo principal explicar o porquê desses atributos terem se tornado mais comuns, os cientistas buscaram responder a uma questão mais ampla: a evolução humana desacelerou após o surgimento da agricultura? Os dados obtidos sugerem que não. A análise genética aponta que a evolução biológica continuou em ritmo significativo, mesmo nos períodos mais recentes da história humana. Ao todo, os pesquisadores identificaram 479 variantes genéticas que parecem ter sido favorecidas pela seleção natural. Entre elas – além dos já mencionados genes ligados ao cabelo ruivo e à pele clara –, estão os relacionados à predisposição à doença celíaca e a variantes que reduzem o risco de condições como diabetes, calvície e artrite reumatoide. Segundo os autores, a presença crescente de características como cabelo ruivo pode não ter sido diretamente selecionada, mas sim resultado de outros fatores associados. “Talvez ter cabelo ruivo fosse benéfico há quatro mil anos, ou talvez tenha surgido como consequência de uma característica mais importante”, observaram, em entrevista ao The Guardian. Outra suposição está apoiada na prevalência do gene ligado à pele clara: indivíduos com esse fenótipo conseguem sintetizar vitamina D de forma mais eficiente, sendo considerada pelos cientistas uma vantagem em regiões com baixa incidência de luz solar. Evolução acelerada Até então, apenas cerca de 21 exemplos de características humanas associadas à seleção natural haviam sido identificadas, incluindo a capacidade de digerir leite na idade adulta. Esse número limitado levou cientistas a acreditarem que a chamada seleção direcional teria sido rara desde o surgimento dos humanos modernos, há cerca de 300 mil anos. No entanto, o novo estudo, que combinou um volume sem precedentes de DNA antigo com técnicas computacionais avançadas, indica que centenas de genes sofreram alterações em sua frequência ao longo do tempo. Essas mudanças foram particularmente intensas na Eurásia Ocidental, especialmente após a transição de sociedades caçadoras-coletoras para comunidades agrícolas. “Com essas novas técnicas e a grande quantidade de dados genômicos antigos, agora podemos observar como a seleção natural moldou a biologia em tempo real”, afirmou Ali Akbari, da Universidade de Harvard (Estados Unidos). Pessoas de pele clara produzem vitamina D de forma mais eficiente e rápida, principalmente pela delicadeza da sua epiderme que, ao ser exposta ao dias de sol intenso pode sofrer danos sem o uso de protetor solar Pexels Entre os achados, alguns padrões são considerados intuitivos. Genes relacionados à pigmentação mais clara da pele e dos cabelos, por exemplo, “refletem plausivelmente a seleção para maior síntese de vitamina D em regiões com pouca luz solar, em agricultores que consomem pouca vitamina D em suas dietas”, destacaram os cientistas. Outras descobertas levantam novas questões. Uma mutação associada a um maior risco de doença celíaca surgiu há cerca de quatro mil anos e se tornou progressivamente mais comum, apesar de estar ligada a uma condição autoimune. Isso sugere que, em determinados contextos históricos, essa variante pode ter oferecido alguma vantagem adaptativa. Um fenômeno semelhante foi observado no gene imunológico TYK2, que aumenta o risco de tuberculose. Sua frequência cresceu entre nove mil e três mil anos atrás, antes de voltar a cair. Uma das hipóteses é que genes hoje considerados de risco podem ter desempenhado papéis importantes na proteção contra patógenos em períodos específicos. Os pesquisadores também identificaram evidências de seleção negativa para combinações genéticas associadas a altos níveis de gordura corporal. Esse resultado está alinhado à chamada hipótese dos “genes econômicos”, segundo a qual a capacidade de armazenar energia se tornou menos vantajosa com a maior estabilidade alimentar proporcionada pela agricultura. Apesar dos avanços, os cientistas ressaltam que a pesquisa se concentrou em populações da Eurásia Ocidental, o que limita conclusões globais. Ainda assim, os resultados reforçam a ideia de que a evolução humana não apenas continua em curso, como pode estar ocorrendo de forma mais dinâmica do que se imaginava.
Discussion in the ATmosphere