Falta respeito ao jornalismo independente
Na última semana, fiquei muito surpresa e feliz ao saber que uma reportagem minha publicada no Núcleo foi usada para embasar duas representações assinadas pela deputada estadual Ediane Maria (PSOL-SP).
Os documentos, um para o Ministério Público Federal (MPF) e outro à Corregedoria da PRF, citavam nominalmente a matéria, com link no rodapé e trechos extensos entre aspas do meu texto.
A reportagem investigativa, publicada no dia 7.abr.2026, é sobre como o influenciador Breno Faria, conhecido pelo perfil "Café com teu pai", está violando regras da corporação, já que ele é policial , ao se dedicar à outra carreira e gerir empresa a partir da monetização de conteúdo e venda de cursos voltados às mulheres nas redes sociais. O agravante: postagens repletas de misoginia.
90% da minha carreira se deu no jornalismo independente, ou seja, em veículos nativos digitais que fazem um esforço hercúleo para conseguir financiamento, ter alcance e impacto social sem serem podados ou censurados por interesse de patrocinadores. E justamente por ir contra interesses, costuma sofrer retaliações diversas.
O trabalho continua sendo profissional, minucioso, checado, responsável e corajoso, como tem de ser. O problema é que, mais uma vez, eu vejo que veículos tradicionais parecem considerar que nosso trabalho é menor, a ponto de invisibilizarem quanto à menção de quem trouxe um furo ou uma investigação nova, mas relevante o suficiente para ser repercutido. Por quê?
Isso aconteceu nesse caso da ação da deputada oriunda da minha matéria. Desde a primeira linha, o Núcleo é citado. A matéria é destrinchada em todas as páginas das representações. Mas a maioria dos veículos noticiou o caso como se tivesse vindo do nada, como se fosse uma iniciativa única e exclusiva da parlamentar.
E aí fica o questionamento: por que é tão difícil creditar o coleguinha? Esse comportamento veio até de veículos não tradicionais, ou seja, que sabem que uma citação ajuda no alcance e, consequentemente, em sermos vistos para oportunidades de financiamento.
Ninguém quer financiar algo que não traz resultados. Nosso jornalismo traz.
Num cenário de escassez, de disputarmos a atenção com redes sociais e termos de ralar ainda mais para que nosso trabalho seja relevante, de credibilidade e de mudança social, é absurdo que os veículos desconsiderem e rivalizem com sites de jornalismo independente. Nosso trabalho exige respeito e tem feito a diferença. Creditar é o mínimo.
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[Uma versão desse texto foi originalmente publicada no LinkedIn_da repórter Jeniffer Mendonça]_
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