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'Adaptação implica algum nível de ruptura': escolas criam protocolos de boas-vindas para aliviar ansiedade de alunos vindos de outras instituições

O GLOBO | Confira as principais notícias do Brasil e do mundo May 24, 2026
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Não era a mochila, o uniforme diferente ou a novidade no material escolar que mais ocupava os pensamentos do pequeno Matheus, então perto de iniciar o 3º ano do ensino fundamental em uma nova escola. Durante as férias que antecederam sua transferência para o Colégio Notre Dame, no Recreio, em 2025, o menino alternava animação e ansiedade diante do recomeço. A preocupação maior não era com provas ou deveres de casa. Sua inquietação era com os novos colegas e o receio de não ser bem aceito numa turma onde quase todos já se conheciam. Além da rolha zero: Cortesias dos restaurantes incluem espumante, entradas e até marshmallow para assar na fogueira Cultura: Parque Shangai e Imperatriz Leopoldinense se tornam patrimônios culturais do Rio — Apesar de ele ter facilidade de se relacionar com outras crianças, passou as férias um pouco preocupado e ansioso em relação às novas amizades — lembra Fernanda Fontenele, mãe do estudante. A transferência de colégio é um tema delicado. Pode ser motivada por mudança de endereço ou de realidade econômica da família, ou ser reflexo de questões emocionais, pedagógicas e sociais. No caso de Matheus, para amenizar sua ansiedade com a mudança, os pais primeiro o aproximaram da futura escola. Antes de fazer a matrícula para o ano letivo, inscreveram o filho na colônia de férias do Notre Dame. Também conversaram com ele sobre os motivos da mudança e o acompanharam em uma visita formal à escola. — Tivemos uma grande insatisfação em relação à escola anterior, principalmente em relação à falta de organização e permissividade, o que refletia na qualidade do ensino. A mãe de uma amiga do Matheus já havia feito a transferência para o Notre Dame no ano anterior e o retorno era positivo, então nos ajudou na escolha da nova escola — conta Fernanda. A diretora Maria Tereza recepciona Matheus e sua mãe, Fernanda Fontenele Divulgação/Notre Dame Maria Tereza Arcanjo, diretora do Colégio Notre Dame, explica que na sua unidade um membro da equipe acompanha o aluno nos primeiros dias, apresenta o espaço da escola e auxilia na integração. — Nós determinamos uma madrinha ou um padrinho da turma para ajudar aquele estudante no início. Ainda há um contato com a família na primeira semana e depois no primeiro mês para entender como a criança está se sentindo — explica. O colégio também desenvolveu avaliações diagnósticas para verificar possíveis diferenças acadêmicas que possam impactar a adaptação do novo aluno. Apoio na transição Alunos do Colégio Cruzeiro em interação no pátio da instituição de ensino Divulgação/Colégio Cruzeiro/Fabiana Antonini No Colégio Cruzeiro, tradicional escola alemã do Rio, a adaptação escolar é vista como experiência emocional e social. — A adaptação implica algum nível de ruptura, exige atravessar medos, expectativas, inseguranças e desejo de pertencimento — explica Ana Ramos, diretora geral pedagógica da instituição. Ao longo da primeira semana de aula, os professores desenvolvem atividades em grupo para estimular a integração. No caso dos alunos vindos de outros países ou sem familiaridade com o idioma alemão, há aulas de apoio no contraturno durante todo o primeiro ano. O Cruzeiro também mantém um trabalho com as famílias, que participam de encontros com orientadores pedagógicos, recebem acompanhamento próximo e são convidados a participar de eventos. Café, vinho ou refeição completa? Veja quatro dicas de eventos na Barra e no Recreio No Colégio Matriz Educação, na Taquara, o acolhimento do aluno vindo de outra escola inspirou um protocolo de recepção, segundo o diretor, Eduardo Xavier. Quando o aluno chega, passa pela coordenação pedagógica, conhece os espaços da unidade e recebe uma série de orientações de rotina. — O primeiro passo é uma escuta inicial da família para entender o contexto da transferência e identificar possíveis necessidades de acompanhamento mais próximo — afirma Xavier. O diretor lembra que algumas mudanças acontecem após experiências difíceis, particulares ou vividas em outras instituições, o que gera desafios emocionais. Uma das ferramentas para lidar com situações deste tipo são as atividades socioemocionais desenvolvidas na disciplina Habilidade de Vida, voltada para competências como empatia, cooperação e convivência. A coordenadora pedagógica, Juliana Camargo, apresentando os espaços da escola para Letícia Regina Melo, do 4º ano Divulgação/Colégio Matriz Educação/Gabriel Thomaz Letícia Melo, do 4º ano, conta que o processo do Matriz a ajudou na adaptação na chegada, em março deste ano. — Logo no primeiro dia eu fui bem recebida. A coordenação me apresentou a escola, mostrou os espaços e explicou como tudo funcionava. Depois também fui sendo apresentada aos professores e alunos da turma, e isso me ajudou, porque fui conhecendo as pessoas e me sentindo melhor — conta Letícia. — Trabalhos em grupo nos primeiros dias fizeram que eu falasse muito com os colegas e ajudaram a me enturmar mais rápido. Na unidade da Freguesia do Colégio e Curso Pensi, também há um ritual de acolhimento dos novos alunos. — Fazemos uma apresentação do aluno à turma e à equipe — diz a diretora, Maria Renata. Depois, escolhemos um colaborador para ser um ponto de referência, por exemplo, o inspetor do andar. Também pedimos para que o represente da turma insira esse aluno no dia a dia da escola — conta. Acolhimento escolar na rede pública Nas escolas públicas, a Secretaria estadual de Educação explica que os pedidos de transferência podem ser feitos o ano todo, no site Matrícula Fácil, e os pedidos são atendidos de acordo com a disponibilidade. Após a conclusão da inscrição e apresentação da documentação, o estudante já pode frequentar as aulas na nova unidade, recebendo suporte e sendo alvo de ações de acolhimento nas escolas. Já a Secretaria municipal de Educação explicou que as transferências podem ser feitas diretamente nas escolas ou com apoio das Coordenadorias Regionais de Educação (CREs). Sempre que há vaga disponível, o pedido é atendido. O acompanhamento acadêmico e emocional dos estudantes transferidos é feito por meio das CREs. Diretor da Escola Municipal Albert Einstein, na Barra, Anderson André acompanha há 11 anos um intenso fluxo de estudantes vindos de diferentes regiões do Brasil e até de outros países, como Venezuela e Haiti. — A Zona Sudoeste é um grande canteiro de obras. Muitas famílias vêm de outros estados e países em busca de melhores condições de vida e acabam procurando vagas de ensino na rede pública — diz. Povo do samba: Prefeitura rebatiza com nome de Noca da Portela espaço cultural na Zona Norte Com experiência nas redes pública e privada, Anderson diz que de modo geral, os alunos que vêm de outras unidades escolares se adaptam em um ritmo mais rápido que os seus responsáveis. Para ele, os alunos acabam focando sua preocupação em estar inseridos no novo meio, enquanto os pais têm inseguranças, preocupações financeiras e profissionais, além das emocionais. Para auxiliar no acolhimento, a escola fortaleceu o papel do grêmio estudantil. — Ele funciona como uma ponte entre os alunos e a direção do colégio. Ajuda na integração de quem é novo com os veteranos através de encontros, gincanas e atividades organizadas junto com a direção — revela Anderson. O diretor ainda pontua que a unidade funciona em sistema americano, isto é, os estudantes circulam pela escola de acordo com a disciplina. Um modelo parecido com o utilizado em grande parte das universidades. De acordo com ele, esse formato também ajuda nas transferências, porque os alunos circulam mais pelo espaço e são obrigados a interagir frequentemente. Mudança exige cuidado Para a psicóloga Mariangela Monteiro, do Instituto de Psicologia da PUC-Rio, é preciso atenção nas transferências, porque uma troca de unidade significa deixar para trás vínculos afetivos, referências e rotinas já conhecidas. — Toda mudança produz algum grau de insegurança, mesmo quando ela acontece por uma escolha positiva — conta Mariangela. A especialista afirma que a forma como a família conduz o processo interfere diretamente na adaptação. Também explica que crianças e adolescentes precisam ter espaço para falar sobre seus receios, mas sem transformar a transferência em um evento ameaçador. Logo, o diálogo franco é fundamental para um processo saudável. — Algumas famílias criam fantasmas sobre a adaptação, perguntando excessivamente sobre amizades, rejeições e dificuldades. É importante validar sentimentos, mas sem alimentar a ideia de que a nova escola será necessariamente um lugar hostil — aponta Mariangela. Natalia Xavier Pereira da Costa, coordenadora do curso de Pedagogia na Afya Unigranrio concorda com a afirmativa e ressalta que, por essa razão, o acolhimento da escola deve ser focado em toda a família. Segundo ela, este pensamento começou a ganhar força após os impactos da pandemia de Covid-19. — É importante que a chegada de um novo aluno deixe de ser vista apenas como matrícula e passe efetivamente a ser entendida como processo de integração. Acolhimento não pode ser discurso: precisa aparecer na rotina da escola — afirma Natalia. Homenagem: Para financiar estátua de Maria Clara Machado, Edgar Duvivier vende miniaturas da escultura A pedagoga ainda pontua que mesmo fazendo tudo na expectativa, a adaptação pode não ser bem-sucedida. Por isso, é importante que os responsáveis estejam atentos aos seguintes sinais: recusa persistente em ir à escola, isolamento, queda brusca no rendimento, tristeza, irritabilidade, medo, alterações no sono ou no apetite. Já a psicóloga Mariangela observa que o entusiasmo é o sinal de que a adaptação foi positiva: — O estudante fica animado ao falar do seu dia no colégio, tem vontade de compartilhar o que vivenciou no tempo que esteve lá e muitas vezes demonstra desejo em voltar logo para a escola. *Esta reportagem integra o especial Educação do GLOBO-Barra publicado em 24/5 Initial plugin text

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