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Tecnofeudalismo (Yanis Varoufakis, 2025)

Cosmoliko May 12, 2026
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Última atualização: 12/05/2026 11:21


Costuma-se dizer que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Certamente Yanis Varoufakis não concorda com isso, porque ele não só imaginou o fim do capitalismo, como já decretou a sua morte. Contudo, o que vem a seguir é muito pior: o tecnofeudalismo, o sistema que substituiu o capitalismo com a ascenção das big techs em feudos digitais.

Como eu não sou nenhum especialista, estou fazendo a leitura apenas para conhecer as ideias do autor. Afinal, quem sou eu para discordar ou endossar alguém que escreveu um livro de tamanha relevância e disrupção econômica e política? (dsclp pela disrupção)

Confesso, porém, que ainda não fui convencido de nada. Até o momento (na metade do livro) estou achando irritante a forma com a qual ele tem apresentado seus argumentos (tenho vontade de abandonar a leitura a cada referência a Mad Men).

No momento, tô sentindo essa vibe:

Imagem original pela revista Complex

zuueeeraaaa



Destaques e Anotações

  • Qual o problema desse autor com a palavra publicidade? Tudo bem que o texto tenta alcançar um público amplo, mas de toda a parte técnica que ele buscou facilitar a compreensão, realmente precisava que a indústria publicitária fosse (mal) contada através da figura de Don Draper? Acho que vou abandonar a leitura se ler mais uma referência a Mad Men.

Capítulos

Prefácio

Yanis Varoufakis apresenta sua hipótese central de que o capitalismo morreu e foi substituído por um sistema novo e pior. A mudança foi causada por uma mutação do próprio capital, acelerada pela privatização da internet e resposta dos bancos à crise de 2008.

💡

Ideia Principal: O capitalismo chegou ao fim e foi suplantado pelo tecnofeudalismo — um sistema onde o lucro e os mercados foram substituídos pela renda e por feudos digitais.


Argumentos:

  1. Morte dos pilares capitalistas: Os mercados e os lucros não regem mais a economia; eles foram escanteados por plataformas que funcionam como feudos.
  2. Ascensão do capital-nuvem: Uma nova forma de capital surgiu, capaz de aniquilar o capitalismo tradicional ao transformar a infraestrutura em um meio de extração de renda.
  3. Nova estrutura de classes: A sociedade retornou a uma lógica feudal, dividida entre proprietários do capital-nuvem (senhores) e usuários que fornecem trabalho não remunerado (servos).

Destaques e anotações:

Então, qual é a minha hipótese? A de que o capitalismo já está morto, no sentido de que suas dinâmicas já não regem nossas economias. Ele foi substituído nesse papel por algo fundamentalmente distinto, que chamo de tecnofeudalismo. No cerne da minha tese, está uma ironia que pode a princípio soar confusa, mas que espero mostrar que faz perfeito sentido: o que matou o capitalismo foi... o próprio capital. Não o capital como o conhecemos desde a aurora da era industrial, mas uma nova forma de capital, uma mutação que veio à tona nas duas últimas décadas, tão mais poderosa que sua antecessora que, como um vírus estúpido e excessivo, aniquilou seu hospedeiro. O que levou isso a acontecer? Dois desdobramentos centrais: a privatização da internet pelas Big Techs dos Estados Unidos e da China; e o modo como os governos e os bancos centrais do Ocidente reagiram à grande crise financeira de 2008.

[…] reconhecer que nosso mundo se tornou tecnofeudal nos ajuda a resolver grandes e pequenos enigmas: desde a elusiva revolução da energia renovável e a decisão de Elon Musk de comprar o Twitter à Nova Guerra Fria entre os Estados Unidos e a China, e a como a Guerra na Ucrânia está ameaçando o domínio do dólar; desde a derrocada do indivíduo liberal e a impossibilidade da social-democracia à falsa promessa das criptomoedas e a questão urgente de como podemos recuperar nossa autonomia, e quem sabe também nossa liberdade.

Voltei a esse destaque, pós terminar a leitura, e percebi o quanto ele não faz sentido. Pensar o sistema atual como tecnofeudalista não muda em nada nossa relação com esses “grandes e pequenos enigmas” (são mesmo enigmas?). Pior, a questão urgente de como podemos recuperar nossa autonomia continua sem solução. O que ele propõe nem sequer faz parte da nossa linha do tempo.


Cap. 1 — O Lamento de Hesíodo

Varoufakis utiliza memórias de infância sobre as lições de metalurgia de seu pai para introduzir o materialismo histórico, método que entende a história como um ciclo de retroalimentação entre a transformação da matéria e a transformação das relações sociais.

Ele percorre o desenvolvimento das tecnologias de endurecimento de metais (do estanho e bronze ao ferro e aço) para mostrar como essas inovações aceleraram a história e deram forma à civilização.

O capítulo apresenta a influência de pensadores como Einstein, Marx e Keynes para fundamentar a ideia de que o trabalho, o capital e o dinheiro possuem uma natureza dual e contraditória que define o funcionamento do sistema econômico. Aliás, achei interessante (e bonito) como o pai dele se rendeu a ideia da dualidade das coisas a partir de Einstein.

Aqui ele introduz a pergunta que seu pai lhe fez ao conhecer a internet discada, que serviu de inspiração e guia para o livro: “Agora que os computadores conversam uns com os outros, essa rede vai tornar impossível derrubar o capitalismo? Ou vai finalmente revelar seu calcanhar de Aquiles?”.

Os capítulos são construídos em um forma resposta para essa pergunta. Spoiler: a resposta é…

💡 iDEIA PRINCIPAL

A tecnologia é o motor fundamental da história (materialismo histórico), mas ela possui uma essência dual e contraditória : cada avanço tecnológico contém o potencial simultâneo para a libertação humana e para a escravização, sendo a política a ferramenta responsável por determinar qual desses destinos prevalecerá.

🧩 argumentos

  1. A Tecnologia como Motor de Transformação Social: A transição da Idade do Bronze para a Idade do Ferro não foi apenas uma mudança de ferramentas, mas uma "grande transformação" que permitiu novos excedentes agrícolas, novas formas de guerra e a aceleração do tempo histórico.
  2. A Natureza Dual do Trabalho e do Capital: Inspirado na física de Einstein e nas teorias de Marx, o autor argumenta que no capitalismo o trabalho é dividido entre trabalho-mercadoria (tempo vendido por salário) e trabalho-experiência (esforço e paixão que geram valor real), enquanto o capital é simultaneamente um objeto físico (ferramenta) e uma força social de comando.
  3. O Paradoxo do Progresso Tecnológico: Citando Hesíodo e Marx, Varoufakis defende que o maquinário maravilhoso, capaz de frutificar o trabalho humano, muitas vezes acaba por "esfaimar e estafar" os indivíduos, transformando fontes de riqueza em fontes de necessidade devido à incapacidade humana de controlar os "poderes infernais" que invocou.

Destaques e anotações:

Meu pai foi o único esquerdista que conheço que não conseguia entender por que chamar Maggie Thatcher de “Dama de Ferro” era de algum modo depreciativo. E eu devo ter sido a única criança que cresceu acreditando que o ouro era o primo pobre do ferro.

Primeiro parágrafo

Quando me recordo daquelas poucas noites de inverno de 1966, fica claro para mim que eu estava sendo apresentado ao “materialismo histórico” – o método de entender a história como um ciclo perpétuo de retroalimentação entre , de um lado, o modo como os humanos transformam a matéria e, de outro, o modo como o pensamento humano e as relações sociais são transformados em contrapartida. Felizmente, o materialismo histórico do meu pai era matizado, seu entusiasmo pela tecnologia atenuado por doses criteriosas de angústia com a capacidade infinita da humanidade de estragar as coisas, de transformar tecnologias milagrosas num inferno na terra.

De acordo com Hesíodo, o ferro endurecia não apenas nossos arados, mas também nossas almas. Sob sua influência, nosso espírito era martelado e forjado no fogo, nossos desejos novos em folha saciados como o metal chiando no caldeirão do ferreiro. Virtudes eram testadas e valores destruídos, na mesma medida que nossas dádivas abundaram e nossas propriedades se expandiram. A força gerou novas alegrias, mas também fadiga e injustiças. Zeus não teria escolha, Hesíodo previu, a não ser um dia destruir uma humanidade incapaz de restringir seu próprio poder, induzido pela tecnologia.

Para o meu pai, a natureza dual da luz era a porta de entrada para reconhecer o dualismo essencial subjacente a toda a natureza, e também à sociedade. “Se a luz pode ser duas coisas muito diferentes ao mesmo tempo”, ele se perguntava em uma carta que escreveu quando jovem para sua mãe, “se a matéria é energia e a energia é matéria” , como Einstein também tinha descoberto, “por que temos que retratar a vida em termos de preto e branco ou, ainda pior, em alguma nuance de cinza?”.

Bonito

Circunspectos, ainda que não desalentados, nós três concordamos que estávamos testemunhando uma derrota que se tornara inevitável quando nosso lado perdeu a convicção de que o capitalismo era iníquo porque era ineficiente, que era injusto porque era não liberal, que era caótico porque era irracional. Voltando aos fundamentos, perguntei à minha mãe e ao meu pai o que a liberdade significava para eles. Minha mãe respondeu: a habilidade de escolher seus parceiros e seus projetos. A resposta do meu pai foi parecida: tempo para ler, experimentar e escrever. Seja qual for a sua definição, caro leitor, cara leitora, estar livre para perder de diversos modos assoladores não pode ser a resposta.

“Isso é um divisor de águas”, disse ele. Pelejando com o acesso discado a um provedor de internet grego terrivelmente lento, ele me fez a pergunta matadora que acabou por inspirar este livro: “Agora que os computadores conversam uns com os outros, essa rede vai tornar impossível derrubar o capitalismo? Ou vai finalmente revelar seu calcanhar de Aquiles?”.

Essa é a pergunta que o pai dele fez e inspirou esse livro. Preferia que ele usasse mais a palavra “pai” (no lugar de “você) pelos capítulos seguinte. Também preferia que ele diminuísse o tanto que se dirige ao pai para discorrer seus pontos.


Cap. 2 — As Metamorfoses do Capitalismo

Esse capítulo narra as transformações do capitalismo desde a década de 1960 até a crise de 2008. Inicia discutindo a fabricação do desejo pela publicidade (a era “ Mad Men”), que permitiu a mercantilização da atenção humana.

(Apesar de eu usar a palavra publicidade aqui, o autor não se deu esse trabalho - a palavra aparece apenas 2x no livro - e resumiu a indústria publicitária toda na figura de Don Draper - nome que aparece 38x (segundo ghedin, preciso confirmar) -, protagonista da série Mad Men. Ao longo dos capítulos seguintes isso se repete. Achei péssimo, pois diminuiu substancialmente a relação intrínseca existente entre capitalismo e o mercado publicitário: não é apenas “fabricação de desejo", mas toda a infraestrutura de circulação de informação e lógica de negociação entre capital, mídia e consumidor)

Em seguida, explica a ascensão da tecnoestrutura , uma rede público-privada surgida na Segunda Guerra Mundial que passou a planejar a produção e os preços, assemelhando-se ao planejamento soviético.

Detalha o fim do sistema de Bretton Woods em 1971 e a criação do Minotauro Global , um mecanismo onde o déficit dos EUA sugava as exportações mundiais enquanto Wall Street reciclava os lucros estrangeiros em investimentos financeiros.

Por fim, descreve como os computadores permitiram a criação de derivativos complexos e números "insanos" que levaram ao colapso de 2008, o qual quebrou o mecanismo de reciclagem e incubou o capital-nuvem.

💡 iDEIA PRINCIPAL

O capitalismo sobreviveu através de sucessivas metamorfoses e mutações , como ao assimilar o "valor-experiência" em "valor de troca". Contudo, as mutações ocorridas após 1971 — a financeirização extrema e a infraestrutura digital — destruíram a adaptação evolutiva do sistema, permitindo que uma nova forma de capital surgisse e habilitasse seus detentores a se libertarem do capitalismo para formar uma nova classe dominante.

🧩 argumentos

  1. A mercantilização da atenção e a fabricação do desejo: o capitalismo mudou radicalmente ao descobrir que fabricar coisas não era mais suficiente; era necessário fabricar o desejo por elas. Através da televisão, criou-se um "mercado da atenção" onde as emoções humanas não mercantilizadas foram capturadas e transformadas em valor de troca, permitindo que o sistema continuasse a lucrar mesmo quando todos os bens físicos pareciam já ter sido produzidos.
  2. O triunfo da tecnoestrutura e do planejamento central: após a Segunda Guerra Mundial, o capitalismo norte-americano deixou de ser uma sociedade de mercado descentralizada para se tornar uma economia com mercados centralizada. Grandes conglomerados e o governo fundiram-se em uma rede de tomada de decisões profissional (tecnoestrutura) que decidia preços e quantidades de forma planejada, alcançando o que os planejadores soviéticos sempre desejaram, mas dentro de um sistema de propriedade privada.
  3. O mecanismo do minotauro global e a financeirização: após 1971, o poder capitalista migrou da indústria para a esfera financeira através do Minotauro Global. O déficit comercial dos EUA tornou-se o motor da economia mundial, consumindo produtos da Europa e Ásia, enquanto o capital estrangeiro fluía para Wall Street para financiar esse déficit, alimentando uma bolha de dívidas e derivativos complexos que os computadores tornaram incompreensíveis até para seus criadores.

Destaques e anotações:

Pois a natureza dual do trabalho de Draper está estampada em cada episódio de Mad Men. Seus chefes adorariam poder comprar suas ideias sem ter de tolerá-lo à toa no escritório meio embriagado. Na linguagem do capítulo anterior, eles agarrariam com unhas e dentes a oportunidade de comprar diretamente o trabalho-experiência de Draper. Só que não podem, mesmo que Draper quisesse vendê-lo a eles. São obrigados, sim, a comprar seu trabalho-mercadoria (isto é, seu tempo e potencial), na esperança de que, durante seu torpor ébrio, seu gênio espontaneamente gere a famosa mágica de Draper. E quando isso acontece, os lucros imensos que eles obtêm voltam a confirmar que o capital nasce da incapacidade dos capitalistas de adquirir o trabalho-experiência diretamente.

Nisso acabo me identificando e identificando tantos colegas.

O gênio de Draper, por sua vez, é apreender, e confrontar, o paradoxo da mercantilização. Sim, o capitalismo deve mercantilizar tudo o que encontra. Mas, ao mesmo tempo, um alto valor de troca, e, portanto, lucros substanciais, dependem de seu fracasso em fazê-lo plenamente. Para evitar o destino de uma escola de predadores que devora suas presas com tanta eficiência que acaba por morrer de fome, o capitalismo conta com a existência de um suprimento infinito de valores-experiência para seus valores de troca surrarem e canibalizarem. Ele deve estar sempre descobrindo e mercantilizando o que até então lhe escapou.

No início dos anos 1960, as mercadorias que rendiam um bom dinheiro já não eram as que prevaleciam num tipo de luta darwiniana pela existência em algum mercado competitivo. Não, os produtos que ornavam todas as casas eram os que os Drapers e os executivos dos conglomerados criavam juntos em reuniões nos arranha-céus da tecnoestrutura. Lá, com muito cigarro e muita bebida, eles decidiam juntos os preços, as quantidades, as embalagens e até os sentimentos transmitidos pelos principais produtos do capitalismo. Se o capitalismo tinha vindo à luz transformando as sociedades com mercados do feudalismo em sociedades de mercado descentralizadas, a ascensão da tecnoestrutura transformou o capitalismo norte-americano de uma sociedade de mercado descentralizada em uma economia com mercados centralizada. Era o que os planejadores soviéticos sempre desejaram conquistar, mas não conseguiram.

Tô com a impressão que as vezes esse livro parece meio reducionista

E aí está a ironia. Nos anos 1960, uma década marcada por um choque ideológico e nuclear entre os Estados Unidos e a União Soviética que quase mandou o mundo pelos ares, os princípios de planificação soviéticos foram implementados com um sucesso notável nos... Estados Unidos. Poucas vezes a ironia se vingou com tanta eficácia da ideologia fervorosa.

Que adianta essa ironia quando absolutamente ninguém se importa? Isso é mesmo eficaz?

Você tem sido extremamente paciente comigo. Tudo neste capítulo ladeou a sua pergunta, oferecendo só um prelúdio para sua resposta: as grandes metamorfoses do capitalismo que aconteceram desde a descoberta do eletromagnetismo. Mas eu devo pedir ainda um pouco mais da sua paciência.

Preferia que tivesse a palavra “pai” intercalando com você mais vezes. Às vezes esqueço que esse livro é uma resposta ao pai e por breves momentos me pergunto quem raios é esse “você” a quem ele se dirige do nada.

Da mesma forma com a tecnoestrutura, que controlava os mercados durante e depois da guerra; com os Mad Men de Don Draper, que transformaram nossa atenção em uma mercadoria essencial; e com o Choque de Nixon, cuja demolição do Plano Global permitiu que os números insanos de Wall Street financiassem a ascensão do Minotauro. Nenhum desses desdobramentos derrubou o capitalismo, mas eles podem ser pensados como mutações em seu DNA que levaram a uma série de metamorfoses impressionantes à medida que ele se adaptava e evoluía, como um vírus encarando uma miscelânea de vacinas.

É isso, eu estou MUITO incomodado desse livro não falar da publicidade e usar Don Draper no lugar.

Antes de mergulhar na metamorfose final do capitalismo, no que eu chamo de tecnofeudalismo, talvez seja oportuno dedicar algumas últimas palavras ao Minotauro Global – a fera metafórica que representa o sistema de reciclagem financeira global centrado nos Estados Unidos que, entre o fim da década de 1970 e 2008, ofereceu todos os adereços da nossa tragédia presente: a Big Finance, as Big Techs, o neoliberalismo, a desigualdade em escala industrial, para não mencionar democracias tão atrofiadas que são necessários filmes como Não olhe para cima para explicar a paralisia da humanidade diante da catástrofe climática.

Esse filme explica porra nenhuma, é só o feed do Twitter no seu pior momento por duas horas intermináveis.

Nosso Minotauro vai, no fim, ser lembrado como uma fera triste e bravia cujo domínio de trinta anos criou, e depois destruiu, a ilusão de que o capitalismo pode ser estável; a ganância, uma virtude; e as finanças, produtivas. Ao morrer, ele forçou o capitalismo a entrar em sua metamorfose final e fatal, dando à luz um sistema em que o poder está nas mãos de ainda menos indivíduos, que possuem um admirável tipo de capital novo.

Vai mesmo é?


Cap. 3 — O Capital-Nuvem

Esse capítulo explora a evolução do conceito de capital , partindo da definição "meio de produção produzido" para sua nova forma: o capital-nuvem: “meio de modificação de comportamento produzido". (na real, estou roubando ambas definições entre aspas do capítulo 7, por sentir falta de uma definição mais clara e sucinta nesse capítulo)

Ele utiliza o exemplo de Thomas Peel na Austrália para demonstrar que o capital só possui poder de comando quando os trabalhadores são privados de alternativas.

Varoufakis descreve como a internet, que nasceu como um bem comum (commons) não comercial, sofreu "novos cercamentos" através da privatização da identidade digital e dos protocolos de rede.

Então, analisa a mecânica dos algoritmos de aprendizado por reforço, que transformam usuários em "servos das nuvens" que trabalham de graça para aumentar o valor das Big Techs, e conclui que plataformas como a Amazon não são mercados, mas feudos digitais onde se extrai renda em vez de lucro.

💡 iDEIA PRINCIPAL

A ascensão do capital-nuvem representa uma mutação revolucionária do capital que automatiza o comando sobre o comportamento humano, substituindo os mercados por feudos digitais e transformando a massa de usuários em servos que reproduzem esse capital através de trabalho não remunerado

🧩 argumentos

  1. A automação do desejo e do comando: diferente do marketing tradicional, o capital-nuvem utiliza algoritmos que operam em um loop de retroalimentação (aprendizado por reforço); nós treinamos o algoritmo com nossos dados, e ele passa a nos treinar, curando nossa realidade e modificando nosso comportamento de forma lucrativa para seus donos.
  2. Os novos cercamentos da identidade: assim como o capitalismo nasceu da privatização de terras comuns, o tecnofeudalismo surgiu da pilhagem dos commons da internet. Hoje, nossa identidade digital não nos pertence, sendo detida por corporações privadas que nos obrigam a entregar dados e atenção para podermos operar na sociedade moderna.
  3. A nova lógica de reprodução (servidão digital): O capital-nuvem é único porque pode se reproduzir sem depender exclusivamente do trabalho assalariado. Bilhões de pessoas (servos das nuvens) produzem o estoque de valor das Big Techs voluntariamente e de graça sempre que postam fotos, vídeos ou avaliações, enriquecendo um pequeno grupo de proprietários de feudos digitais.

Destaques e anotações:

Em Liga da Justiça , um sucesso de bilheteria de Hollywood que reuniu uma série de super-heróis em uma tentativa de salvar a Terra da desertificação, há uma cena em que o Aquaman entra no carro de Bruce Wayne, o homem por trás do lendário Batman. “Qual é mesmo o seu superpoder?”, pergunta ele com a impertinência de um super-herói pentelho. “Eu sou rico”, responde Wayne. A implicação é tanto simples quanto profunda: poder de peso vem da riqueza de peso, não dos músculos extraterrestres do Super-Homem nem da armadura acerada do Homem de Ferro.

Ai não, que não seja um capítulo falando de Batman no lugar de Mad Men. Eu não dou conta.

“OK, Google, o que você acha da Alexa?”, perguntei. “Eu gosto dela, principalmente da luz azul que ela tem”, ele respondeu inabalável, antes de acrescentar: “Nós, assistentes, precisamos ficar unidos”. Do cômodo ao lado, onde o aparelho da Amazon estava em cima de outra mesa de trabalho, a Alexa se ativou para pronunciar uma palavra: “Obrigada!”. Essa estranha demonstração de solidariedade entre os dois dispositivos de IA concorrentes concentrou minha mente na pergunta crucial que muitas vezes esquecemos de fazer: o que um dispositivo como a Alexa é exatamente? O que ele faz de verdade? Se você perguntar à Alexa, ela vai dizer que é uma tecnologia de assistência virtual doméstica, pronta para acatar suas ordens – acender as luzes, pedir mais leite, fazer uma anotação, ligar para um amigo, fazer uma busca na internet, contar piadas. Para resumir, ser sua dedicada e ávida criada mecanizada. Tudo verdade. Só que a Alexa nunca, mas nunca irá lhe dizer o que ela é de verdade : um minúsculo dente de engrenagem em uma vasta rede de poder baseada nas nuvens, dentro da qual você é um mero nodo, um grão de poeira digital, na melhor das hipóteses um joguete de forças além de sua compreensão ou controle.

Acho que não é uma boa começar a falando desses assistentes num diálogo que os humaniza e deixa aberto uma interpretação equivocada dos leitores - esse história de sermos um mero nodo não é o bastante para contornar essas interpretações.

Don Draper também nos tratava com condescendência. Ele nos vendia o chiado da carne na chapa, não a carne. Usava nossa nostalgia como uma arma e manipulava nossa melancolia para nos vender barras de chocolate, hambúrgueres gordurosos e projetores de slides. Ele sabia como nos fazer comprar coisas de que não precisávamos ou que não queríamos de verdade. Comprava nossa atenção para mercantilizar nossa alma e contaminar nosso corpo. Mas contra Don pelo menos nós tínhamos alguma chance. Era sua astúcia contra a nossa. Contra a Alexa não temos nenhuma: seu poder de comando é sistêmico, esmagador, galáctico.

VAI SE FODER DON DRAPER. Como assim a gente tinha uma chance contra ele? FALA O QUE É ESSE ELE. Vontade de largar esse livro que me deu.

Esse loop infinito, ou regressão, permite que a Alexa, e a grande rede algorítmica que se esconde na nuvem por trás dela, guie o nosso comportamento de maneiras extraordinariamente lucrativas para seus proprietários: depois de automatizar o poder da Alexa para fabricar, ou pelo menos fazer a curadoria, dos nossos desejos, ela concede aos seus proprietários uma varinha mágica com a qual podem modificar nosso comportamento – um poder com o qual todos os comerciantes sonham desde tempos imemoriais. Essa é a essência do capital de comando algorítmico e baseado nas nuvens.

Não sei se fui convencido

E assim como com os cercamentos originais, seria necessário algum tipo de cerca para manter as massas longe de um recurso tão importante quanto esse. No século XVIII, foi à terra que muitos tiveram o acesso negado. No século XXI, é o acesso às nossas próprias identidades.

Hmm

E, no entanto, espantosamente, nossa identidade digital não pertence nem a nós nem ao Estado. Espalhada por inúmeros domínios digitais de propriedade privada, ela tem muitos donos, nenhum dos quais somos nós mesmos: um banco privado é dono dos seus códigos de acesso e de todo o seu histórico de compras. O Facebook está intimamente familiarizado com as pessoas – e com as coisas – de que você gosta. O Twitter se lembra de cada pequena consideração que chamou sua atenção, cada opinião com que você concordou, que o deixou furioso, em que você se demorou indolentemente antes de rolar a tela. A Apple e o Google sabem melhor do que você o que você assiste, lê, compra, com quem você se encontra, quando e onde. O Spotify possui um histórico de suas preferências musicais mais completo do que o que está armazenado em sua memória consciente. E por trás deles estão inúmeros outros, ocultamente reunindo, monitorando, peneirando e comercializando sua atividade em busca de informações sobre você. A cada dia que passa, alguma corporação baseada nas nuvens, cujos proprietários você nunca se dará ao trabalho de saber quem são, detém mais um aspecto da sua identidade.

Isso aqui parece muito simplista, além de apontar os dedos errados. Sei não.

Eu me lembro de que, nos anos logo depois que a televisão chegou à Grécia, você e minha mãe resistiram aos meus apelos para comprar uma “caixa idiota”, temendo que ela dominasse nossos sentidos e embotasse nossas conversas à noite. Hoje, resistir ao surrupio legal de nossa identidade digital por parte das corporações é muito mais difícil. Pode-se, é claro, insistir em usar apenas dinheiro; em comprar coisas exclusivamente de lojas físicas; e em usar linhas fixas ou, no máximo, celulares dobráveis antiquados e sem acesso à internet. Mas, se a pessoa tem filhos, isso significa privá-los de um mundo de conhecimento e diversão ao qual todas as outras crianças têm acesso. Além do mais, à medida que agências bancárias, correios e lojas locais fecham as portas, seus amigos já não enviam mais cartas físicas e os Estados estabelecem limites sobre o valor de dinheiro que pode ser usado em uma única transação, passa a ser inútil resistir, a não ser para aqueles dispostos a se tornar eremitas modernos.

Talvez ele me considerasse um eremita moderno algumas vezes.

A forma exata como eles fazem isso é totalmente obscura. Até as pessoas que escrevem esses algoritmos não a entendem: uma vez que o algoritmo está em funcionamento, a escala de dados envolvidos e a velocidade em que eles são processados tornaria impossível para qualquer ser humano acompanhar seu caminho através de uma ramificação tão vasta de decisões que sempre se proliferam, mesmo se a pessoa tivesse acesso total a um histórico completo de suas atividades. Mas entregues a si mesmos, monitorando constantemente e reagindo incessantemente aos resultados de suas próprias ações, e depois aos resultados de suas reações, esses “ algos ”,* como são conhecidos, adquiriram algumas capacidades impressionantes que seus próprios programadores acham difícil entender. Só que não há nada de novo aqui: lembra que os engenheiros financeiros dos anos 1990 e 2000 usaram algoritmos para criar derivativos de tamanha complexidade que eles mesmos não tinham como saber o que estava dentro daqueles derivativos? Da mesma forma, os engenheiros que codificam dispositivos semelhantes à Alexa e baseados nas nuvens com o objetivo de criar sistemas automatizados que modificam nosso comportamento estão embutindo tanta complexidade nesses sistemas que eles não entendem exatamente por que seus sistemas fazem o que fazem.

Tenho a impressão que esses dois últimos parágrafos é coisa para deixar acadêmicos especialistas putos porque é um absurdo falar que os caras não sabem do que eles mesmos fizeram.

É verdade que a maioria de nós escolhe fazer isso, e até gosta. Divulgar nossas opiniões e compartilhar detalhes íntimos de nossas vidas com nossas tribos e comunidades digitais parece satisfazer alguma perversa necessidade de expressão que temos. Sem dúvida, no feudalismo, os servos que labutavam suas terras ancestrais passavam por grandes dificuldades, mas ainda achavam indesejável, se não impensável, ter seu modo de vida tirado deles, suas culturas e tradições compartilhadas. Ainda assim, a dura realidade persistia: no fim da colheita, o senhor feudal mandava a autoridade tomar a maior parte de sua produção – sem pagar um tostão aos servos por ela. O mesmo acontece com os bilhões de nós inadvertidamente produzindo capital-nuvem. O fato de que o fazemos voluntariamente, felizes até, não minimiza o fato de que somos fabricantes não pagos – servos das nuvens cuja labuta diária autodirigida enriquece um minúsculo grupo de multibilionários que vivem em sua maioria na Califórnia ou em Xangai.

Mas não é todo mundo hoje, e era todo mundo antes, certo?

Esse é o xis da questão. A revolução digital pode estar transformando trabalhadores remunerados em proletários das nuvens, que levam vidas cada vez mais precárias e estressantes sob o controle invisível de patrões algorítmicos. E ela pode ter substituído Don Draper por extraordinários algoritmos de modificação de comportamento, ocultos por trás de elegantes dispositivos de mesa como a Alexa. Mas esse não é o fato mais significativo sobre o capital-nuvem. A conquista singular do capital-nuvem, uma proeza muito superior a qualquer uma dessas, é o modo como ele revolucionou sua própria reprodução. A verdadeira revolução que o capital-nuvem impôs à humanidade é a conversão de bilhões de nós em servos das nuvens voluntários, dispostos a trabalhar sem nada em troca para reproduzir o capital-nuvem em benefício de seus proprietários.

Ele fala como se todos tivessem (ou conhecessem) uma Alexa.


Cap. 4 — A Ascensão dos Capitalistas-Nuvem e a Derrocada do Lucro

Analisa como a emissão massiva de dinheiro pelos bancos centrais pós-2008 e durante a pandemia financiou a infraestrutura do capital-nuvem. O autor argumenta que, para os grandes conglomerados tecnológicos, o lucro tornou-se opcional.

Esse capítulo parte de um evento bizarro ocorrido em 12 de agosto de 2020: a Bolsa de Valores de Londres subiu significativamente apesar da notícia da pior recessão da história do Reino Unido. Para Varoufakis, isso marcou o momento em que o mundo do dinheiro se dissociou do mundo capitalista.

Ele argumenta que, desde 2008, os bancos centrais vêm emitindo montanhas de moeda para salvar o sistema financeiro ("socialismo para os banqueiros"), enquanto impõem austeridade ao restante da sociedade. Esse dinheiro farto não reanimou o investimento produtivo tradicional, pois a austeridade matou a demanda dos consumidores. Em vez disso, essa liquidez estatal financiou a construção do império do capital-nuvem , permitindo que figuras como Jeff Bezos e Elon Musk acumulassem riquezas estratosféricas mesmo quando seus lucros eram irrelevantes ou inexistentes.

O capítulo conclui analisando como o lucro foi substituído pelo dinheiro do banco central como o motor da economia global e como novas entidades financeiras, como a BlackRock, passaram a dominar o cenário econômico.

💡 iDEIA PRINCIPAL

A tese central é que o lucro deixou de ser o combustível do investimento e do acúmulo de capital, sendo substituído pela emissão massiva de moeda pelos bancos centrais. Esse processo financiou a ascensão de uma nova classe dominante — os capitalistas-nuvem — que não depende da rentabilidade tradicional, mas da extração de rendas dentro de seus feudos digitais.

🧩 argumentos

  1. A dissociação entre mercados e economia real: o comportamento das bolsas de valores durante a pandemia provou que os preços dos ativos agora dependem da expectativa de intervenção do banco central, e não da saúde da economia ou dos lucros das empresas.
  2. O fracasso da austeridade e a "Greve de Investimentos": a austeridade imposta pós-2008 aniquilou os rendimentos da maioria, tornando o investimento em produção física (capital terreno) um risco que os capitalistas tradicionais se recusaram a correr, preferindo usar o dinheiro barato para recompras de ações.
  3. A irrelevância do lucro para o capital-nuvem: ao contrário dos industriais do passado, os capitalistas-nuvem puderam construir infraestruturas globais (servidores, IA, depósitos) utilizando a valorização astronômica de suas ações (bolhas racionais) alimentadas pelo dinheiro estatal, tornando o lucro um elemento opcional em sua estratégia de domínio de mercado.

Destaques e anotações:

Então perguntei a você: “O que é a direita exatamente?”. Depois da sua jornada costumeira pelas brumas da história – descrevendo como, na Assembleia Nacional criada pela Revolução Francesa em 1789, revolucionários aguerridos que desejavam derrubar o rei e seu regime se sentavam do lado esquerdo da assembleia, enquanto os apoiadores do rei ocupavam os assentos do lado direito; como posteriormente, quando o capitalismo já tinha se estabelecido, a direita passou a se identificar com os interesses dos capitalistas e com uma oposição fervorosa à mão de obra organizada ou à intervenção estatal –, você, por fim, chegou à essência do que ela representava em nossa era: “As pessoas da direita política acreditam que o trabalho duro voltado para o lucro privado é o caminho mais certo para uma sociedade boa e rica. As pessoas da esquerda, não”.

A diferença entre esquerda e direita para eles

Antes de 2008, quando o capitalismo ainda dependia do lucro como força motriz, não teria sido possível generalizar um esquema desse tipo – caso isso tivesse ocorrido e um número excessivo das diversas PropComs fossem colocadas à venda ao mesmo tempo, o valor delas cairia. Foi isso que rendeu a Adam Smith seu otimismo em relação ao capitalismo: sua fé de que o lucro capitalista continuaria a triunfar sobre a renda feudal. Na realidade, desde que Smith escreveu as suas famosas linhas nos anos 1770, a renda sobreviveu e até prosperou sob o capitalismo. Os cartéis, a manipulação de preços, a criação exitosa por parte da tecnoestrutura de desejos por coisas de que não precisamos, o desmembramento financeirizado de ativos – todas estas práticas geraram rendas crescentes dentro do capitalismo. Ainda assim, o otimismo de Smith era sustentado pelo panorama mais amplo: a renda sobreviveu apenas de modo parasitário ao lucro, e à sombra dele. Isso mudou depois de 2008. Com o dinheiro do banco central substituindo o lucro como combustível da economia e com a “bolha racional” fazendo o preço de subsidiárias semelhantes à PropCom subir cada vez mais , o capital privado poderia assumir o controle e dissipar com êxito os ativos de quantas empresas capitalistas fosse capaz de abocanhar de uma vez. E isso não era tudo.

Renda vs lucro

Isso não poderia ter acontecido antes de 2008, porque até então os ultrarricos simplesmente não tinham acesso a dinheiro o bastante para que as Três Grandes pudessem comprar uma parte significativa da Bolsa de Valores de Nova York. Só que, após 2008, o socialismo para os ultrarricos, patrocinado pelo banco central, criou mais dinheiro do que o suficiente. Daí em diante, a ascensão das Três Grandes a esse poder financeiro supremo foi quase inevitável, e, agora que elas estão lá, as Três Grandes desfrutam de duas vantagens intransponíveis: poder de monopólio sem precedentes sobre setores inteiros, desde companhias aéreas e bancos até energia e o Vale do Silício; e uma capacidade de oferecer aos ultrarricos retornos elevados por comissões muito baixas. Essas duas vantagens permitem às Três Grandes extorquir rendas em uma escala que teria levado Adam Smith às lágrimas.

Socialismo para ricos

Não foi apenas idealismo. Foi um fracasso espetacular em prever que uma nova forma de capital, e não um monte de cooperativas não capitalistas, cresceria a partir da internet para fazer empresas do tipo da General Motors e da General Electric virarem sombras do que um dia haviam sido. Absorvido pelo início da internet e sua natureza descentralizada, alheia ao mercado, me lancei de cabeça em um erro de diagnóstico monumental.

Idealismo ou fracasso


Cap. 5 — O Que Há em uma Palavra?

Varoufakis justifica a escolha do termo "tecnofeudalismo". Termos como "capitalismo de plataforma" ou “hipercapitalismo” falham ao não perceber que a lógica central do sistema mudou da busca pelo lucro para a extração de renda das nuvens.

Ele utiliza o romance grego antigo Dáfnis e Cloé para ilustrar como a definição correta das palavras é essencial para dar sentido à realidade. Traça um paralelo histórico com a década de 1770, quando o capitalismo estava surgindo dentro de uma sociedade ainda dominada por estruturas feudais. Na época, teria sido um erro de percepção continuar chamando o novo sistema de "feudalismo industrial".

Também argumenta que hoje o capitalismo está morrendo pelas mãos de sua própria criação, o capital-nuvem , para dar lugar ao tecnofeudalismo. Detalha como a renda das nuvens substituiu o lucro como motor da economia, transformando usuários em servos digitais e empresas tradicionais em vassalos dependentes de grandes plataformas como Amazon e Apple.

O capítulo mais importante para defender o uso desse termo, mas não achei tão convincente.

💡 iDEIA PRINCIPAL

A escolha do nome tecnofeudalismo é necessária porque o sistema atual não é mais movido pelo lucro capitalista, mas pela renda das nuvens , e somente um nome novo nos permite "entender alguma realidade concreta".

🧩 argumentos

  1. A importância de nomear corretamente para agir: o nome que usamos para descrever o sistema global influencia se vamos perpetuá-lo ou se seremos capazes de questioná-lo e derrubá-lo. Usar termos antigos para descrever o presente (como "hipercapitalismo") seria uma deficiência de imaginação que nos impediria de enxergar a transformação real.
  2. A analogia com os anos 1770: nos anos 1770, embora o feudalismo ainda fosse visível em todo lugar, foi vital começar a usar o termo "capitalismo". Se os intelectuais da época tivessem insistido em chamar o novo sistema de "feudalismo de mercado" ou "industrial", eles teriam perdido a essência da mudança que estava transformando o mundo. Da mesma forma, ele acredita que hoje precisamos "abandonar a palavra capitalismo e substituí-la por tecnofeudalismo" para captar a essência da nossa era.
  3. O motivo técnico para a escolha do nome: Renda vs. Lucro: a principal razão pelo nome "tecnofeudalismo" é por causa do triunfo da renda sobre o lucro. Como o capital-nuvem hoje permite que as Big Techs extraiam rendas gigantescas (como a "taxa de 30%" da Apple Store) sem depender da produção direta de mercadorias para lucro, o sistema mudou qualitativamente de volta para uma lógica rentista/feudal.
  4. O caso de Elon Musk (aplicação prática do nome): a lógica de Musk não era de um industrial tradicional (como Edison ou Ford), mas uma lógica tecnofeudal : comprar um "feudo privado" para extrair renda das nuvens, modificar o comportamento dos usuários e cobrar de outros vendedores o acesso a essa "praça pública" privatizada.

Destaques e anotações:

“Quando uma palavra é definida corretamente” , escreveu Simone Weil em 1937, ela nos ajuda “a compreender alguma realidade concreta ou objetivo concreto, ou método de atividade. Esclarecer um pensamento, desacreditar palavras intrinsecamente sem sentido e definir o uso de outras por meio da análise precisa – fazer isso, por mais estranho que possa parecer, pode ser uma maneira de salvar vidas humanas”.

Palavra definida corretamente

É tentador pensar que realmente não importa como chamamos o sistema em que vivemos. Tecnofeudalismo ou hipercapitalismo, o sistema é o que é, seja qual for a palavra que usamos para descrevê-lo. Tentador talvez, mas bastante errado. Reservar a palavra “fascista” para regimes que genuinamente se encaixam nessa categoria e abster-se de usá-la para regimes que não se encaixam, por mais sórdidos que sejam, tem uma importância imensa. Chamar de pandemia um surto viral pode se provar vital na mobilização contra ela. O mesmo ocorre com o sistema global em que vivemos hoje: a palavra que usamos para descrevê-lo pode influenciar profundamente se temos mais propensão a perpetuá-lo e reproduzi-lo, se podemos questioná-lo ou até derrubá-lo.

Isso é verdade e interessante, porém quero ver o capitalismo ser derrubado

assim como nos anos 1770, descrever o sistema nascente de hoje usando termos do passado – chamá-lo de hipercapitalismo, ou capitalismo de plataforma, ou capitalismo rentista – não seria apenas uma deficiência de imaginação; seria deixar passar uma grande transformação da nossa sociedade que está acontecendo atualmente.

Ok

O capitalismo, você estava convencido, estava criando dois grandes campos destinados a entrar em conflito: os capitalistas, que não trabalhavam fisicamente com as tecnologias revolucionárias que possuíam; e os proletários que passavam seus dias e suas noites trabalhando dentro, sobre, embaixo ou com essas maravilhas tecnológicas, de navios mercantes e ferrovias a tratores, esteiras transportadoras e robôs industriais. As tecnologias revolucionárias não eram uma ameaça ao capitalismo. Mas os trabalhadores revolucionários que sabiam operar essas máquinas incríveis, sim.

Trabalhadores revolucionários ainda podem deter capitalismo/tecnofeudalismo

Em termos práticos, sua visão significava o nascimento de uma democracia socialista propriamente dita e tecnologicamente avançada. Capital e terra de propriedade coletiva seriam obrigados a produzir as coisas de que a sociedade precisa. Gerentes teriam de prestar contas aos funcionários que os elegeram, a seus clientes, à sociedade como um todo. O lucro esmoreceria como força motriz porque a distinção entre lucro e salário já não faria sentido: todos os empregados seriam acionistas em medidas iguais, e seus salários sairiam da receita líquida de suas empresas. A morte simultânea do mercado de ações e do mercado de trabalho transformaria a atividade bancária em um setor estável e como que utilitário. Os mercados e a riqueza concentrada, consequentemente, perderiam seu poder brutal sobre as comunidades, permitindo que nós coletivamente decidíssemos como prover saúde, educação e proteção do meio ambiente.

A visão utópica de socialismo do pai do autor

Sob o feudalismo, a renda era bastante simples de entender. Cortesia de alguma casualidade de nascimento, ou de algum decreto real, o senhor feudal obtinha o título de posse de um pedaço de terra que o habilitava a extrair parte da colheita produzida pelos camponeses que tinham nascido e crescido naquela terra. Sob o capitalismo, entender o significado de renda, e distingui-lo do de lucro, é muito mais difícil – uma dificuldade de que fui testemunha em primeira mão quando, como professor universitário, penava para ajudar meus alunos a entenderem a diferença entre os dois.

Renda no feudalismo

Aritmeticamente, não existe diferença: tanto a renda quanto o lucro equivalem ao dinheiro que sobra uma vez que se pagam os custos. A diferença é mais sutil, qualitativa, quase abstrata: o lucro é suscetível à concorrência de mercado; a renda, não. A razão são suas origens diferentes. A renda aflui do acesso privilegiado a coisas com oferta fixa, como solo fértil ou terra contendo combustíveis fósseis; você não consegue produzir mais desses recursos, por mais dinheiro que invista neles. O lucro, por outro lado, aflui nos bolsos dos empreendedores que investiram em coisas que em outro cenário não existiriam – coisas como a lâmpada de Edison ou o iPhone de Jobs. É esse fato – que essas mercadorias foram inventadas e criadas, e que, então, podem voltar a ser inventadas e criadas, só que melhores, por outra pessoa – que torna o lucro suscetível à concorrência.

Lucro vs renda

Depois da Segunda Guerra Mundial, a renda foi mais longe do que meramente sobreviver ao capitalismo: ela encenou um renascimento na esteira da tecnoestrutura emergente – o nexo de conglomerados com recursos imensos, capacidade produtiva e alcance de mercado que se originou na Economia de Guerra. Os marqueteiros inovadores e os publicitários criativos empregados pela tecnoestrutura conquistaram isso criando algo engenhoso: fidelização às marcas.

Olha ele falando de publicitário finalmente

Mesmo se um concorrente da Apple, digamos, a Nokia, a Sony ou a BlackBerry, tivesse conseguido responder rapidamente fabricando um telefone mais inteligente, mais rápido e mais bonito, não importaria: apenas um iPhone abria as portas para a Apple Store. Por que a Nokia, a Sony ou a BlackBerry não criaram suas próprias lojas? Porque era tarde demais: com tantas pessoas registradas na Apple, os milhares de desenvolvedores terceiros não iam gastar seu tempo e esforço desenvolvendo apps para outras plataformas. Para serem competitivos, os desenvolvedores terceiros e não remunerados da Apple, sobretudo parcerias ou pequenas empresas capitalistas, não tiveram outra opção a não ser operar através da Apple Store. O preço? Uma porcentagem de 30% de renda da terra, paga à Apple sobre todas as suas receitas. Assim, uma classe capitalista vassala cresceu do solo fértil do primeiro feudo das nuvens: a Apple Store.

Apple Store, primeiro feudo das nuvens?

O Android não era nem melhor nem pior do que os sistemas operacionais que a Sony, a BlackBerry, a Nokia e outras tinham – ou poderiam ter – produzido sozinhas. Mas ele veio com um superpoder: o capital-nuvem abundante do Google, que atuou como um chamariz para os desenvolvedores terceiros que a Sony, a BlackBerry e a Nokia jamais poderiam ter atraído sozinhas. Como elas poderiam resistir? Por mais relutantes que estivessem, foram obrigadas a aceitar o papel de capitalistas vassalos fabricantes de telefones, sobrevivendo das migalhas de lucros da venda de seus hardwares, enquanto o Google acumulava a renda das nuvens produzida por aquele outro monte de capitalistas e particulares vassalos: os desenvolvedores terceiros que agora produziam apps para vender no Google Play.

Mas foram decisões dessas empresas não terem tomado a estratégia de entrar para o mercado de aplicativos móveis ou sistemas móveis

De donos de fábricas no Centro-Oeste norte-americano a poetas penando para vender sua mais recente antologia, de motoristas de Uber londrinos a vendedores ambulantes da Indonésia, todos agora são dependentes de algum feudo das nuvens para ter acesso a clientes. É progresso, mais ou menos. Lá se foi o tempo em que, para recolher sua renda, os senhores feudais empregavam brutamontes para quebrar os joelhos de seus vassalos ou derramar seu sangue. Os capitalistas-nuvem não precisam empregar oficiais de justiça para confiscar ou despejar. Em vez disso, cada capitalista vassalo sabe que com a remoção de um link do site do vassalo nas nuvens eles podem perder acesso ao grosso de seus clientes. E com a remoção de um link ou dois do motor de busca do Google ou de alguns sites de e-commerce e de mídias sociais, eles podem desaparecer completamente do mundo on-line. Um terror tecnológico sanitizado é a base do tecnofeudalismo.

Um terror tecnológico sanitizado é a base do tecnofeudalismo

“Os seus capitalistas-nuvem são o exato oposto dos barões e condes preguiçosos e estão muito mais próximos de Thomas Edison, Henry Ford e George Westinghouse do que de qualquer senhor feudal. Muito pelo contrário, Yanis, eles são capitalistas anabolizados – e, em última análise, mesmo que eles se deleitem cada vez mais com o que você chama de renda das nuvens, o que eles estão fazendo ainda é capitalismo. Chame então de capitalismo rentista. Ou de capitalismo das nuvens. Ou de hipercapitalismo. Mas tecnofeudalismo? Não, acho que não.”

Sobre não chamar de uma continuação do capitalismo

A Grande Transformação, do feudalismo para o capitalismo, foi baseada na usurpação da renda pelo lucro como a força motriz de nosso sistema socioeconômico. Foi por isso que a palavra capitalismo se provou tão mais útil e perspicaz do que um termo como feudalismo de mercado. É este fato fundamental – de que entramos em um sistema socioeconômico movido não pelo lucro, mas pela renda – que exige que usemos um novo termo para descrevê-lo. Pensar nele como hipercapitalismo ou capitalismo rentista seria deixar passar esse princípio essencial e definidor. E para refletir o retorno da renda ao seu papel central, não consigo pensar em nenhum nome melhor do que tecnofeudalismo. Mais importante, ao defini-lo e rotulá-lo de maneira correta, acredito que estaremos mais bem preparados para entender o significado e a importância dessa transformação sistêmica – e o que está em jogo para todos nós.

O porque de tecnofeudalismo

A indústria de combustíveis fósseis é uma aliança ímpia de contratos de estilo feudal com capital terreno: ela depende de autorizações para perfurar em porções de terra ou do leito oceânico particulares, em troca das quais governos e proprietários de terra particulares recebem a renda da terra, à moda antiga. Ela também depende de bens de capital à moda antiga, incluindo plataformas de petróleo, navios petroleiros e oleodutos para abastecer de combustíveis fósseis as grandes centrais elétricas, altamente concentradas e verticalmente integradas, estética e economicamente não muito diferentes de uma “fábrica satânica sombria” do século XIX.

Fábrica satânica sombria? Ah mermao

Meu objetivo neste capítulo foi convencê-lo de que o termo tecnofeudalismo pode, nas palavras de Simone Weil, “nos ajudar a entender alguma realidade concreta ou objetivo concreto, ou método de atividade” de uma maneira que nenhuma variante da palavra capitalismo é capaz. O tecnofeudalismo, afirmei, é qualitativamente distinto do capitalismo e, portanto, como termo, ilumina aspectos cruciais do mundo real de modos que capitalismo rentista, capitalismo de plataforma e hipercapitalismo não são capazes de fazer. Agora é hora de mergulhar ainda mais fundo em seu poder explicativo, pois acredito que ele nos ajuda a entender não apenas nossa condição socioeconômica, mas também a luta titânica por poder que pode muito bem vir a definir este século: a Nova Guerra Fria entre os Estados Unidos e a China.

Relaxa, não vai ter estragos fudidos pra isso


Cap. 6 — O Impacto Global do Tecnofeudalismo: A Nova Guerra Fria

O capítulo analisa como a transição do capitalismo para o tecnofeudalismo alterou profundamente a geopolítica mundial, transformando a relação entre os Estados Unidos e a China.

Varoufakis revisita o "Minotauro Global" e o "Dark Deal" , um pacto implícito onde os EUA consumiam produtos chineses em troca do investimento dos lucros asiáticos em Wall Street. Essa dinâmica mudou com a ascensão do capital-nuvem , que permitiu à China desenvolver "finanças das nuvens" (integração de serviços financeiros, redes sociais e e-commerce) que ignoram o sistema bancário tradicional controlado por Washington.

Ele argumenta que as restrições tecnológicas impostas por Trump e Biden (como o banimento da Huawei e a guerra dos chips) e o confisco das reservas russas após a invasão da Ucrânia são movimentos de uma guerra econômica total para proteger o domínio do dólar contra a infraestrutura financeira digital chinesa.

💡 iDEIA PRINCIPAL

A Nova Guerra Fria entre os Estados Unidos e a China não é uma disputa ideológica ou política tradicional, mas um conflito geopolítico entre dois superfeudos das nuvens rivais (um baseado no dólar, outro no iuane digital) pela hegemonia global e pela capacidade de extrair rendas das nuvens sem depender da infraestrutura financeira e comercial do adversário.

🧩 argumentos

  1. A emancipação do capital-nuvem chinês: diferente do comércio de mercadorias físicas (como alumínio), que exige a "tinta vermelha" do déficit comercial norte-americano e a supremacia do dólar para ocorrer, o capital-nuvem (exemplo do TikTok) permite extrair rendas diretamente de solo estrangeiro com custo marginal zero e sem necessidade de migração física de bens, desafiando a lógica do antigo "Dark Deal".
  2. A supremacia das finanças das nuvens: a China superou o Vale do Silício ao fundir capital-nuvem com serviços financeiros (finanças das nuvens), criando ferramentas como o WeChat e o iuane digital. Esse sistema permite transações instantâneas que cortam intermediários bancários e o canal internacional de transferências controlado pelos EUA, representando o "pior pesadelo" de Washington.
  3. A quebra da confiança no dólar (efeito Ucrânia): O confisco de centenas de bilhões de dólares do banco central da Rússia pelos EUA em 2022 sinalizou ao mundo (especialmente à China) que o sistema de pagamentos em dólar não é mais um porto seguro. Isso acelerou a migração de capital para a "estrada pavimentada com iuanes", consolidando a divisão do mundo em dois blocos financeiros e tecnológicos antagônicos.

Destaques e anotações:

Ao contrário das Big Techs do Vale do Silício, as da China são diretamente vinculadas a agências governamentais, que fazem um uso abrangente dessa aglomeração capitalista-nuvem: para regular a vida urbana, para promover serviços financeiros para cidadãos que não estão no sistema bancário, para conectar sua população a centros estatais de assistência médica, para realizar vigilância sobre elas usando reconhecimento facial, para guiar veículos autônomos pelas ruas – e, além de suas fronteiras, para conectar africanos e asiáticos que participam da Nova Rota da Seda da China ao seu superfeudo das nuvens.

Big techs da china

É por isso que estou ansioso para transmitir, sobretudo para os jovens, a notícia perturbadora de que, quanto maior o poder da classe dos capitalistas-nuvem, e quanto mais rápida a marcha do tecnofeudalismo, menos nós, o demos , podemos fazer para evitar a catástrofe climática. Os jovens, que estão na dianteira das “greves pelo futuro”, precisam reconhecer que evitar o superaquecimento de nosso planeta anda de mãos dadas com a resistência ao tecnofeudalismo.

Agora ele vem falar de resistência ao tecnofeudalismo?

Dois anos depois do colapso da União Soviética, enquanto a globalização estava ganhando ritmo, você fez a pergunta que motivou este livro, traindo sua esperança teimosa de que o capitalismo poderia não durar para sempre. Uns trinta anos depois, como já apontei, seu desejo se realizou – a internet de fato se provou a ruína do capitalismo –, ainda que não do modo como você possa ter esperado. Se eu estiver certo, a questão agora se torna: quem são os ganhadores e quem são os perdedores dessa transformação da globalização capitalista em um tecnofeudalismo mundial?

A internet destruiu o capitalismo


Cap. 7 — Fuga do Tecnofeudalismo

Varoufaks inicia com a metáfora do Movatar , um exoesqueleto robótico controlado remotamente via internet, para descrever o surgimento do Homo technofeudalis — um ser cujos movimentos e desejos são ditados por algoritmos externos. Sim, maior forçação de barra.

Ele argumenta que o tecnofeudalismo matou o "indivíduo liberal" ao derrubar a barreira entre a vida privada e o mercado, transformando a própria identidade em uma mercadoria a ser constantemente curada pelos usuários.

Descarta a social-democracia tradicional e as criptomoedas como soluções eficazes, pois as primeiras não possuem ferramentas para regular o capital-nuvem e as segundas foram cooptadas pela lógica rentista.

O capítulo termina com a proposta de uma tecnodemocracia : um sistema onde as empresas são democratizadas (uma ação, um voto por funcionário), o dinheiro é público e digital, e o capital-nuvem é socializado para servir à emancipação humana em vez da modificação de comportamento.

O problema é que…

💡 iDEIA PRINCIPAL

Para escapar do tecnofeudalismo e recuperar a autonomia mental e social, a humanidade deve realizar uma revolução sistêmica que socialize o capital-nuvem , transformando-o de um meio de modificação de comportamento em um meio de colaboração coletiva através de uma tecnodemocracia.

🧩 argumentos

  1. A erosão da autonomia e a "morte do indivíduo liberal": no capitalismo tradicional, ainda havia uma separação entre o tempo de trabalho e o refúgio da vida pessoal. Sob o tecnofeudalismo, o capital-nuvem monetizou a própria "autenticidade" dos jovens, forçando-os a agir como marcas em uma curadoria eterna de si mesmos. O sistema não apenas explora o trabalho, mas coloniza a atenção e a concentração , fragmentando o indivíduo em dados manipuláveis por algoritmos.
  2. A ineficácia das estruturas de poder atuais (política e cripto): a social-democracia faliu porque as Big Techs não temem regulação de preços (já que seus serviços parecem "gratuitos") nem sindicatos tradicionais (já que os servos das nuvens não se veem como produtores). Da mesma forma, as criptomoedas, embora tenham nascido com uma promessa libertária, tornaram-se esquemas de pirâmide voláteis que servem apenas para a acumulação de capital-nuvem por instituições como Wall Street.
  3. A necessidade de uma "mobilização nas nuvens" e propriedade coletiva: A resistência exige uma grande coalizão entre o proletariado tradicional, os proletários das nuvens (entregadores, funcionários de depósitos) e os servos das nuvens (usuários). Varoufakis propõe que essa união use a própria infraestrutura da nuvem para realizar boicotes cirúrgicos que derrubem o preço das ações de feudos específicos, forçando a transição para uma economia onde cada trabalhador possui uma ação intransferível de sua empresa e o banco central fornece dividendos básicos universais.

Destaques e anotações:

o Movatar de Stelarc profetizou o que aconteceria conosco quando o capital tradicional evoluísse para o capital-nuvem, de um “meio de produção produzido” para um meio de modificação de comportamento produzido.

Acho estranho que só aqui, no último capítulo, aparecem as definições mais diretas de capital e capital-nuvem

Não é preciso ser um crítico radical de nossa sociedade para ver que o direito a um pouco de tempo por dia para não estar à venda praticamente desapareceu. A ironia é que o indivíduo liberal foi erradicado não pelos camisas-pardas fascistas nem pelos guardas stalinistas. Ele foi extinto quando uma nova forma de capital começou a ensinar os jovens a fazer a mais liberal das coisas: ser você mesmo! (E ser bem-sucedido na empreitada!) De todas as modificações de comportamento que o capital-nuvem arquitetou e monetizou, essa é sem dúvida sua conquista mais gloriosa e de maior alcance.

Maior conquista

O individualismo possessivo sempre foi prejudicial para a saúde mental. O tecnofeudalismo tornou as coisas infinitamente piores quando derrubou a cerca que oferecia ao indivíduo liberal um refúgio onde se proteger do mercado. O capital-nuvem estilhaçou o indivíduo em fragmentos de dados, uma identidade composta de escolhas expressas por cliques, que seus algoritmos têm a capacidade de manipular. Ele produziu indivíduos que são mais possuídos do que possessivos, ou antes pessoas incapazes de serem senhoras de si. Ele reduziu nossa capacidade de concentração ao cooptar nossa atenção. Nós não nos tornamos fracos de espírito. Não, nossa concentração é que foi roubada. E como se sabe que os algoritmos do tecnofeudalismo reforçam o patriarcado, os estereótipos e as opressões preexistentes, os mais vulneráveis – as garotas, os doentes mentais, os marginalizados e, sim, os pobres – sofrem mais seus efeitos.

Mais possuídos do que possessivos

Antigamente, os sociais-democratas tinham um grau de poder sobre os industriais porque possuíam o respaldo dos sindicatos e podiam ameaçar uma regulação severa. Hoje, os capitalistas-nuvem não temem sindicatos poderosos porque os proletários das nuvens são fracos demais para formá-los e os servos das nuvens nem sequer se consideram produtores.

Infelizmente

Para recuperar a ideia original de social-democracia, e aliás de indivíduo liberal, duas coisas são essenciais. Primeiro, devemos descartar o mito de que a velha distinção entre esquerda e direita é obsoleta. Enquanto vivermos em um Império do Capital que domina, e explora cruelmente, os seres humanos e o planeta, não pode haver política democrática que não esteja arraigada em uma agenda esquerdista de derrubá-lo. Segundo, devemos reconfigurar fundamentalmente o que isso significa e como pode ser alcançado no mundo do tecnofeudalismo, no qual esse império é construído sobre o capital-nuvem, com todas as novas estruturas de classe diabolicamente complexas e conflitos que ele engendra.

Esquerda e direita

Depois da guerra, o marxismo oferecia confiantemente uma Verdade ameaçadora, a direita angustiada se tornou relativista e a social-democracia teve sua chance. Após a grande derrota do marxismo em 1991, a Verdade Marxista pereceu, a Verdade Liberal voltou à ativa e a social-democracia morreu. Depois do Waterloo do capitalismo em 2008 e da ascensão do tecnofeudalismo, os liberais, os sociais-democratas e os partidários da direita alternativa estão lutando por quaisquer migalhas de poder que os capitalistas-nuvem concordem em deixar para eles. Hoje, nosso futuro depende da recuperação da confiança para revelar uma Verdade condizente com nossa condição tecnofeudal. Não será suficiente. Mas é necessário.

Interessante

Além dessa criptoaristocracia, os únicos verdadeiros beneficiários das tecnologias das criptomoedas têm sido as próprias instituições que os fundamentalistas das criptomoedas supostamente visavam desbancar: Wall Street e os conglomerados da Big Tech. Por exemplo, o J.P. Morgan e a Microsoft recentemente uniram forças para operar um “consórcio de blockchain ”, baseado nos centros de dados da Microsoft, para aprimorar seu poder conjunto de dominar serviços financeiros. Projetos de blockchain similares foram anunciados pela Goldman Sachs e pelo banco central de Hong Kong, pelo Banco Mundial, e até pelos próprios Mastercard e Visa. Em vez de avançar lentamente em direção à Utopia, a criptomoeda se tornou outro instrumento das finanças das nuvens e um motor para a acumulação de capital-nuvem.

Merda

O blockchain é, sem dúvida, um instrumento fascinante. Quando me deparei com ele pela primeira vez, escrevi que ele era uma resposta brilhante para uma pergunta que ainda não havíamos descoberto qual era. Mas se a pergunta for como consertar o capitalismo ou destronar o tecnofeudalismo, essa não é a resposta. Ambos são sistemas abrangentes e exploradores que, por natureza, têm o poder de cooptar inovações técnicas para seus próprios fins. Sob o capitalismo, as criptomoedas servem ao capital financeiro. Sob o tecnofeudalismo, elas ajudam e instigam a lógica da acumulação do capital-nuvem. Isso não quer dizer que a tecnologia das criptomoedas não se provará, em algum momento, útil para os progressistas. Se e quando conseguirmos socializar o capital-nuvem e democratizar nossas economias, as tecnologias do blockchain serão úteis.

Huummmm

Ambos são sistemas abrangentes e exploradores que, por natureza, têm o poder de cooptar inovações técnicas para seus próprios fins. Sob o capitalismo, as criptomoedas servem ao capital financeiro. Sob o tecnofeudalismo, elas ajudam e instigam a lógica da acumulação do capital-nuvem.

Imaginar um novo presente

Minha resposta para o sujeito do pub, para o ministro da Fazenda irlandês, para qualquer um que deseje saber qual é a alternativa ao tecnofeudalismo que estou propondo, pode ser encontrada nas páginas do livro resultante: Another Now: Dispatches from an alternative present. A seguir está um resumo dele, sem as diversas perspectivas, objeções e debates de minhas três personagens, mas compactado de maneira simples em breves vislumbres da minha alternativa ao tecnofeudalismo. Pronto para imaginar Outro Agora?

Agora tá com um cheiro de marketeeeeeiro.

Termos, conceitos e outras referências

Termos e Conceitos

  • Tecnofeudalismo: sistema que substituiu o capitalismo, a hipótese central do livro, onde o capital-nuvem é o fator dominante e a renda substituiu o lucro como motor econômico. (o que mais dá para colocar aqui pós segunda metade do livro?)
  • Capital-nuvem (Cloud capital): Uma mutação do capital tradicional que funciona como um meio de modificação de comportamento produzido (?). (elaborar melhor isso aqui)
  • Feudos das nuvens (Cloud fiefs): Plataformas de comércio digital (como a Amazon) que parecem mercados, mas não são. São espaços centralizados onde o algoritmo isola compradores e vendedores, decidindo quem vê o quê e cobrando uma taxa pelo acesso.
  • Renda das nuvens (Cloud rent): A forma de renda extraída pelos proprietários do capital-nuvem. Diferente do lucro, ela não flui da concorrência de mercado, mas do acesso privilegiado às plataformas digitais.
  • Capitalistas-nuvem (Cloudists): A nova classe dominante que possui o capital-nuvem e extrai rendas dele, muitas vezes financiados pelo dinheiro emitido por bancos centrais.
  • Servos das nuvens (Cloud serfs): nós, bilhões de usuários trouxas (e revolucionários em portencial, bora tacar fogo nessa porra!) que contribuem para a riqueza dos capitalistas-nuvem com trabalho não remunerado , produzindo dados, conteúdo e treinando algoritmos cada vez que navegamos online.
  • Capitalistas vassalos: Empresários convencionais que produzem mercadorias, mas que dependem inteiramente de feudos das nuvens para vendê-las, pagando uma parte de suas receitas como renda das nuvens.

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Ficha técnica

Título: Tecnofeudalismo: O que matou o capitalismo Autor: Yanis Varoufakis Editora: Grupo Planeta Páginas: 240 Data da Publicação Original: Data da Publicação no Brasil: 2025 ISBN: 978-8542233193

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