Comentários em blogs e nova moderação no Ghost
Desde que as Big Techs dominaram a internet e a blogosfera se enfraqueceu, não é como se tivéssemos mantido a cultura de comentar em outros cantos digitais por aí.
O Cosmoliko passou pelo menos 10 anos no WordPress tendo recebido dois comentários no máximo.
(Adoro que um deles era do meu tio, com quase zero letramento digital, mas o bastante para conseguir comentar que eu era corajoso num post sobre pegar carona na estrada).
Se eu me importasse com essa métrica, não teria mantido o Cosmoliko. Mas não era por conta de comentários, por conta da reação do outro, que eu havia criado ele.
Talvez por isso eu não desse tanta importância ao fato de a plataforma Ghost não ter comentários, essa coisa tão básica em uma plataforma de gerenciamento de conteúdo.
Quando a funcionalidade foi implementada nativamente, em 2023, pensei "legal!”, mas não é como se eu tivesse a pretensão de, de repente, ter uma legião de leitores engajados. Nem sequer tenho um volume razoável de visitas e inscritos.
uma internet mais viva
Nos últimos meses, porém, tenho visto mais e mais pessoas tentando fugir dos algoritmos e voltando à arte de blogar. Elas buscam uma slow web e alimentam comunidades, lembrando os tempos áureos da internet.
Vejo isso acontecendo, inclusive, em movimentos que fomentam a produção de conteúdo independente na internet, como o diretório e agregador de feeds de blogs e newsletters Lerama1]], o grande blogroll do Blogueiros Raiz, o Discovery Feed do [Bear Blog e o coletivo [Entreblogs[[2]].
Parece uma forma de dizer que a Teoria da Internet Morta é conversa pra boi dormir. Porque se você resolver navegar como quando a internet era um lugar (e ainda por cima um lugar legal), vai ver que ela continua viva.
“A internet sempre estará cheia de pessoas reais: procurando umas às outras, respondendo a pedidos de ajuda e compartilhando risadas mesmo em meio a discussões.”, diz a experiência interativa que representa a "Teoria da Internet Viva" (Alive Internet Theory)[[3]].
Essa experiência funciona como uma invocação do espírito da web humana antiga, resgatando dezenas de milhões de artefatos reais da internet do Internet Archive, como imagens, vídeos, músicas e textos enviados por pessoas reais.
E nada melhor para manter a internet viva do que reagindo e comentando nos textos de quem publica.
Sinto isso também por aqui. Nos últimos meses, de vez em quando alguém aparece e comenta, enchendo de amor meu coração. Afinal, todo mundo que escreve, seja lá o que for, precisa de validação externa. É sinal de que alguém atravessou a ponte.
Também tem aumentado as trocas por e-mails. Esses dias, recebi um que me fez lembrar qual costumava ser o propósito de alguns textos que eu compartilhava (falar sobre depressão e saúde mental), e que eu desviei disso por tempo demais. Acho que era mais fácil desabafar quando não tinha ninguém lendo, mas o impacto é muito maior quando alguém responde e adiciona uma nova camada ao que escrevi (e que nem me representa mais, pois eu mudei e não sou mais a pessoa que escreveu aquilo).
Talvez, por isso, eu prefira receber comentários no lugar de e-mails quando é para aprofundar o assunto, dar continuidade ao tema. Pois o comentário é público, cria rastro, incita conversa, diz para outras pessoas: “aqui tem alguém”. O comentário modifica o próprio texto. Já quando é para aprofundar a relação, o e-mail segue imbatível.
Nessa de valorizar mais os comentários, de contribuir com uma internet viva e pulsante, não somente publicando mas atravessando outras pontes por aí, comentei no blog Deniac e, meu deus, percebi que o link atrelado ao meu perfil no gravatar AINDA É O LINK PARA O PERFIL NO ORKUT.
Abri a minha página de leitor no Wordpress e encontrei antigas publicações em diferentes blogs. Senti mais vergonha do que qualquer tipo de saudosismo de blogs que eu nem lembrava ter criado. Me dou um desconto porque era adolescente, e adolescentes não devem ser condenados por prezarem a gramática caótica e radioativa do que se tornou o tiopês em detrimento do uso correto do português.
(pensar que nenhum adolescente de hoje deve saber do que se trata o tiopês me faz sentir sentimentos)
Ghost 6: o empurrãozinho certo na hora certa
Mantive uma postura crítica em relação a versão 6 do Ghost, a qual tinha grandes expectativas de me conectar ao fediverso via ActivityPub e ter um analytics nativo. No fim, não encontrei valor algum na conexão com ActivityPub, e o analytics nativo nem sequer funciona para mim, que não tenho conta no Ghost Pro. É como se eu continuasse usando o Ghost 5.
Apesar disso, tem sido bacana ver pequenas atualizações mais úteis, como: avisos de emails que excedem limite de tamanho, e-mails de boas vindas, e moderação de comentários!
Essa última não podia vir em melhor hora. Bem quando estou começando a valorizar mais os comentários, justamente porque eles valorizam mais uma internet viva, o Ghost implementa um sistema de gerenciamento de comentários no próprio dashboard: com filtragens, sinalizadores e links diretos para os comentários.
(obrigado time do Ghost!)
((Aliás, por favor, caras, implementem um sistema de gerenciamento de mídia. Eu nunca lhes pedi nada!))
Tela da moderação de comentários diretamente no dashboard do Ghost. Prometo que vou responder todo mundo! (como se esse todo mundo fosse muita gente)
Vou fazer dessa novidade no Ghost e dos bons ventos na internet de hoje um compromisso para dar mais atenção aos comentários, seja nos meus próprios posts ou dos outros. Talvez agora eu queira que o Cosmoliko seja mantido mais por causa da reação do outro. Que ele não dependa mais só da minha vontade, mas da interação humana em tempos de tanta gente deixando as notícias negativas (e mentirosas) ditarem seus próprios comportamentos e reações toda vez que estão olhando para uma tela.
Como eu sei que não falta gente preocupada com privacidade, mantenho o convite para interagirem comigo por e-mail e faço o mesmo com quem não tem os comentários abertos. É legal criar vínculos com estranhos dessa internet, que rapidamente deixam de ser estranhos.
Tem coisa mais punk para se fazer na internet hoje em dia do que se conectar com estranhos e não as mesmas versões de você mesmo que os feeds entregam?
[[1]]: Ainda que eu tenha minhas dúvidas se misturar blogs com newsletters, principalmente do substack, tornem a internet mais legal. Acredito que newsletters e blogs são coisas distintas, por mais que a divisão pareça borrada.
[[2]]: Aliás, depois de ver um blog mais legal que o outro participando, resolvi entrar para o bonde também!
[3]]: Que o Guilherme bem lembrou esses dias [nesse post.
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