External Publication
Visit Post

Do zellige aos arcos: conheça 6 elementos arquitetônicos do Marrocos

Casa e Jardim | Sua casa linda do seu jeito [Unofficial] June 12, 2026
Source
Neste sábado (13/6), acontece a estreia do Brasil na Copa do Mundo FIFA 2026. A seleção brasileira joga contra o Marrocos, considerado um dos principais adversários do país na fase de grupos. Para além das táticas de futebol, o Marrocos se destaca por uma arquitetura sensorial e ornamental. “É uma arquitetura que acolhe e envolve. Pensada a partir de uma escala humana, ela coloca o indivíduo no centro da experiência espacial — o humano é sempre o protagonista na arquitetura marroquina”, diz Guilherme Clemente David, arquiteto do escritório Lullius Arquitetura. A arquitetura do país foi influenciada pelos berberes, povo nativo do norte da África, cujas técnicas de construção em terra crua e adaptação ao clima árido estabeleceram a base das transformações. A Mesquita Koutoubia, em Marrakech, é um dos principais marcos da arquitetura marroquina. Construída no século 12, destaca-se pelo minarete de planta quadrada, que se tornou referência estética e urbana na cidade Jorge Láscar/Flickr No século 7, a chegada do Islã conferiu uma dimensão espiritual às construções. “A geometria como reflexo da ordem divina, a caligrafia como ornamento sagrado e a introversão dos espaços como proteção da vida familiar e religiosa”, aponta Camila Forcellini, coordenadora acadêmica dos cursos de Arquitetura, Urbanismo e Design na Universidade Anhembi Morumbi. Leia mais Com o tempo, somaram-se elementos sírios e persas à consolidação de um vocabulário arquitetônico grandioso, mas austero. Destaca-se ainda a herança andaluza: após a Reconquista espanhola, milhares de artesãos e arquitetos mouros se refugiaram no Marrocos, deixando como legado o pensamento construtivo de Granada e Córdoba. Riads e pátios O riad (do árabe riyad, jardim) é a habitação tradicional urbana organizada em torno de um pátio ajardinado. “Pode ser considerada como a expressão máxima da filosofia de introversão: fachada cega para a rua, paraíso interno elaborado e com riqueza visual e ambiental para a família”, explica Camila. O elemento é complementado pelo pátio, outro símbolo da arquitetura marroquina. “Invariavelmente há uma fonte ao centro, pois o som da água é parte integrante do projeto, que compõe o paisagismo junto a laranjeiras ou limoeiros e galerias arcadas ao redor. A luz entra de cima, filtrada e distribuída, criando uma atmosfera de intimidade e serenidade que nenhuma janela para a rua poderia proporcionar”, diz a professora. A Medersa Ben Youssef, em Marrakech, é uma antiga escola islâmica do século 14 conhecida por sua arquitetura exuberante, com pátio central revestido em zellige, estuques esculpidos e madeira de cedro entalhada Lullius Arquitetura/Divulgação Os riads se consolidam no contexto da cultura urbana islâmica no Marrocos, a partir de uma lógica arquitetônica que privilegia a vida interior, a privacidade e o pátio como centro da casa. “Inicialmente criados para fins residenciais de famílias abastadas, hoje são comumente adaptados a hotéis e casas de hospedagem”, completa Luiz Fernando Chiuchi, do Lullius Arquitetura. As próprias mesquitas se inspiram nos pátios centrais. Essas construções costumam combinar pátio, fonte e colunas de cedro entalhado. “O minarete quadrado é a marca registrada, diferente do mundo islâmico oriental. A orientação para Meca organiza toda a planta”, afirma Camila. A Mesquita e Universidade al-Qarawiyyin, em Fez, é um dos mais importantes conjuntos da arquitetura islâmica do Marrocos, marcada por pátios com fontes de mármore, mosaicos de zellige e uma rica ornamentação em madeira e estuque Lullius Arquitetura/Divulgação Fundada por Fátima al-Fihri, a al-Qarawiyyin é uma mesquita que também abriga uma das instituições de ensino mais antigas do mundo ainda em funcionamento. O pátio, com fontes de mármore e mosaicos de zellige, é reconhecido como um dos espaços mais contemplativos do país. Jardins O Jardim Majorelle, em Marrakech, é conhecido pelo intenso contraste do azul cobalto com a vegetação exótica e os elementos aquáticos que criam um oásis de cor e tranquilidade Lullius Arquitetura/Divulgação Na arquitetura marroquina, os jardins aparecem como extensões dos espaços internos, integrados aos pátios e concebidos como ambientes de contemplação e frescor. Mais do que função paisagística, eles assumem um papel sensorial e simbólico, evocando a ideia de refúgio e intimidade. "Os pátios são explorados com fontes e jardins, auxiliando no conforto térmico e na iluminação, fatores importantíssimos dentro do contexto bioclimático local, além de propiciar a seus habitantes total privacidade", diz Guilherme. Zellige O zellige é uma técnica tradicional marroquina de mosaicos em cerâmica esmaltada, formada por pequenas peças cortadas à mão e montadas em padrões geométricos precisos, criando superfícies vibrantes que combinam cor, simetria e artesanato minucioso إيان/Wikimedia Commons O zellige é um mosaico de cerâmica esmaltada, cortado à mão em formas geométricas precisas e montado como um quebra-cabeça. “Cada peça é produzida artesanalmente em Fez, a capital histórica dessa tradição, e os padrões, chamados de girih, carregam significados matemáticos e cosmológicos”, descreve Camila. Cada ângulo obedece a uma lógica geométrica derivada da tradição islâmica de representar o infinito através da repetição. Arcos Os mercados em Marrocos se dividem entre os tradicionais souks e redes modernas de supermercados. Nos souks, arcos estruturam os corredores e reforçam a atmosfera histórica do país Lullius Arquitetura/Divulgação As construções marroquinas são caracterizadas por quatro principais tipos de arcos. “O arco de ferradura, herdado dos visigodos via Al-Ândalus, é o mais característico. Mas há também o arco de ferradura apontado, o arco multilobulado, com recortes internos que parecem pétalas, e o arco de moçárabe, que transita para os tetos”, conta a professora. Leia também Painéis de estuque “As mesquitas marroquinas se destacam pelo minarete de planta quadrada, diferente de outras regiões do Oriente Médio, e por interiores ricamente ornamentados com estuques, madeira entalhada e mosaicos, que evidenciam a excelência da artesania local”, destaca Guilherme. Os estuques são argamassas feitas de cal, areia e água. No Marrocos, o material é entalhado à mão para criar texturas únicas. “Artesãos passam anos aprendendo a talhar, em gesso ainda úmido, arabescos, caligrafia corânica e padrões geométricos de uma complexidade que desafia a compreensão”, completa Camila. Cedro esculpido na Medersa Cherratine, em Fez, revela a precisão dos trabalhos artesanais marroquinos, com detalhes entalhados que valorizam a madeira e reforçam a sofisticação da arquitetura marroquina Bernard Blanc/Flickr Carpintaria Também adicionando textura e acolhimento às construções está a carpintaria de cedro do Atlas. “Tetos, muxarabis e portais esculpidos em cedro perfumado completam a tríade decorativa junto com o zellige e o estuque”, ela descreve. As madrassas são colégios corânicos que também funcionam como hospedarias para estudantes. “São os edifícios onde a arquitetura marroquina atinge sua máxima intensidade: do piso ao teto, cada centímetro é coberto por zellige, estuque entalhado ou madeira de cedro esculpida”, opina. Mesquita Hassan II, em Casablanca, é uma das maiores mesquitas do mundo e um marco da arquitetura marroquina contemporânea, combinando técnicas artesanais tradicionais, como o zellige e o cedro entalhado PxHere/Creative Commons A Mesquita Hassan II, inaugurada em 1993, em Casablanca, é um dos mais emblemáticos exemplos da arquitetura marroquina contemporânea. Com um minarete de proporções monumentais e parcialmente erguida sobre o oceano Atlântico, a construção combina tradição e modernidade ao reunir técnicas artesanais seculares em escala atual. Em seu interior, destaca-se o uso de cedro entalhado, enquanto o exterior é revestido por zellige, os tradicionais mosaicos geométricos que reforçam a identidade estética do país. “A arquitetura marroquina chama mais atenção pela experiência sensorial do que pela monumentalidade”, acrescenta Luiz.

Discussion in the ATmosphere

Loading comments...