Curvas, grandes vãos e sustentabilidade: o potencial do bambu na arquitetura
Casa e Jardim | Sua casa linda do seu jeito [Unofficial]
June 3, 2026
Enquanto materiais como o cimento e o aço contribuíram para que a construção civil se tornasse responsável por 34% das emissões globais de CO₂, a introdução de materiais como o bambu chega na tentativa de reduzir o impacto negativo do setor. Resistente e maleável, o material pode ser moldado em diferentes formatos e adiciona sustentabilidade à construção. Isso porque é renovável, de crescimento rápido e tem capacidade de sequestrar carbono durante o seu desenvolvimento. "O bambu é um material milenar, usado há séculos por diversas comunidades. A arquitetura contemporânea apenas revelou um potencial que já estava ali”, analisa Brianna Bussinger, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Leve e resistente, o bambu permite a criação de grandes vãos e estruturas com menor impacto ambiental Gera Brasil/Divulgação Ao lado da madeira, o bambu vem sendo um dos materiais mais lembrados quando o assunto são construções sustentáveis. Ainda não há dados sobre o uso de bambu na arquitetura, mas o mercado internacional da matéria-prima tem crescido: em 2024, alcançou US$ 67,13 bilhões. O valor deve chegar a US$ 88,44 bilhões até 2030, segundo pesquisa da Grand View Research. Leia mais “O destaque do bambu vem justamente dessa busca por materiais responsáveis ambientalmente, mas também do desejo de criar uma arquitetura mais conectada à natureza, leve e sensorial”, diz a arquiteta Karen Miyabe Ueda, do escritório Gera Brasil. O bambu como material construtivo Mais do que uma escolha sustentável, o bambu possui características que facilitam o seu uso na arquitetura, como resistência e flexibilidade. “Ele suporta muito bem os esforços de alongamento, permitindo vencer grandes vãos com estruturas extremamente leves”, aponta Karen. Composição de feixes e treliças em bambu para o Ekôa Park, em Morretes, PR, em projeto do coletivo Sem Muros Albori Ribeiro/Divulgação Assim, o bambu consegue se transformar em estruturas curvas, treliças e estruturas orgânicas. “O material possui uma excelente relação entre peso e desempenho estrutural, grande flexibilidade e uma plasticidade natural que permite criar formas difíceis de executar com materiais convencionais”, completa a arquiteta. Não é qualquer espécie de bambu, no entanto, que pode dar vida a uma casa. “Muitas vezes o cliente deseja utilizar um bambuzal existente no terreno, mas grande parte dessas espécies não possui características adequadas para uso estrutural ou arquitetônico”, revela Karen. O complexo Grand World Phu Quoc utiliza 42 mil peças de bambu, unidas por cordas e pinos do mesmo material, e é coroado por um telhado de palha com claraboias que garantem iluminação natural ao espaço Võ Trọng Nghĩa Architects/Divulgação | Projeto do escritório vietnamita VTN Architects Entre espécies comumente usadas na arquitetura estão a Phyllostachys edulis, muito utilizada na Ásia por sua resistência e beleza; a Guadua angustifolia, nativa da América do Sul, conhecida como uma das mais fortes; e a Dendrocalamus asper, de origem asiática, com alta resistência e um dos maiores portes. Preparo do bambu Apesar dos benefícios do bambu, alguns cuidados são necessários para que a estrutura não vire um acumulado de insetos e umidade. “O material que não passou por nenhum processo de tratamento não está apto para ser utilizado de forma permanente”, explica a professora. Para isso, o bambu pode ser tratado com bórax (borato de sódio), que protege a fibra contra ataques de cupins, brocas e fungos. O tratamento mais comum consiste na aplicação de uma solução à base de bórax, que penetra nas fibras do bambu e ajuda a protegê-lo contra fungos, cupins e outros insetos Gera Brasil/Divulgação No âmbito da arquitetura, é recomendável exigir certificações ou registros documentados dos processos de tratamento e acabamento do bambu, assim como declarações de durabilidade esperada para o material. "O mais importante para preservar o bambu não é apenas o tratamento, mas protegê-lo da umidade e do contato direto com a água. Evitar a exposição constante ao sol e à chuva, cuidar dos encaixes e impedir o contato com o solo são medidas essenciais para aumentar sua durabilidade”, descreve Karen. A estrutura curva de bambu da Casa das Birutas, em Piracaia, SP, permite vencer grandes vãos sem a necessidade de apoios intermediários Gera Brasil/Divulgação | Projeto do escritório Gera Brasil Quando o material é utilizado como telhado, ele é coberto por telhas metálicas ou cerâmicas. Em caso de estruturas curvas, podem ser usadas telhas do tipo americana (telhas shingle) ou um sistema de cobertura em manta TPO ou EVA. Aplicações do bambu Na arquitetura, o bambu pode aparecer de forma estrutural, como acabamento ou em elementos decorativos, a exemplo de pilares, vigas, brises, fachadas, deques, pergolados, forros, divisórias, revestimentos e mobiliários. “O uso em coberturas é muito interessante. É um material que oferece enorme liberdade formal, permitindo trabalhar curvas, tramas estruturais e desenhos mais fluidos com extrema leveza”, conta Karen. Com 782 m², o Bamboo Sports Hall, na Tailândia, abriga quadras esportivas e áreas para eventos. A estrutura utiliza ventilação natural e bambu tratado com bórax, reduzindo a pegada de carbono da construção em comparação aos métodos convencionais Chiangmai Life Construction/Reprodução | Projeto do escritório Chiangmai Life Construction Como qualquer sistema estrutural, o bambu exige cálculo estrutural adequado e compreensão das características específicas do material. “Quando bem projetado, pode apresentar excelente desempenho estrutural com muito menos peso que sistemas tradicionais”, diz o arquiteto Antonio Carlos Vissotto Jr, da Gera Brasil. As obras que chamam mais atenção são aquelas com grandes vãos feitos em bambu, como acontece na Panyaden School, na Tailândia. Assinado pelo escritório Chiangmai Life Construction, o projeto tem treliças de bambu pré-fabricadas com um vão de mais de 17 metros sem reforços de aço ou conexões. O resultado é uma construção zero carbono que impressiona pelo formato curvo inspirado na flor de lótus. Inspirado na flor de lótus, o ginásio da Panyaden International School, na Tailândia, foi construído com treliças pré-fabricadas de bambu que vencem vãos superiores a 17 metros sem reforços estruturais de aço Chiangmai Life Construction/Reprodução | Projeto do escritório Chiangmai Life Construction A construção da Tailândia também remete a uma cultura milenar da construção em bambu na Ásia. “Na América Latina, países como Colômbia e Equador desenvolveram uma cultura construtiva muito avançada com o material, incluindo exemplos notáveis de pontes, pavilhões e edificações de grande porte”, adiciona Antonio. Simón Vélez, por exemplo, é um arquiteto colombiano que, na cidade de Cartagena, projetou uma catedral em Guadua angustifolia – um bambu local. Na obra, as entradas são marcadas por curvas que demonstram a flexibilidade da espécie. Initial plugin text “No Brasil, porém, o bambu ainda é utilizado de forma pontual, principalmente em espaços de convivência, estruturas de lazer, pavilhões, mirantes, áreas turísticas e coberturas leves”, coloca Antonio. Leia mais O uso do bambu está crescendo entre arquitetos que buscam elementos autorais e sustentáveis. “O Brasil está construindo sua própria arquitetura em bambu, repensando espaços tradicionalmente dominados pelo concreto e valorizando um material nativo, resistente e regulamentado”, analisa Brianna. Painéis de bambu ajudam a definir a arquitetura das casas do InCasa Private Residence Club, em Goiás, onde o material aparece integrado a pedras naturais e áreas verdes Mak Cézar/Aviva/Divulgação | Projeto do escritório a. arquitetos O material também é frequentemente utilizado na decoração de interiores, com luminárias e mobiliários. “É um material com forte potencial para aplicações internas, principalmente por sua textura, leveza visual e capacidade de trazer sensação de acolhimento aos espaços”, diz Karen. “Em muitos casos, ele ainda é associado apenas a ambientes rústicos ou tropicais, quando na verdade pode dialogar muito bem com uma arquitetura contemporânea e sofisticada”, complementa. A escolha do piso de bambu adiciona textura e conforto visual ao espaço, mostrando a versatilidade do material também em áreas internas Fabio Severo/Divulgação | Projeto do escritório VK Arquitetos O desafio está na cadeia de produção Assim como a madeira engenheirada, o bambu consegue atender grandes vãos e estruturas. No entanto, ainda há desafios de padronização e cadeia de fornecimento. “Como é um material natural, existe maior variabilidade dimensional entre as peças, o que exige um desenho estrutural muito cuidadoso e soluções de encaixe bem detalhadas”, explica Antonio. O principal desafio da cadeia do bambu está na padronização e no processamento do material, que ainda exige estrutura de fornecimento mais consolidada para atender obras em larga escala Gera Brasil/Divulgação Ao mesmo tempo, os especialistas acreditam que essa variabilidade faz parte da riqueza do material. “O projeto precisa compreender o comportamento natural do bambu e trabalhar a favor dele, aproveitando suas propriedades estruturais em vez de tentar transformá-lo em um material industrial padronizado”, completa o arquiteto.
Discussion in the ATmosphere