Genes da orquídea-da-praia podem revelar segredo da adaptação a climas extremos
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May 28, 2026
Uma espécie de orquídea tem chamado a atenção de pesquisadores por sua aparente resistência a climas extremos. Trata-se da Epidendrum fulgens, popularmente conhecida como orquídea-da-praia. Mesmo em ambientes adversos, a espécie de folhas grossas floresce durante quase todo o ano. Em 2026, um grupo de pesquisadores brasileiros e norte-americanos sequenciou o genoma da planta e os resultados foram publicados na revista Genome Biology and Evolution. Os cientistas identificaram uma história evolutiva de 10 milhões de anos e genes que mostram sua resistência ao estresse ambiental. “Agora que temos este genoma em mãos, podemos entender melhor a função de genes, a relação entre ambiente e informação genética do organismo e comparar esta espécie com outras espécies próximas”, aponta o biólogo Fábio Pinheiro, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coautor do artigo. A orquídea-da-praia ('Epidendrum fulgens') vive em áreas de restinga ao longo do litoral brasileiro, crescendo em dunas de areia litorâneas das regiões sul e sudeste Marcia Stefani/Wikimedia Commons Diferente de outras orquídeas, a Epidendrum fulgens sobrevive em locais de clima extremo, conseguindo enfrentar características como calor intenso, escassez de água, sol pleno e proximidade da praia – suportando a água salgada que chega pela maresia. “Esta espécie se distribui pela vegetação de restinga, e cresce próxima a arbustos nas dunas de areia litorâneas, de Paraty, RJ, a Pelotas, RS”, diz Fábio. Leia também O sequenciamento realizado pelos pesquisadores buscou compreender melhor como a planta reage a condições climáticas extremas. Para isso, foi utilizado o DNA de uma planta recolhida em Ubatuba, SP. “Foram utilizadas diferentes técnicas de sequenciamento, analisadas de forma combinada. Isso porque montar um genoma é uma tarefa complexa, semelhante a montar um quebra-cabeça com milhões de peças”, explica o pesquisador. Cientistas mapearam o genoma da orquídea-da-praia e investigaram sua evolução em ambientes costeiros de restinga Julie Vianna/Wikimedia Commons Segundo ele, o sequenciamento permitiu encontrar informações sobre como esta orquídea enfrenta condições adversas. “Vimos que o genoma possui informações que sugerem alterações no tamanho populacional desta espécie ocorridas no passado, o que pode estar associado a momentos em que o clima do planeta passou por alterações bruscas”, aponta Fábio. Além disso, os pesquisadores encontraram genes relacionados com a adaptação a ambientes que sofrem pelo excesso de sal, falta de água e limitação de nutrientes – características dos ambientes onde a orquídea-da-praia cresce. “Existem genes relacionados a um mecanismo chamado de plasticidade fenotípica, o qual seria responsável por ajustes que a planta é capaz de fazer em seu metabolismo para enfrentar situações adversas”, complementa. Sequenciamento descobriu que a espécie apresenta adaptações genéticas ao calor, à seca e à salinidade Monocromatico/Wikimedia Commons Ele explica que esses genes mostram como a espécie é mais resiliente em comparação a outras orquídeas, que têm as florestas úmidas como habitat natural. Tudo indica que essa resistência foi desenvolvida ao longo de milhares de anos. Ainda não é possível afirmar pelo estudo se as alterações climáticas recentes teriam afetado os genes da espécie. Apesar disso, o pesquisador analisa que as populações da espécie variam ao longo de sua distribuição geográfica. No norte, onde os verões são mais quentes, há menor número de indivíduos e menor diversidade genética. Já nas regiões ao sul, as populações são mais numerosas e apresentam maior variabilidade genética. Esse padrão sugere que a espécie pode ter preferência por determinadas condições climáticas e que sua distribuição esteja relacionada à temperatura. Por isso, ela pode ser uma candidata para estudos sobre os efeitos do aumento das temperaturas no crescimento, na reprodução e no ciclo de vida. Leia mais “Ainda não se sabe como as plantas vão reagir às mudanças climáticas, nem se vegetações como as restingas ou espécies de determinadas regiões serão mais resistentes ou mais vulneráveis ao aumento da temperatura”, diz Fábio. “O genoma da orquídea-da-praia é uma pequena contribuição para compreender um panorama complexo”, adiciona. Investigar esse comportamento será essencial para o planejamento das unidades de preservação, orientando a criação de novas áreas protegidas e ajudando a identificar quais espécies são mais vulneráveis a essas alterações. “Nosso grupo de pesquisa está estudando diferentes espécies de plantas, incluindo bromélias, begônias e outras orquídeas, para entender o grau de vulnerabilidade desses organismos às mudanças climáticas já em curso”, afirma o pesquisador. Segundo ele, a maior parte dos estudos sobre o tema ainda se concentra no Hemisfério Norte, em regiões de clima temperado, enquanto as áreas tropicais seguem com pouca informação disponível.
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