Fusca "explodido" exposto no MASP foi comprado usado e danificado por artista: "História bastante insólita"
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May 29, 2026
Damían Ortega teve a sorte (se é que essa é a palavra correta) de identificar cedo o próprio vocabulário visual. Nascido em 1967, na Cidade do México, em um período marcado por profundas transformações políticas, econômicas e sociais, o artista cresceu em meio às ambiguidades de um país atravessado simultaneamente pela repressão política e pelas promessas de modernização. Esse contexto ajudou a posicionar seu olhar como jovem criativo: havia ali senso de humor, consciência crítica e uma atenção às estruturas sociais e materiais do cotidiano. Antes de consolidar sua trajetória nas artes visuais, Ortega trabalhou como cartunista político e integrou, entre o fim dos anos 1980 e início dos 1990, o “Taller de los Viernes”, grupo liderado pelo artista Gabriel Orozco que se tornou decisivo para uma geração de artistas mexicanos interessados em expandir os limites tradicionais da escultura, da instalação e do objeto artístico. Agora, após mais de três décadas de carreira, sua produção ganha um momento celebratório no Brasil com a primeira exposição panorâmica dedicada ao artista no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand. A mostra Damián Ortega: matéria e energia. A mostra, que tem curadoria de Adriano Pedrosa, percorre capítulos importantes de sua trajetória e reúne trabalhos em diferentes linguagens. Ao todo, são 35 obras expostas. Entre elas está uma de suas peças mais emblemáticas e aguardadas: Cosmic Thing (Coisa cósmica, 2002), apresentada pela primeira vez no Brasil. A obra consiste em um Fusca completamente desmontado e suspenso no espaço, com cada peça separada do conjunto original, como se o automóvel explodisse diante do espectador. Em um primeiro momento, o trabalho impressiona pela escala e pela engenharia visual; depois, revela camadas mais profundas sobre modernidade, mobilidade e transformação urbana. Temas que aproximam México e Brasil, países onde o Fusca também se tornou símbolo de ascensão social e reorganização das cidades. O trabalho, assim como outras obras presentes na exposição, exibe um procedimento recorrente na prática de Ortega: selecionar objetos cotidianos e desmontá-los até que revelem novos significados. Assim, o artista expõe os temas sociais e políticos que cercam esses objetos, assim como as memórias íntimas que carregam. Como explica em entrevista à GQ Brasil: “Meu pai tinha um automóvel Volkswagen já bastante usado e, naquela época, estava começando o ‘Taller de los Viernes'. Ele então me deu o carro para que eu pudesse me locomover. Depois achei importante entender como o veículo funcionava, então encontrei um manual de reparação e vi aqueles diagramas ilustrativos e didáticos usados para aprender a consertá-lo. Essa foi a influência para criar o automóvel desmontado em partes.” "Controller of the Universe", de Damián Ortega Divulgação Há ainda um componente adicional em seu método: o interesse pela tensão criada pelos objetos, como se estivessem sempre no limite entre a estabilidade e a explosão, prestes a se transformar em outra coisa. Quase tão impactante quanto Cosmic Thing está Controller of the Universe (Controlador do universo, 2007). Nela, Ortega reúne serrotes, pás, machados e marretas em uma instalação que lembra uma explosão suspensa no tempo. A obra faz referência ao mural O homem controlador do universo (1934), de Diego Rivera, reinterpretando seus temas por meio de ferramentas e objetos do cotidiano. Na conversa, o artista fala sobre sua entrada no mundo da arte, os bastidores de seu processo criativo e os significados - políticos, afetivos e sociais - que orbitam suas obras. Damían, muito obrigado por essa conversa. Gostaria que você contasse um pouco de como foi o seu início na arte. Houve algum momento ou obra que fez você perceber que queria seguir esse caminho? Bom, sim, quando era criança. Estava desenhando com outros jovens e, no final, todas eles se viraram para olhar o meu desenho e começaram a comemorá-lo. Eu era muito tímido e tinha dificuldade para me relacionar, então naquele momento percebi que tinha uma habilidade especial e que o desenho poderia me ancorar, ou dar impulso para me conectar com os outros. Acho que tudo isso foi intuitivo, foi o que senti, não exatamente uma ideia muito clara, mas lembro com carinho de reconhecer em mim um poder especial. Você começou sua trajetória como cartunista político em jornais mexicanos. O que permanece hoje desse olhar crítico e observador da vida pública na maneira como constrói obras como Cosmic Thing? Bom, é preciso lembrar que fiz essa obra há alguns anos, mas acredito que o senso de humor permanece porque é uma forma de expandir meus próprios limites e também os limites do convencional. A piada está sempre fora do lugar, no sentido de deslocar aquilo que seria considerado correto. Na caricatura, tive grandes mestres. O mais importante não era apenas o humor, mas uma espécie de jornalismo gráfico. Eram lúcidos e afiados em seus comentários políticos, e isso sempre foi um interesse para mim. Uma de suas obras mais comentadas transforma um Fusca popular em uma espécie de constelação mecânica suspensa. Como surgiu a ideia e o que aquele carro simbolizava para você naquele momento? Meu pai tinha um automóvel Volkswagen já bastante usado e, naquela época, eu estava começando o “taller de los viernes”, no qual me reunia com Gabriel Orozco e outros artistas. Meu pai me deu o carro para que pudesse me locomover. Depois achei importante entender como ele funcionava, então encontrei um manual de reparação e vi aqueles diagramas ilustrativos e didáticos usados para aprender a consertá-lo. Essa foi a influência para criar o automóvel desmontado em partes. Primeiro comecei fazendo pinturas desses diagramas, usando tinta automotiva sobre chapas metálicas. Pouco tempo depois, passei a experimentar com peças reais, e a ideia veio praticamente como um pacote completo. Quando surgiu a possibilidade financeira de comprar um carro usado - que, aliás, havia batido - produzi Cosmic Thing, abrindo o carro e removendo os danos da carroceria. O artista mexicano Damían Ortega Paulo Freitas O Fusca era um símbolo de individualidade e autonomia, para mim e para milhares de trabalhadores e estudantes que chegaram a ter um. Havia uma relação muito pessoal e emocionante com aquele carro, pela mobilidade que ele proporcionava. O Fusca ocupa um lugar muito afetivo tanto no México quanto no Brasil, mas também está ligado a ideias de industrialização, progresso e ascensão social. O que lhe interessa nessa mistura entre memória da transformação urbana latino-americana? Preciso dizer que, quando fiz a obra, minha interpretação não era tão ampla. Só mais tarde, quando realizei a peça do Fusca enterrado nos arredores da fábrica, tudo isso se tornou mais evidente. Naquele momento, a obra havia sido concebida como uma viagem mitológica, na qual um herói retorna à terra onde nasceu. Foi aí que se tornou mais presente tudo aquilo que o automóvel implicava social e politicamente como símbolo da modernidade e de um projeto que, naquele período, começava a ser completamente questionado a partir da pós-modernidade. Parecia que já havia ficado para trás o desejo de inventar uma tecnologia e uma ciência coletiva, democrática e popular como projeto de progresso. Mas, em Cosmic Thing, minha ideia estava mais ligada ao sentido de coletividade: um objeto aparentemente único, mas feito de centenas e milhares de peças, cada uma cumprindo sua função. Diria que não existem elementos superficiais ou supérfluos; tudo tem valor, tudo é importante. Então a obra podia ser entendida como um grande ecossistema industrial. Me entusiasmava muito essa decomposição no espaço, como um grande diagrama ou esquema de funcionamento que era, ao mesmo tempo, um grande dinossauro expandido no espaço. Como foi o processo concreto de criação da obra? Onde você encontrou o veículo, quem participou da desmontagem e o que descobriu sobre o automóvel ao reduzi-lo a centenas de peças suspensas? A história é bastante insólita e foi muito estressante porque, como o orçamento era mínimo, fui até a região onde vendiam carros usados e onde, obviamente, havia muitos veículos roubados que eram adulterados para serem vendidos sem levantar suspeitas. Então havia uma tensão enorme na escolha do carro. Por fim encontrei um táxi batido, e dois rapazes dali mesmo me ajudaram a desmontá-lo e a completar algumas partes com peças de outros carros que estavam no local. O processo levou apenas algumas horas. Depois fizemos o trabalho no meu ateliê, que era realmente muito pequeno, basicamente uma garagem. Mais tarde, outros dois rapazes me ajudaram; eles eram motoristas - um deles ainda trabalha com (o galerista) José Kuri - e conseguimos cortar e separar o carro em partes. Eu nunca vi o resultado final até chegar ao museu para montá-lo pela primeira vez, na Filadélfia. Ainda assim, me surpreendeu o quanto ele se parecia com aquilo que eu havia imaginado. Por que o Fusca? Era um símbolo muito íntimo, baseado principalmente na minha própria experiência, porque minha mãe, meu pai e meus tios tiveram aquele mesmo carro, e grande parte da minha infância e adolescência aconteceu dentro dele. Eu sabia que ele significava muito para a minha cidade e que havia ali um exercício de construção individual, mas rapidamente percebi que essa relação poderia sensibilizar muitas pessoas, que elas poderiam reconhecer a si mesmas e reconhecer o carro ao longo do tempo. Fui entendendo aos poucos que ele se tornou um símbolo em muitos sentidos. Os europeus o enxergaram como um rasgo, uma decomposição ou desmontagem da Europa, enquanto a América Latina o viu como um sistema de correlações sociais. É muito interessante perceber como uma obra se relaciona de maneira tão diferente em países e continentes distintos. Em muitas de suas obras, algumas expostas no MASP, os objetos parecem prestes a explodir. O que lhe interessa nesse estado de tensão? Justamente essa tensão me parece admirável. No início, ela tinha relação com obras como as de Tatlin, no construtivismo russo, e também com uma teoria minha, meio improvisada, na qual identificava a gravidade como um instinto da natureza, como um reflexo imediato da Terra atraindo os objetos. Portanto, tratava-se de um projeto de domesticação ou treinamento, no qual eu poderia controlar as regras e os instintos. Muitos dos seus trabalhos partem de objetos industriais e materiais do cotidiano. O que te motivou na escolha e manipulação desses objetos? O mundo se acostumou à leveza de usar e descartar, de consumir as coisas sem grande compreensão. Hoje qualquer objeto é consumido e transformado em resíduo quase imediatamente. É justamente aí que a humanidade precisa retomar o controle, para que as relações humanas, as famílias, os amigos e os amores não façam parte desse mesmo sistema de uso e descarte. Pode soar duro dizer isso, mas muitas vezes é a esse ponto que a lógica do capital nos levou. Por isso também precisamos de uma humanidade mais responsável e consciente de que tudo o que consumimos e descartamos tem uma origem e um destino. Por trás de cada objeto existem processos de extração de recursos, exploração do trabalho e, finalmente, resíduos que acabam se acumulando em desertos e outros territórios transformados em depósitos de materiais inúteis. Acho fundamental recuperar a cultura da reciclagem, da restauração e do reparo, assim como reencontrar valores mais duradouros do que trocar de celular com tanta frequência — voltar a valorizar aquilo que pode permanecer no tempo. É nisso que acredito. Sua geração ajudou a transformar a cena artística mexicana nos anos 1990, criando um diálogo mais forte entre experiências locais e o circuito internacional. Como você vê hoje a posição da arte latino-americana no mundo? Fomos muito afortunados por poder trabalhar sem pressões externas, o que nos permitiu investigar a partir da nossa própria linguagem e contexto. Ao mesmo tempo, Gabriel Orozco foi uma figura importante nesse processo porque foi para Nova York, onde começou a trabalhar e conquistou enorme reconhecimento, o que ajudou muito a dar visibilidade à nossa produção e mostrá-la fora do México. Pelo menos no meu caso, foi assim. Revistas Newsletter Além disso, coincidiram certos fenômenos políticos e econômicos que permitiram que a arte ampliasse suas fronteiras e abrisse espaço para gerações jovens que não vinham dos centros tradicionais de poder econômico e cultural. Começaram a surgir mais bienais, feiras de arte e um interesse crescente por parte de curadores, colecionadores e do público em geral. De algum modo, chegamos a um cenário em que também éramos bem-vindos. É difícil responder como vejo a arte latino-americana hoje porque a arte se expandiu e já não é apenas latino-americana; ou seja, ela não pode mais ser entendida unicamente a partir de regiões. Muitas vezes, artistas latino-americanos desenvolvem seu trabalho na Europa ou em outros contextos internacionais. Acho que acontece algo parecido com o futebol: jovens de 16 ou 18 anos jogam na Europa e, em alguns casos, são formados lá desde crianças. Por outro lado, acredito que todas as nações enfrentam hoje as mesmas crises, então já não é simples pensar a arte dividida por continentes. Onde está hoje sua principal inquietação como artista e observador do mundo? O que mais capturou sua atenção ou preocupação neste momento histórico? Neste momento, me parece indispensável valorizar as relações coletivas. O trabalho em equipe, os projetos que não necessariamente gerem riqueza, mas que tragam algo significativo para a comunidade onde são produzidos e exibidos. Tenho vontade de organizar projetos em que exista companheirismo, mas também espaço para a alegria, para rir juntos e, ao final, sair para dançar ou compartilhar uma cerveja. Hoje existe uma tendência preocupante de simplesmente produzir arte, em vez de vivê-la e incorporá-la. E acredito que é indispensável voltar a essa ideia de amassar, construir e dialogar com os materiais. Tudo isso faz parte da concepção da obra de arte, da sua feitura. Damián Ortega: matéria e energia Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand — Edifício Lina Bo Bardi Até 13 de setembro de 2026 Horários: Terça, das 10h às 20h (gratuito) Quarta e quinta, das 10h às 18h Sexta, das 10h às 21h (gratuito das 18h às 20h30) Sábado e domingo, das 10h às 18h Fechado às segundas Ingressos: R$ 85 (inteira) e R$ 42 (meia-entrada)
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