External Publication
Visit Post

França: descubra 10 lugares que definem Nice

GQ | Seu Guia de Moda Masculina, Cultura e Lifestyle [Unofficia… May 17, 2026
Source
Houve uma época em que o centro da cidade não era tão seguro, em que os restaurantes estavam defasados, em que Nice, porta de entrada para toda a Riviera Francesa, não era uma parada dos viajantes internacionais. Essa época acabou. Nice está na mira dos franceses e do resto do mundo de novo, e com razão: clima ameno, conexão direta com o Mediterrâneo, aeroporto bem conectado, arquitetura que mistura o barroco italiano das fachadas coloridas do Vieux-Nice com a opulência belle époque da Promenade des Anglais. Fui para Nice no início da primavera e me surpreendi. A promenade des Anglais, icône de Nice Gabriel Renné Tive vontade de ficar mais - e até de morar lá. Passeamos pela cidade, paramos no mercado de flores do Cours Saleya, andamos sem rumo pelas ruelas do centro histórico. Foi delicioso. Aqui vai uma seleção de dez lugares que definem Nice e que não pode deixar de conhecer se for até lá. Hôtel du Couvent Há hotéis onde você dorme. Em outros, você viaja sem sair do lugar. O Hôtel du Couvent é uma imersão na cidade. Instalado em um convento fundado em 1604 e ocupado por freiras até os anos 1980, abriu em 2024 depois de dez anos de restauração. A missão era clara: transformar o lugar sem apagar nada do que ele foi. Conseguiram. Desde o momento em que você entra - por uma porta discreta no alto do Vieux-Nice, de frente para a catedral Sainte-Reparate -, a cidade se exalta. O que aparece no lugar é um hectare de jardins com 350 espécies de plantas, um claustro com séculos de silêncio, três piscinas, um bar dentro dos arcos de pedra e aquela paz que só os lugares com história verdadeira conseguem ter. Me senti acolhido de um jeito que poucos hotéis no mundo proporcionam. O Hôtel du Couvent em Nice Gabriel Renné O Couvent tem três restaurantes, um mais gostoso que o outro. O Bistrot des Serruriers, que abre direto para a rua, é delicioso. Um dos melhores cafés da manhã do mundo. O pão é feito ali mesmo, com farinhas antigas e trigo moído no próprio hotel. Você pode visitar a padaria sob as arcadas do pátio e sentir o cheiro das fornadas. Há ainda uma fazenda própria - a Ferme Notre-Dame, no vale do Var - que abastece as cozinhas com legumes, ovos e ervas colhidas toda semana. Quando você come aqui, sabe de onde veio o que está no prato. Listado no The World's 50 Best Hotels, o Couvent é uma das grandes aberturas da hotelaria mundial dos últimos anos. O Hôtel du Couvent Gabriel Renné Spa Les Thermes du Couvent Ainda dentro do Hôtel du Couvent está o spa mais bonito de Nice, e talvez um dos mais singulares do mundo. O conceito é uma homenagem aos banhos romanos, os vestígios do século II que ainda existem no alto da cidade, onde os romanos das termas cuidavam do corpo como se fosse um ritual. O percurso começa no tepidarium, onde a água morna prepara o corpo, passa pelo caldarium, envolvido no calor úmido, e termina no frigidarium, onde o frio fecha tudo e acorda o que estava adormecido. O trajeto termina no unctuarium onde os massagistas trabalham com os óleos preparados pela herboristeria do hotel. E é a herboristeria que transforma esse spa em algo diferente de tudo que já vi. O Hôtel du Couvent tem um especialista que coleta e prepara remédios e cuidados a partir das plantas do jardim e da região, em homenagem direta às práticas das freiras que aqui viveram e que, na tradição de São Francisco de Assis, curavam com o que a terra dava. Um conceito único no mundo. O spa do Hôtel du Couvent em Nice Gabriel Renné La Merenda Um casal apaixonado, os mesmos pratos há muito tempo. Não é confortável fisicamente, mas, emocionalmente, é. Talvez por esse casal. Dominique Le Stanc era um dos chefs mais respeitados da França. Um dia, largou tudo. Não para se aposentar, mas para começar de verdade. Assumiu esse bistrô minúsculo de vinte e quatro lugares no centro, fundado em 1966, e decidiu que era ali que queria cozinhar pelo resto da vida. Com sua mulher ao lado, Danièle, sem brigadas grandes, sem pressão, sem luxo de fachada. Só a cozinha niçoise de sempre, feita com as mãos dele e com os produtos que ele mesmo vai buscar de bicicleta no Cours Saleya todas as manhãs. Comi um spaghetti ao pesto que está entre os melhores pratos da minha vida. Você sai dali tendo comido como se alguém tivesse cozinhado para você em casa, e é exatamente isso. Dominique e Danièle Le Stanc no La Merenda, em Nice Gabriel Renné Chez Acchiardo Uma família de niçois, com três irmãos tocando o negócio e servindo a cozinha local. Jean-François, Virginie e Raphaël Acchiardo são a quarta geração da casa fundada em 1927 pelo bisavô. O que senti aqui foi a potência de uma família que decidiu manter a gastronomia viva com outras gerações. Os pratos são os de sempre e não há razão para mudar: farcis niçois, ravioli à la daube, merda di can - os gnocchi verdes de acelga e manjericão -, polvo niçois, aïoli, pissaladière. O salão de pedra aparente tem o charme de uma taverna do século passado, com fotos emolduradas nas paredes e as barricas antigas da época em que a família produzia o próprio vinho. As pessoas não se conhecem ao entrar e saem amigas. É o espírito da casa, e é o espírito de Nice. Jean-François, Virginie e Raphaël Acchiardo no restaurante Chez Acchiardo Gabriel Renné Onice O que o Onice tem de mais raro não é a estrela Michelin conquistada em dez meses de casa aberta. É a delicadeza, o cuidado, a paixão. Florencia Montes e Lorenzo Ragni - ela argentina, ele italiano - se conheceram no restaurante Mirazur de Mauro Colagreco em Menton. Ali, cozinhando com um dos maiores chefs do planeta, entenderam que tinham algo em comum além da profissão. Saíram juntos, apaixonados. Escolheram Nice — pela luz, pelo mar, pelo tamanho certo de uma cidade que recebe bem. São 29 lugares, dois chefs, menu de cinco ou sete etapas que muda todo dia com o mercado. A cozinha tem a generosidade da América do Sul e o rigor europeu. É o tipo de lugar que você conta para poucos, e que fica com você por muito tempo depois. Um dos pratos do restaurante Onice Gabriel Renné Maison Barale Para entender a cozinha de Nice, é preciso entender o ravioli niçois. E para entender o ravioli niçois, é preciso ir à Maison Barale. Fundada em 1892 por Matteo Barale, esta é a casa de massas mais antiga da cidade e a mais importante para a memória gastronômica da região. No subsolo, as máquinas antigas ainda trabalham a massa no ritmo das engrenagens de sempre. O ravioli niçois é diferente do italiano: mais fino, com recheios que variam com a estação. O clássico absoluto é o ravioli à la daube, recheado com carne braseada de boi. Hoje a casa está nas mãos de Nathalie, bisneta de Matteo, e do marido Éric - dois ex-auditores financeiros que decidiram que a herança valia mais do que qualquer carreira. É uma loja, não um restaurante. Você compra, eles ensinam como cozinhar, e você vai embora com algo que explica Nice melhor do que qualquer um. O Maison Barale, em Nice Reprodução Bistrot de Jan A história de Jan Hendrik van der Westhuizen parece coisa de romance. Veio de Middelburg, cidade pequena no norte da África do Sul. Antes de abrir seu restaurante em Nice, foi chef em iates privados em Mônaco, fotojornalista de uma grande revista, viveu várias vidas. Em 2013, abriu o restaurante Jan no porto de Nice e em 2016 se tornou o primeiro chef sul-africano a receber uma estrela Michelin na história do guia. Uma visão de estrangeiro sobre Nice que a cidade soube reconhecer e celebrar. O Bistrot de Jan é o capítulo seguinte desta história, mais generoso e mais relaxado. Pratos para partilhar, combinações que não têm medo de ser inesperadas - ceviche mediterrâneo com maçã e água de bergamota, torta de frango com molho trufado, choux de chocolate com creme de rooibos. É a cozinha de quem viveu muito antes de cozinhar. Charles Piriou visitou o Bistrot de Jan em Nice Gabriel Renné Chez Davia Uma instituição. Um lugar com história, com cheiro de família, com décadas de memória depositadas nas paredes. A avó Davia fundou o restaurante em 1953, a mãe Alda assumiu em 1985. Desde 2016, é o neto Pierre Altobelli quem cozinha. Antes de voltar ao bistrô da família, Pierre passou pelo Ducasse em Mônaco e pelo Troisgros em Tóquio. Aprendeu o que a alta cozinha tem de melhor. Voltou para a rua Grimaldi com outra cabeça. Pierre é tímido, mas não é o que se sente na sua cozinha. O que aparece no prato é preciso, generoso, fiel ao que a estação e o mercado têm de melhor. Os barbajuans — raviólis fritos recheados de acelga, manjericão e ricota — estão sempre lá. O resto muda: em um dia é a daube de boi com cogumelos do campo, no outro, o polvo grelhado com aïoli. Quando estivemos lá, era a época das alcachofras. Isso é Chez Davia: você nunca sabe exatamente o que vai encontrar, mas sabe que vai ser bom. O Chef Pierre Altobelli no restaurante Chez Davia Gabriel Renné Le Negresco Há lugares que são vitrines do mundo. O Negresco é um deles. Clássico, polêmico, incontornável; impossível de ignorar quando você caminha pela Promenade des Anglais e aquela cúpula rosada aparece no horizonte como se sempre tivesse estado ali - pois sempre esteve. O hotel foi inaugurado em 1913 por Henri Negresco, um romeno filho de taberneiro que construiu uma carreira extraordinária na hotelaria europeia e sonhou com um palácio na Riviera. Em 1957, Jeanne Augier assumiu e transformou o Le Negresco na sua obsessão de vida: durante décadas viajou pela França inteira garimpando em leilões e antiquários. Quase seis mil obras no total reinam pelo hotel. Um deles é um retrato de Luís XIV de 1701 - os outros dois estão no Louvre e em Versalhes. A lista de celebridades que ficaram aqui é interminável. Há quem goste da coleção de arte e há quem ache demais da conta. Mas entrar ao menos para um coquetel no bar (e especialmente no bar) com o mogno de 1913 e a atmosfera que só um século de história produz, vale a visita. O Negresco é um monumento, e Nice não seria Nice sem ele. Charles Piriou no bar do Le Negresco Gabriel Renné Povera O bar mais cool da cidade tem um conceito que, no fundo, é um manifesto. Maxime Potfer cresceu em Nice, foi para Paris, virou um dos melhores bartenders da França no Experimental Cocktail Club, passou anos abrindo bares pelo mundo. Quando voltou para casa, em 2024, trouxe uma ideia que resume o que há de mais interessante no que se faz hoje com bebidas: a cozinha líquida. O nome vem da cucina povera italiana — ingredientes humildes, locais, sazonais, elevados à grandeza pelo savoir-faire. Maxime aplica exatamente isso à mixologia: produtos que seriam descartados viram ingredientes, o que o mercado tem na semana vira o coquetel da noite. A decoração é proposital, você entra e pode achar que o bar ainda não ficou pronto. Aí chega a hora do show, Maxime assume o posto atrás do balcão, e tudo faz sentido. O Textbook — whisky, eau-de-vie de cidra, vermute, Campari e folha de oliveira. O Pêche Tagète, nascido em uma visita ao mercado. Vinhos naturais garimpados. A noite de Nice começa aqui… Maxime Potfer no bar Povera em Nice, com Charles Piriou Gabriel Renné

Discussion in the ATmosphere

Loading comments...