‘Acadêmicos do OnlyFans’: professores dividem a sala de aula com conteúdos 18+: “faturo R$ 20 mil por mês”
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April 29, 2026
“Foram anos de vida acadêmica para ganhar dinheiro mostrando o pênis”. A frase é do professor de música clássica e doutor em funk pela Universidade de São Paulo Thiago de Souza, mais conhecido como Thiagson. Com o livro "Putologia Avançada — O funk de pernas abertas: como sexo, política e música se misturam” (Ed. Matrix), adaptou sua tese de doutorado e decidiu incluir a linha que dificilmente entraria em um texto acadêmico tradicional. Outra coisa pouco provável: um acadêmico que produz conteúdo adulto. Como ele, no país, alguns pesquisadores e profissionais ligados a universidades têm se dedicado também a plataformas 18+, um movimento que diz sobre renda, autonomia, exposição, moralidade institucional e reconhecimento intelectual. Entre eles estão Thiagson e Rosana Abrante, bióloga, mestre e doutora pela Universidade Federal do Espírito Santo e professora do Instituto Federal do Espírito Santo, no campus Santa Teresa, desde 2015. Nas plataformas adultas, Rosana diz faturar em média cerca de R$ 20 mil por mês. No Ifes, foi alvo de um processo administrativo por causa da produção de conteúdo. No caso de Thiagson, o OnlyFans aparece como continuidade provocativa de uma pesquisa que já colocava sexo, funk e moralismo no centro da conversa. No de Rosana, foi uma fonte de renda e espaço de exercer sua sexuliade e autonomia, mas também motivo de uma disputa administrativa e judicial ainda em andamento. Universidade e OnlyFans Professor de música clássica, funkeiro e pesquisador do funk, Thiagson diz que a entrada nas plataformas começou de maneira acidental. Como sua pesquisa trata do funk putaria, a sexualidade já era um dos temas centrais de sua produção pública. “Falo muito sobre funk putaria, inclusive a minha tese de doutorado foi sobre isso. Falando muito sobre sexo e outras questões, as pessoas começavam a brincar alguma coisa assim: ‘Ai, gostoso’. E eu achava isso meio engraçado”, conta. No início, a ideia era abrir uma conta para “questionar esse moralismo”. Ele começou publicando fotos e vídeos mais leves, que, segundo ele, poderiam até estar em outras redes sociais. Depois, ao perceber que havia assinantes dispostos a pagar, passou a produzir conteúdos mais explícitos. Para ele, o incômodo gerado por um acadêmico que se expõe sexualmente revela menos sobre sua produção intelectual e mais sobre a tradição moral que ainda sustenta parte da vida universitária. Thiago associa esse constrangimento à origem religiosa das primeiras universidades europeias e à permanência de uma expectativa de que professores e intelectuais pareçam separados do corpo. “Tradicionalmente, você espera de um professor, de um intelectual, que ele não goze, que ele não tenha corpo, que ele não faça sexo. Isso dá, inconscientemente, mais autoridade”, afirma. “Quanto mais você nega o corpo que você é, mais autoridade intelectual, acadêmica você tem”. Nude que gerou processo No caso da professora Rosana, a discussão ganhou contornos administrativos e judiciais. Ela afirma que começou a produzir conteúdo adulto em 2023, inspirada por notícias de professoras no exterior que ganhavam dinheiro. Antes de criar a página, diz ter avaliado se haveria impedimento. Concluiu que poderia fazer desde que não usasse o nome da escola, uniforme, espaço institucional ou qualquer elemento que vinculasse diretamente a produção à instituição em que atuava. “Sou professora, isso não pertence à escola. Também sou bióloga, e doutora”, cita. “Pensei: acho que não vai ter problema porque estou fazendo uma coisa da minha vida particular, pessoal.” A avaliação mudou depois de uma denúncia ao comitê de ética do instituto, em julho de 2024. Leia mais na GQ Segundo Rosana, o primeiro encaminhamento foi uma recomendação de cuidado com redes abertas. Depois, porém, foi aberto um processo administrativo disciplinar por suposta quebra do regime de dedicação exclusiva — modelo em que o servidor atua em jornada integral na instituição e, em regra, não pode exercer outra atividade remunerada fora das exceções previstas em lei. . A professora argumenta que não tinha outro vínculo empregatício e que recebia valores pela cessão de imagem e por conteúdos audiovisuais, o que, na interpretação dela, estaria dentro das exceções permitidas. “Estou ganhando por direitos autorais, cedendo a minha imagem para a plataforma, por imagens audiovisuais, e isso é permitido”, afirma. O processo avançou. Segundo Rosana, uma primeira comissão concluiu que ela não havia cometido infração, mas uma nova comissão foi formada depois de questionamento da Procuradoria da República e resultou em punição. Ela recebeu uma suspensão de 35 dias, convertida em multa, e foi obrigada a devolver os valores da gratificação por dedicação exclusiva recebidos desde julho de 2023. A Justiça Federal, porém, suspendeu parte das penalidades em liminar concedida em 1º de setembro de 2025. Na decisão que a GQ Brasil teve acesso, o juiz Vitor Berger Coelho barrou a cobrança da multa e a devolução dos valores, mas não restabeleceu, naquele momento, a gratificação. Ele afirmou haver “dúvidas razoáveis” sobre o enquadramento da conduta de Rosana como infração e disse que a declaração dela à imprensa sobre ganhar mais com conteúdo adulto do que como professora não configuraria, “em princípio”, deslealdade institucional. Rosana rejeita a acusação. “Não vejo problema nenhum. É liberdade de expressão. Não estou falando mal da instituição, estou falando simplesmente de uma realidade: eu ganho mais lá”, afirma. “Não estou falando que ganho mal, não estou falando que é culpa da escola. É um fato.” Procurado para comentar, o Instituto Federal do Espírito Santo, no campus Santa Teresa respondeu que o processo judicial tramita em segredo de Justiça e que é acompanhado pela Advocacia-Geral da União, responsável pela representação judicial. Dinheiro, desejo e trabalho A renda é parte central da discussão. Rosana diz faturar, em média, cerca de R$ 20 mil por mês com a plataforma, já descontada a taxa da plataforma. Como professora federal, afirma ter renda bruta em torno de R$ 15 mil a R$ 16 mil, com líquido aproximado de R$ 11 mil a R$ 12 mil após descontos. Mesmo assim, diz não pretender deixar a docência. Para ela, a plataforma funciona mais como uma diversão remunerada do que como carreira principal. “Gosto de trabalhar, de ver gente, acho saudável atuar como professora, a sala de aula”, reforça. No caso de Thiagson, a renda é um complemento, não como principal fonte de trabalho. Durante o doutorado, lembra, recebeu bolsa de R$ 2.200 enquanto vivia em São Paulo e tinha um filho. À título de exemplo, ele lembra que certa vez usou um código de barras de uma vacina do filho para cobrir um nude. Para ele, a imagem sintetizava uma contradição: “O OnlyFans me permite pagar uma vacina cara do meu filho”, enquanto a “carreira acadêmica sucateada paga mal para cacete”, resume. Hoje, o dinheiro das plataformas varia conforme a frequência de publicações e divulgação nas redes, mas costuma “pingar” de forma constante. “Qualquer moeda que entra para mim é importante. Conto com isso, mas não é a minha principal fonte de renda”. Nos dois casos, a produção de conteúdo adulto não aparece apenas como busca por dinheiro. Também envolve exposição, desejo, autonomia, performance e disputa simbólica. Rosana grava sozinha, sem equipe, geralmente em casa. Diz que seu conteúdo é mais próximo do cotidiano, com vídeos curtos e estética amadora. “O pessoal gosta mesmo de ver essa coisa natural, a mulher real”, resume. Segundo ela, não há cenas de sexo. A proposta, diz, passa mais pela sugestão, pela provocação e pela imaginação. Fora da aula Embora os dois relatem julgamentos, a forma como cada um vive essa exposição é diferente. Thiagson diz que não sofreu prejuízo direto em seu trabalho, mas percebe a deslegitimação sobretudo nas redes sociais. Cita uma palestra na Universidade Estadual Paulista em que mencionou, ao final, que também estava no OnlyFans. Depois, encontrou um comentário de um aluno dizendo que aquilo havia sido “estranho”. Para ele, a reação ilustra o moralismo acadêmico. “O fato de eu expor minha nudez, minha sexualidade, quer dizer que meu trabalho acadêmico é inferior? Por quê?”, questiona. “É só a repetição da tradição. Repetição sem pensar.” Rosana, por sua vez, afirma não sentir preconceito direto no cotidiano do campus. Diz que colegas e alunos a tratam normalmente e que recebeu muitas mensagens de apoio após a repercussão do caso. Segundo ela, os alunos foram “maciços” no apoio. “No dia a dia, na escola, os professores, os estudantes, não vejo diferença. Você vê nitidamente uma perseguição dessas esferas maiores, que não aceitaram o fato de eu ter desafiado e ter feito”, afirma. Pesa mais para elas Thiagson reconhece que ser homem cis traz uma vantagem. Ele diz conhecer relatos de influenciadoras que recebem ameaças de morte e avalia que mulheres que produzem conteúdo adulto lidam com formas de violência que ele não enfrenta da mesma maneira. “Elas são mulheres e o mundo que a gente vive é podre, é machista, violento. Acredito que elas têm que lidar com uma forma de violência sobre isso que eu não conheço”, pondera. Rosana também acredita que mulheres acadêmicas são julgadas de forma diferente. Para ela, instituições tendem a tolerar por mais tempo condutas graves atribuídas a homens, como assédios e abusos sexuais, enquanto sua produção de conteúdo, feita fora do espaço escolar e sem envolver alunos ou estrutura pública, foi rapidamente transformada em questão disciplinar. “No meu caso, o que eu fiz não é crime”, afirma. “Você vê uma tolerância muito maior em outros casos. E no meu já foi meio que sumário. Já foram para perseguir logo”. Lázaro Ramos é o primeiro convidado do GQ Revisita. As melhores personalidades da nossa revista repassam grandes momentos da carreira. No caso de Lazinho, isso envolve Foguinho, a parceria com Wagner Moura e uma cena arriscada envolvendo um navio em O Homem que Copiava - muito mais. Assista agora Revistas Newsletter
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