Por que a traição parece óbvia para todos, menos para quem a vive?
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July 1, 2026
No mês passado, publiquei um vídeo no meu Instagram contando um episódio que aconteceu há muitos anos. O que mais me impressionou foi o tanto que ele viralizou. Foram quase um milhão de visualizações, mais de cinco mil compartilhamentos e 2.282 comentários de mulheres. Todas diziam a mesma coisa: “eu vivi isso também”. O vídeo continua atraindo a atenção até hoje. E com o mesmo tipo de interação. Isso me fez ter a certeza de que não se trata de um caso individual, mas de um padrão que aprisiona milhares de mulheres de diferentes idades, lugares e histórias de vida. Vou então descrever o que vivi. Era segunda-feira, meio-dia. Tocou o telefone. A voz de uma mulher angustiada: “Mirian, você é uma estúpida, uma idiota, uma burra, uma imbecil. Seu marido está te traindo na hora do almoço com garotas de programa”. E desligou. Fiquei desesperada. Liguei para o meu marido para perguntar o que estava acontecendo. Ele não atendeu. Quando ele chegou às 21 horas, contei o que tinha acontecido. Ele me disse que era tudo mentira. Que era uma ex-namorada completamente louca que queria destruir o nosso casamento. Não acreditei e me separei. Depois de alguns meses, meu ex-marido me confessou a verdade. O telefonema foi da amante dele, uma ex-namorada com quem ele nunca deixou de transar. Só que, além dela, ele também transava com garotas de programa. “Elas são muito mais leves e divertidas. Não ficam me cobrando tanto”, ele disse. A amante ficou com ciúme e resolveu me avisar como uma forma de vingança. Não por solidariedade comigo, mas porque também estava sendo traída. Por mais ingênua que eu possa parecer, eu confiava no meu ex-marido. Não desconfiei em nenhum momento que ele estivesse me traindo ou mentindo, como fez desde o início do casamento. Talvez porque ele repetisse o tempo todo que eu era o único amor da vida dele. E diz isso até hoje. E aqui começa uma questão que só entendi depois: o amor também pode ser uma forma de cegueira. Por isso, o que era “óbvio para todos” nunca é realmente óbvio para quem está dentro da relação. Há uma diferença enorme entre ver de fora e viver por dentro. E, para mim, essa é a pior traição: viver, durante muitos anos, a ilusão de que era a única, a especial, a número um. Por que me lembrei disso agora? Porque só agora percebi que o telefonema da amante, que pareceu uma vingança cruel, pode ter sido também uma forma ambígua de solidariedade entre mulheres. Se não fosse por essa ligação de menos de um minuto, provavelmente ainda estaria casada com um homem alcoólatra, mentiroso e infiel. Mesmo sem saber, ou sem querer, ela me libertou de um casamento repleto de mentiras e traições. A mulher que queria destruir meu casamento acabou me salvando dele. Quantas vezes as mulheres são colocadas umas contra as outras dentro de estruturas que favorecem a mentira masculina? Quantas vezes a “rivalidade” esconde, na verdade, um sistema em que impera a lógica da dominação masculina? Quantas vezes a nossa libertação acontece por meio da dor da traição e do sofrimento de descobrir que foi enganada a vida inteira? As mulheres que me escreveram disseram o mesmo. Foi uma libertação descobrir que estavam sendo traídas e que só assim conseguiram se livrar de um casamento muito infeliz. Mas será que precisamos que a amante seja a mulher que nos desafia a enxergar a verdade, quando, para todos os outros, isso já era óbvio ululante? Hoje penso que o pior não foi a infidelidade. Foi viver durante quinze anos acreditando numa história de amor que nunca existiu. Pensava que era a única, mas, na verdade, era mais uma mulher enganada. Enxergar essa realidade provoca muito sofrimento, mas também pode nos libertar de relações em que não existe respeito, reciprocidade e reconhecimento do nosso valor.
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