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  "title": "Argumento teleológico de Tomás de Aquino",
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  "description": "Tomás de Aquino na Suma Teológica (Questão 2, Artigo 3) apresenta a seguinte versão do argumento teleológico a favor da existência de Deus: “A quinta via é tomada da governação das coisas. De facto, vemos que algumas coisas, que carecem de conhecimento, como os corpos naturais, operam por causa de um fim, o que é manifesto porque sempre ou com maior frequência operam do mesmo modo, para atingirem aquilo que é óptimo. Donde, é patente que não é por acaso, mas por intenção, que atingem o fim. As coisas, porém, que não possuem conhecimento, não tendem para um fim a não ser […]",
  "publishedAt": "2020-03-09T12:49:00+00:00",
  "textContent": "Tomás de Aquino na Suma Teológica (Questão 2, Artigo 3) apresenta a seguinte versão do argumento teleológico a favor da existência de Deus: “A quinta via é tomada da governação das coisas. De facto, vemos que algumas coisas, que carecem de conhecimento, como os corpos naturais, operam por causa de um fim, o que é manifesto porque sempre ou com maior frequência operam do mesmo modo, para atingirem aquilo que é óptimo. Donde, é patente que não é por acaso, mas por intenção, que atingem o fim. As coisas, porém, que não possuem conhecimento, não tendem para um fim a não ser dirigidas por algum cognoscente e inteligente, assim como a seta pelo lançador de setas. Logo, existe algo inteligente, pelo qual todas as coisas naturais são ordenadas para um fim: e isso, dizemos que é Deus”. A estrutura central do argumento de Tomás de Aquino é capturada fielmente da seguinte forma: Alguns seres não são inteligentes mas atingem aquilo que é óptimo. (Por exemplo, as laranjeiras não têm inteligência, mas produzem laranjas). Todo o ser que atinge aquilo que é óptimo atinge o seu fim. Todo o ser não inteligente que atinge o seu fim é dirigido por algum ser inteligente. Logo, existe um ser inteligente que dirige todo o ser não inteligente ao seu fim. Será este um bom argumento? Para analisar a sua validade, podemos utilizar as seguintes abreviaturas para fazermos a formalização lógica do argumento: Ix =df ‘x é inteligente (tem cognição ou conhecimento)’ Ox =df ‘x atinge que é óptimo (ou o melhor)’ Fx =df ‘x atinge o seu fim (objetivo ou propósito)’ Dyx =df ‘y dirige x (ao seu fim)’ Com base nesse dicionário, a formalização do argumento teleológico de Tomás de Aquino é a seguinte: ∃x(¬Ix∧Ox) ∀x(Ox→Fx) ∀x((¬Ix∧Fx)→∃y(Dyx∧Iy)) ∴∃y(Iy∧∀x(¬Ix∧Dyx)) Contudo, este argumento é inválido. Com base nas premissas apresentadas por Tomás de Aquino não se pode validamente concluir 4; nomeadamente, o argumento é inválido porque comete a falácia da inversão dos quantificadores (seria como partir da premissa “todas as pessoas têm uma mãe” para concluir “há uma mãe de todas as pessoas”). É por causa disso que o padre dominicano e lógico polaco Józef Bocheński, membro do Círculo de Cracóvia e do neotomismo analítico, assinalou no artigo The Five Ways que dá a impressão que a quinta via de Tomás de Aquino foi escrita muito apressadamente e que a falha lógica é totalmente flagrante. Esta falha é também notada pelo Anthony Kenny. Para o argumento ser válido é preciso modificar a conclusão. Assim, a conclusão deve ser a seguinte: 4’. Logo, existe pelo menos um ser inteligente que dirige pelo menos um ser ao seu fim. Ou em linguagem lógica: 4’. ∴∃x∃y(Dyx∧Iy) Neste caso o argumento já seria válido. O problema é que neste caso não se consegue mostrar que há um ser inteligente, Deus, que dirige todas as coisas naturais não inteligentes ao seu fim; mas apenas que existe pelo menos algum designer inteligente que dirige alguma coisa natural ao seu fim. Mas isso é compatível com uma pluralidade de designers inteligentes e, assim, não se mostra que Deus existe (tal como é tradicionalmente concebido)."
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