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"Sebenta"
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"title": "Conhecimento a partir de falsidades?",
"author": {
"name": "Domingos Faria"
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"content": "<!-- wp:paragraph -->\n<p>Tipicamente sustenta-se que a verdade é uma condição necessária, embora não suficiente, para o conhecimento. Daí o conhecimento ser factivo, pois só se podem conhecer factos ou verdades. Além disso, tipicamente alega-se que, em inferências dedutivas, só se pode obter conhecimento a partir de verdades. Assim, costuma-se aceitar sem problemas o seguinte princípio: necessariamente, se (1) um sujeito S acredita numa proposição q apenas com base numa dedução válida a partir de uma proposição p, e (2) S sabe q, então p é verdadeira.</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>No entanto, existem alguns contra-exemplos a este princípio intuitivamente plausível que procuram mostrar que é possível haver conhecimento de uma conclusão q a partir de uma premissa falsa p que implique q. Apresento um desses contra-exemplos, adaptado de Warfield (no seu artigo “Knowledge from falsehood”, p. 408, de 2005): Suponha-se que olho para o meu relógio e, com base disso, passo a acreditar que são 14h58m. Daqui dedutivamente infiro que não estou atrasado para a minha conferência das 17h00m. Ora, intuitivamente esta é uma conclusão de que tenho conhecimento mesmo se na realidade são 14h55m e não 14h58m. Portanto, de uma premissa falsa posso dedutivamente obter conhecimento. O que dizer deste contra-exemplo?</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Casos como este parecem mostrar que, num argumento dedutivo, o conhecimento de uma conclusão pode tolerar erro ou falsidade na premissa, na medida em que o erro ou falsidade não seja relevante ou suficientemente grande para ameaçar a verdade da conclusão. Assim, se o erro envolvido ao acreditar na premissa falsa é de pequena magnitude, a inferência dedutiva baseada na falsa premissa pode ainda assim fornecer uma via estável para a verdade da conclusão; porém, se o erro ou falsidade em questão for significativo, tal falsidade comprometerá a verdade da conclusão e, por conseguinte, não haverá conhecimento da conclusão. Portanto, respondendo à questão do título desde <em>post</em>, sim parece que é possível que se tenha conhecimento a partir de falsidades (desde que a falsidade não seja “grande” ou relevante).</p>\n<!-- /wp:paragraph -->",
"summary": "Tipicamente sustenta-se que a verdade é uma condição necessária, embora não suficiente, para o conhecimento. Daí o conhecimento ser factivo, pois só se podem conhecer factos ou verdades. Além disso, tipicamente alega-se que, em inferências dedutivas, só se pode obter conhecimento a partir de verdades. Assim, costuma-se aceitar sem problemas o seguinte princípio: necessariamente, se...",
"createdAt": "2015-11-13T12:40:00+00:00",
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