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  "title": "O problema da ausência divina retratado no “Silêncio”",
  "author": {
    "name": "Domingos Faria"
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  "content": "<!-- wp:paragraph -->\n<p>O&nbsp;<em>problema da ausência divina</em>&nbsp;é uma conjunção da forma mais intensa do problema da ocultação divina e da mais intensa versão do problema do mal. Este problema levanta um desafio para a crença em Deus através de um cenário em que&nbsp;<em>crentes devotos</em>&nbsp;têm experiências de dor e sofrimento cruel sem entenderem por que razão Deus permanece oculto e falha a responder à sua agonia desesperada e pedidos de ajuda. Este problema é descrito de forma vivida no romance&nbsp;<em>Silêncio</em>&nbsp;de Shusaku Endo e agora no filme do mesmo nome realizado por Scorsese.</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Neste romance, em que se relata alguns factos históricos, começamos por constatar que os cristãos escondidos no Japão (chamados&nbsp;<em>Kakure Kirishitans</em>) foram perseguidos. Muitos deles que eram apanhados pelos oficiais e que se recusavam a negar a sua fé (ao pisar um&nbsp;<em>fumie</em>&nbsp;com a imagem de Jesus) eram torturados cruelmente e mortos por decapitação, crucificação, ou executados ao serem queimados numa fogueira. Um dos métodos de tortura mais eficazes foi o chamado&nbsp;<em>anazuri</em>&nbsp;que consistia em pendurar a vítima, completamente amarrada, de cabeça para baixo dentro de uma fossa. Com tais torturas pretendia-se que os cristãos renunciassem à sua fé.</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Uma das personagem principais de&nbsp;<em>Silêncio</em>&nbsp;é Cristóvão Ferreira, uma figura história, que foi um padre jesuíta português missionário no Japão e renunciou à sua fé ao fim de cinco horas de tortura com o método&nbsp;<em>anazuri</em>. Depois ele teve um nome japonês, Chuan Sawano, e casou com uma mulher japonesa, publicando um livro criticando o cristianismo e contribuindo para a perseguição dos cristãos.</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Mas a personagem central é um discípulo de Ferreira, um jesuíta português chamado Sebastião Rodrigues, que vai de propósito ao Japão para convencer o antigo mestre a regressar à fé. Contudo, da mesma forma que Ferreira, Rodrigues é preso e cruelmente torturado. Inicialmente ele deseja experimentar um martírio glorioso, mas ao ouvir as vozes e gemidos de cristãos japoneses a serem torturados, começa a questionar-se: “por que razão Deus está continuadamente em silêncio perante tais gemidos”. Ao longo deste romance e filme, o silêncio de Deus atormenta Rodrigues e fá-lo questionar a existência de Deus. E essa profunda perplexidade sobre o silêncio de Deus aumenta à medida que testemunha uma série aparentemente interminável de mortes de cristãos japoneses. Ele não suporta tal situação e decide pisar o&nbsp;<em>fumie</em>de Jesus para renunciar à sua fé.</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Isto ilustra bem o&nbsp;<em>problema da ausência divina</em>&nbsp;que pode constituir um dos grandes desafios para a crença teísta. Pois, é um problema que começa por envolver mal horrendo. E enquanto podemos estar confortáveis a acreditar que Deus permite algum estado de coisas mau de forma a instanciar algum bem maior, é mais difícil acreditar que Deus permite um estado de coisas que envolve muita dor e sofrimentos absolutamente terríveis que aparentemente são gratuitos, sem sentido, e não servem para qualquer propósito aparente, tal como parecem todas aquelas torturas aos&nbsp;<em>Kakure Kirishitans</em>. Mas para além disso, o problema envolve em simultâneo a ocultação divina aos crentes devotos; e se o problema da ocultação divina para não-crentes que não sejam resistentes já é enigmático, muito mais o é com respeito a crentes devotos, alguns dos quais estão preparados para sacrificarem as suas vidas por Deus. E de facto o que Rodrigues considera intrigante é que Deus permaneça escondido mesmo dos&nbsp;<em>Kakure Kirishitans</em>&nbsp;devotos que estão preparados para morrer por Deus. Diante de tais situações, ele questiona-se por que razão Deus permanece em silêncio mesmo quando alguém está disposto a morrer por ele.</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>É interessante ver que Ferreira não renunciou à fé porque não poderia suportar a tortura (o mal horrendo) ou a ocultação divina em geral. Pelo contrário, ele renunciou à fé porque não poderia suportar a ocultação de Deus com respeito ao mal horrendo que os crentes devotos, tal como ele próprio e os&nbsp;<em>Kakure Kirishitans</em>, tinham de amargurar. É a conjunção do horrendo mal com a ocultação divina que ele não consegue suportar.</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Na longa tradição teísta foram desenvolvidas muitas teodiceias em resposta ao problema do mal e pode-se examinar igualmente se essas teodiceias se podem aplicar ao problema da ausência divina. Por exemplo, uma das mais populares é a teodiceia do&nbsp;<em>livre-arbítrio</em>. Aplicada ao problema da ausência divina pode-se alegar que os seres humanos livres são responsáveis pelo mal horrendo e que se Deus não permanecesse oculto poderia colocar em causa um livre-arbítrio genuíno. Pode-se fazer o mesmo exercício para qualquer outra teodiceia que se considere plausível.</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Este tipo de resposta pode dar conta do aspecto intelectual da ausência divina que diz respeito à consistência lógica entre a existência de Deus e a ocorrência de ausência divina. Todavia, tais teodiceias não terão muita utilidade para resolver um outro aspecto relevante desse problema, pois demonstrar meramente a&nbsp;<em>consistência lógica</em>&nbsp;da existência de Deus com um estado de coisas que envolve ausência divina não elimina a parte&nbsp;<em>experiencial</em>&nbsp;desse problema. A ideia é que a questão “Por que razão Deus permanece silencioso perante a nossa dor e sofrimento?”, que Ferreira e Rodrigues colocam em agonia, não pode ser&nbsp;<em>apenas</em>&nbsp;interpretada como equivalente a uma questão de consistência, mas pode igualmente ser interpretada como um apelo por ajuda, ou até reclamação, a partir de uma perspectiva de primeira pessoa, ou seja: “Deus, por que razão estás em silêncio?! Se existes, não deverias estar em silêncio! Explica-nos pelo menos por que não nos podes ajudar!” É sobretudo este último problema que fica em aberto.</p>\n<!-- /wp:paragraph -->",
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  "createdAt": "2017-01-19T11:30:00+00:00",
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