{
  "path": "/655",
  "tags": [
    "Sebenta"
  ],
  "$type": "site.standard.document",
  "title": "Um argumento cosmológico modal",
  "author": {
    "name": "Domingos Faria"
  },
  "content": "<!-- wp:paragraph -->\n<p>Richard Gale e Alexander Pruss em 1999, no artigo “A New Cosmological Argument”, formularam um novo argumento cosmológico numa versão modal. Esse novo argumento baseia-se numa série de conceitos e distinções que precisam ser previamente clarificados. Em primeiro lugar, introduz-se um domínio fixo de&nbsp;<em>proposições abstratas</em>. Uma conjunção de proposição abstratas é&nbsp;<em>máxima</em>&nbsp;se, e só se, para cada proposição abstrata&nbsp;<em>p</em>, ou&nbsp;<em>p</em>&nbsp;ou não-<em>p</em>&nbsp;é um conjunto da conjunção. Além disso, um conjunto de proposições abstrata é&nbsp;<em>compossível</em>&nbsp;se, e só se, é conceptualmente ou logicamente possível que todos os conjuntos sejam verdadeiros simultaneamente.</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Em segundo lugar, apresenta-se a seguinte definição de&nbsp;<em>mundo possível</em>: um mundo possível é uma coleção de seres e eventos ou estados de coisas que verifica ou torna verdadeiro todos os conjuntos de alguma conjunção máxima, compossível de proposição abstratas. Essa conjunção é designada de&nbsp;<em>Grande Facto Conjuntivo</em>&nbsp;desse mundo possível. Portanto, o Grande Facto Conjuntivo para um dado mundo possível inclui todas as proposições que seriam verdadeira se esse mundo fosse atualizado ou efetivo; sendo que cada mundo possível tem um e apenas um Grande Facto Conjuntivo. Assim, cada mundo possível é individuado pelo seu Grande Facto Conjuntivo.</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Além disso, o&nbsp;<em>Grande Facto Conjuntivo Contingente</em>&nbsp;de algum mundo possível é a conjunção de todas as proposições&nbsp;<em>contingentes</em>&nbsp;que seriam verdadeiras se esse mundo fosse atual ou efetivo. Daí se segue imediatamente que o Grande Facto Conjuntivo Contingente de um mundo possível é máximo com respeito a proposições abstratas contingentes, sendo este incluído no seu Grande Facto Conjuntivo.</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Em terceiro lugar, com este novo argumento cosmológico procura-se estabelecer que há um ser necessário que de forma intencional trouxe “o universo” à existência. Segundo Gale e Pruss, um&nbsp;<em>universo</em>&nbsp;de um mundo é o que verifica ou torna verdadeiro todos os conjuntos do Grande Facto Conjuntivo Contingente nesse mundo. Deste modo, um universo de um mundo possível é uma parte desse mundo possível.</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Por fim, este novo argumento cosmológico baseia-se numa versão fraca do princípio de Leibniz da razão suficiente. De acordo com esse princípio, cada facto ou cada proposição verdadeira&nbsp;<em>possivelmente</em>&nbsp;tem uma explicação. Ou, por outras palavras, é a alegação de que para cada proposição&nbsp;<em>p</em>, se&nbsp;<em>p</em>&nbsp;é verdadeira, então é possível que exista uma proposição&nbsp;<em>q</em>&nbsp;tal que&nbsp;<em>q</em>&nbsp;explique&nbsp;<em>p</em>. Ou ainda de forma mais rigorosa:</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:list -->\n<ul class=\"wp-block-list\"><!-- wp:list-item -->\n<li>(PRS<sub>F</sub>) Para qualquer proposição, <em>p</em>, e qualquer mundo, w, se <em>p</em> está no Grande Facto Conjuntivo de w, então há algum mundo possível, w<sub>1</sub>, e proposição, <em>q</em>, tal que o Grande Facto Conjuntivo de w<sub>1</sub> contém <em>p</em> e <em>q</em> e a proposição que <em>q</em> explica a <em>p</em>.</li>\n<!-- /wp:list-item --></ul>\n<!-- /wp:list -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Com base nestas distinções e clarificações, já podemos formular o argumento do seguinte modo:</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:list -->\n<ul class=\"wp-block-list\"><!-- wp:list-item -->\n<li>1. Se <em>p</em><sub>1</sub> é o Grande Facto Conjuntivo Contingente de um mundo <em>w</em><sub>1</sub> e <em>p</em><sub>2</sub> é o Grande Facto Conjuntivo Contingente de um mundo <em>w</em><sub>2</sub>, e se <em>p</em><sub>1</sub> e <em>p</em><sub>2</sub> são idênticos, então <em>w</em><sub>1</sub> = <em>w</em><sub>2</sub>. [Premissa]</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>2. <em>p</em> é o Grande Facto Conjuntivo Contingente do mundo atual. [Definição]</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>3. Para qualquer proposição, <em>p</em>’, e qualquer mundo, w, se <em>p</em>’ está no Grande Facto Conjuntivo de w, então há algum mundo possível, w<sub>1</sub>, e proposição, <em>q</em>, tal que o Grande Facto Conjuntivo de w<sub>1</sub> contém <em>p</em>’ e <em>q</em> e a proposição que <em>q</em>explica a <em>p</em>’. [Premissa, (PRS<sub>F</sub>)]</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>4. ∴ Se <em>p</em> está no Grande Facto Conjuntivo do mundo atual, então há algum mundo possível, w<sub>1</sub>, e proposição, <em>q</em>, tal que o Grande Facto Conjuntivo de w<sub>1</sub>contém <em>p</em> e <em>q</em> e a proposição que <em>q</em> explica a <em>p</em>. [De 3]</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>5. ∴ Há um mundo possível w<sub>1</sub> e uma proposição <em>q</em>, tal que o Grande Facto Conjuntivo de w<sub>1</sub> contém <em>p</em> e <em>q</em> e a proposição que <em>q</em> explica a <em>p</em>. [De 2 e 3, por modus ponens]</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>6. ∴ w<sub>1</sub> = o mundo atual. [De 1, 2, e 5]</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>7. ∴ Há no mundo atual uma proposição <em>q</em>, tal que o Grande Facto Conjuntivo do mundo atual contém <em>p</em> e <em>q</em> e a proposição que <em>q</em> explica <em>p</em>. [De 5 e 6]</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>8.<em> q</em> é ou uma explicação pessoal ou <em>q</em> é uma explicação científica. [Premissa]</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>9. <em>q</em> não é uma explicação científica (dado que todas as leis científicas relevantes estão contidas como conjuntas no <em>explanandum</em>, e as leis não são auto-explicativas). [premissa]</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>10. ∴ <em>q</em> é uma explicação pessoal. [De 8 e 9, por silogismo disjuntivo]</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>11. ∴ <em>q</em> reporta a ação intencional de um ser contingente ou <em>q</em> reporta a ação intencional de um ser necessário. [De 10]</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>12. Não é o caso que <em>q</em> reporte a ação intencional de um ser contingente (dado que um ser contingente não pode produzir a sua própria existência). [Premissa]</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>13. ∴ <em>q</em> reporta a ação intencional de um ser necessário. [De 11 e 12, por silogismo disjuntivo]</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>14. ∴ <em>q</em> é uma proposição contingente que reporta a ação intencional de um ser necessário. [De 1, 2, e 13]</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>15. ∴ <em>q</em> é uma proposição contingente que reporta a ação intencional de um ser necessário que explica a existência do universo no mundo atual (dado que o Grande Facto Conjuntivo Contingente reporta a existência do universo no mundo atual). [De 14]</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>16. ∴ É contingentemente verdade que há um ser necessário que intencionalmente criou o universo no mundo atual. [De 15] (QED)</li>\n<!-- /wp:list-item --></ul>\n<!-- /wp:list -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Este argumento é válido. Mas será sólido? Temos alguma boa razão para rejeitar o princípio (PRS<sub>F</sub>)?</p>\n<!-- /wp:paragraph -->",
  "summary": "Richard Gale e Alexander Pruss em 1999, no artigo “A New Cosmological Argument”, formularam um novo argumento cosmológico numa versão modal. Esse novo argumento baseia-se numa série de conceitos e distinções que precisam ser previamente clarificados. Em primeiro lugar, introduz-se um domínio fixo de&nbsp;proposições abstratas. Uma conjunção de proposição abstratas é&nbsp;máxima&nbsp;se, e só se, para...",
  "createdAt": "2017-04-15T16:51:00+00:00",
  "updatedAt": "2025-07-25T16:52:15+00:00"
}