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    "Sebenta"
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  "title": "Um argumento contra o Princípio da Razão Suficiente",
  "author": {
    "name": "Domingos Faria"
  },
  "content": "<!-- wp:paragraph -->\n<p>O Princípio da Razão Suficiente (PRS) é a tese, tipicamente atribuída a Espinoza e Leibniz, de que nada pode ser o caso sem uma causa ou razão suficiente para o ser dessa forma. Assim, de acordo com PRS nenhuma proposição pode ser verdadeira sem uma razão suficiente. Pode-se formalizar esse princípio do seguinte modo:</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:list -->\n<ul class=\"wp-block-list\"><!-- wp:list-item -->\n<li>(PRS) Para qualquer proposição <em>P</em>, há uma proposição <em>Q</em>, a que chamamos de <em>razão suficiente</em> para <em>P</em>, tal que o seguinte é o caso: (i) <em>Q</em> é verdadeira, (ii) <em>Q</em>implica <em>P</em>, i.e., <em>Q </em>├ <em>P</em>, e (iii) se P é uma proposição contingente, então não é o caso que <em>Q </em>├ <em>P</em> e <em>P </em>├ <em>Q</em>.</li>\n<!-- /wp:list-item --></ul>\n<!-- /wp:list -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Este princípio PRS é bastante usado em algumas versões do argumento cosmológico para se provar a existência de Deus. Por exemplo: se PRS for um princípio plausível, cada coisa que existe explica-se por um outro ou por si próprio, mas não se explicaria por nada. Assim, todo o ser ou é dependente ou é auto-existe; mas nem todo o ser pode ser dependente, dado que o facto de haver e sempre ter havido seres dependentes requer explicação; logo, existe um ser auto-existente, que se explica por si próprio, i.e. Deus. Além disso, PRS também poderá ser aplicado num argumento a favor do determinismo, tal como aponta Peter van Inwagen no livro&nbsp;<em>An Essay on Free Will</em>&nbsp;(p. 202). No entanto, van Inwagen nesse mesmo livro (p. 203) sugere uma&nbsp;<em>redução ao absurdo</em>&nbsp;contra PRS. O argumento poderá ser formalizado deste modo:</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:list {\"ordered\":true} -->\n<ol class=\"wp-block-list\"><!-- wp:list-item -->\n<li>Seja <em>P</em> a conjunção de todas as proposições contingentes verdadeiras. [premissa]</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>∴ <em>P</em> é ela mesma uma proposição contingentemente verdadeira. [de 1]</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>∴ Há uma proposição verdadeira <em>S</em> que é uma razão suficiente para <em>P</em>. [de 2 e PRS]</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>Ou <em>S</em> é necessariamente verdadeira ou é contingentemente verdadeira. [premissa]</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>∴ Se <em>S</em> é necessária, então <em>P</em> é necessária. [de PRS e necessidade da implicação]</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>∴ <em>S</em> não é necessária. [de 2 e 5, por <em>modus tollens</em>]</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>∴ <em>S</em> é contingente. [de 4 e 6, por silogismo disjuntivo]</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>∴ <em>P </em>├ <em>S</em>. [de 1 e 7]</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>∴ <em>S </em>├ <em>P</em>. [de 3 e PRS]</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>∴ <em>P </em>├ <em>S</em> ∧ <em>S </em>├ <em>P</em>. [de 8 e 9]</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>∴ ¬(<em>P </em>├ <em>S</em> ∧ <em>S </em>├ <em>P</em>). [de 3 e PRS]</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>∴ ⊥. [de 10 e 11]</li>\n<!-- /wp:list-item --></ol>\n<!-- /wp:list -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>A partir dessa contradição, van Inwagen sustenta que podemos concluir que PRS é falso. E “esse resultado segue-se na medida em que supomos que há uma tal coisa como&nbsp;<em>P</em>&nbsp;- isto é, a conjunção de todas as proposições contingentemente verdadeiras. E há uma coisa como essa se existem quaisquer proposições contingentemente verdadeiras. Portanto, se PRS é verdadeiro, (…) não há distinção a ser feita entre verdade e necessidade”. Esse argumento de van Inwagen é válido, mas será um argumento sólido e cogente? Será plausível defender que há uma conjunção de todas as proposições contingentemente verdadeiras?</p>\n<!-- /wp:paragraph -->",
  "summary": "O Princípio da Razão Suficiente (PRS) é a tese, tipicamente atribuída a Espinoza e Leibniz, de que nada pode ser o caso sem uma causa ou razão suficiente para o ser dessa forma. Assim, de acordo com PRS nenhuma proposição pode ser verdadeira sem uma razão suficiente. Pode-se formalizar esse princípio do seguinte modo: (PRS)...",
  "createdAt": "2017-06-22T16:52:00+00:00",
  "updatedAt": "2025-07-25T16:53:14+00:00"
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