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"Sebenta"
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"title": "O Problema do Livre-Arbítrio aplicado à Encarnação",
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"name": "Domingos Faria"
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"content": "<!-- wp:paragraph -->\n<p>A doutrina da encarnação de Deus levanta várias questões filosóficas interessantes. Em anos anteriores já tratamos puzzles sobre a consistência interna desta doutrina, sobre se pode ou não haver múltiplas encarnações, sobre se há boas razões para haver encarnação. Neste ano queremos analisar as relações entre a encarnação e o livre-arbítrio. Nomeadamente pretendemos examinar se, dada a verdade da cristologia tradicional, faz sentido dizer que Cristo tem livre-arbítrio (ou livre-arbítrio <em>enquanto</em> humano).</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>De acordo com a cristologia tradicional, com raízes no primeiro Concílio de Niceia (no ano de 325), considera-se que Jesus Cristo tem duas naturezas e, por conseguinte, duas vontades: uma vontade divina e uma vontade humana. Esta ideia de que Cristo tem tanto uma vontade divina como humana foi claramente defendida no terceiro Concílio de Constantinopla. Além disso, nesse mesmo Concílio foi defendida a ideia de que a vontade humana de Cristo sujeita-se, não resistindo nem lutando, à sua vontade divina e omnipotente. Mas essa ideia pode originar duas questões filosóficas pertinentes: a <em>vontade humana</em> de Cristo pode ser realmente livre? Por outras palavras, pode Cristo ter um livre-arbítrio genuíno em relação à sua vontade humana? Se sim, como explicar isso?</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Antes de avançar com respostas para esse problema é necessário esclarecer o que se entende por <em>livre-arbítrio</em>. Seguindo a sugestão de um dos principais filósofos influentes no debate sobre o problema do livre-arbítrio, Peter van Inwagen (2008: 329), pode-se definir “livre-arbítrio” como a habilidade de agir de outra forma, ou seja, ter a capacidade de escolher agir de um modo diferente daquele que agimos. Neste sentido, possuir <em>livre-arbítrio</em> consiste em ter possibilidades alternativas. Daí van Inwagen defender o <em>Princípio das Possibilidades Alternativas</em> (PPA) nos seguintes termos:</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:quote -->\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><!-- wp:paragraph -->\n<p>Temos livre-arbítrio (no sentido relevante para a responsabilidade moral) só se pudermos escolher agir de modo diferente daquele que agimos.</p>\n<!-- /wp:paragraph --></blockquote>\n<!-- /wp:quote -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Aqui estamos igualmente a supor que o livre-arbítrio é <em>incompatível</em> como o determinismo. Mas será que o Cristo encarnado, na sua natureza humana, tem este tipo de livre-arbítrio? Na cristologia tradicional tipicamente defende-se que Cristo tem <em>livre-arbítrio</em> com respeito à sua vontade humana. Isto porque advoga-se que Cristo, dada a encarnação, era como nós meros humanos em todos os sentidos (menos no pecado). Ora, se em geral a vontade humana é livre, assim também a vontade humana de Cristo. Contudo, pode-se construir um argumento em que se mostra que há um conflito entre as seguintes teses que tipicamente os Cristãos aceitam:</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:list -->\n<ul class=\"wp-block-list\"><!-- wp:list-item -->\n<li><em>Tese da cristologia tradicional</em> (TCT): A vontade humana de Cristo foi sujeita à vontade divina e seguiu a vontade divina em todas as coisas sem se esforçar ou resistir.</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li><em>Tese da liberdade humana</em> (TLH): Cristo, em virtude da sua assumida vontade humana, tem livre-arbítrio.</li>\n<!-- /wp:list-item --></ul>\n<!-- /wp:list -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Tendo em conta essas teses podemos construir o seguinte argumento na forma de uma <em>redução ao absurdo</em>:</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:list {\"ordered\":true} -->\n<ol class=\"wp-block-list\"><!-- wp:list-item -->\n<li>Suponha-se que a conjunção de TCT e TLH é verdadeira. [Suposição da <em>reductio</em>]</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>Para quaisquer duas vontades, <em>x</em> e <em>y</em>, se <em>y</em> for submetida a <em>x</em> e segue <em>x</em> em todas as coisas sem se esforçar ou resistir, então <em>y</em> não tem livre-arbítrio (no sentido relevante do <em>princípio das possibilidade alternativas</em> [PPA]). [Premissa]</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>∴ A vontade humana de Cristo não tem livre-arbítrio (no sentido relevante do PPA). [De 2 e TCT]</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>Se Cristo, em virtude da sua assumida vontade humana, tem livre-arbítrio, então a vontade humana de Cristo tem livre-arbítrio (no sentido relevante do PPA). [Premissa]</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>∴ É falso que Cristo, em virtude da sua assumida vontade humana, tem livre-arbítrio. [De 3 e 4]</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>∴ Contradição! (Em 5 e TLH).</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>∴ A conjunção de TCT e TLH é falsa. [De 1-6, por <em>redução ao absurdo</em>]</li>\n<!-- /wp:list-item --></ol>\n<!-- /wp:list -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>O argumento para a conclusão 7 é formalmente válido. Assim, se o Cristão apologista da premissa 1 deseja evitar a contradição, deve rejeitar a verdade de pelo menos uma premissa. Mas qual?</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Um dos aspetos que se poderá criticar neste argumento é precisamente a suposição de que o livre-arbítrio deve ser entendido de acordo com o PPA. Com base no artigo <em>Responsabilidade Moral e o Princípio das Possibilidades Alternativas</em> de Harry Frankfurt podemos conceber uma engenhosa experiência mental que constitui um contraexemplo ao PPA. Este tipo de experiência mental ficou conhecido como <em>casos de Frankfurt</em>. Num típico Caso de Frankfurt existe uma circunstância <em>C</em> tal que: (i) um agente, <em>A</em>, toma uma determinada decisão <em>D</em>; (ii) se <em>A</em> não decidir <em>D</em>, por si mesmo, <em>C</em>entra em ação e força <em>A</em> a decidir <em>D</em>; e (iii) <em>C</em> em nada contribui para que <em>A</em> decida <em>D</em>. Considerando esta estrutura, podemos imaginar o seguinte caso:</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Black é o chefe de uma poderosa organização criminosa e Jones é um dos mais eficientes assassinos dessa organização. Black quer matar o Presidente e sabe que Jones é a pessoa certa para o trabalho. No entanto, existem rumores de que Jones quer abandonar a profissão, razão pela qual o seu compromisso com a organização é incerto. Nesse momento, Black recorda-se de uma das invenções mais recentes dos cientistas da sua organização – o neuroscópio. O neuroscópio é um aparelho que, uma vez introduzido no cérebro de uma pessoa, permite vigiar e controlar os seus estados cerebrais. Black apercebe-se que o neuroscópio lhe permite resolver dois problemas de uma só vez. Se implantar secretamente o neuroscópio no cérebro de Jones, ficará a saber se este continua a ser um dos seus fiéis assassinos – pode acontecer que ele decida, por si mesmo, matar o Presidente, sem que seja necessária a intervenção do neuroscópio – ao mesmo tempo, que se certifica de que Jones cumpre a sua missão e mata o Presidente – porque se o neuroscópio detetar qualquer indício de que ele não o vai fazer, entra em ação e força-o a decidir nesse sentido.</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Imaginemos, agora, que no mundo atual Jones decide pelos seus próprios motivos matar o Presidente. Nesse caso temos um situação em que existe uma circunstância em que: (i) Jones toma, por si mesmo, a decisão de matar o Presidente; (ii) se Jones não decidisse, por si mesmo, matar o Presidente, o neuroscópio entraria em ação e forçaria Jones a tomar essa decisão; e (iii) a presença do neuroscópio no cérebro de Jones em nada contribui para a sua decisão de matar o Presidente. Neste caso parece intuitivo que Jones é moralmente responsável pela morte do presidente e, assim, podemos dizer que agente tem livre-arbítrio ainda que não tenha possibilidades alternativas. Ora, isto dá razões para acreditar que o PPA é falso, pois podemos ter livre-arbítrio (no sentido relevante para a responsabilidade moral), ainda que não possamos escolher agir de modo diferente daquele que agimos. De forma similar, Cristo encarnado, em virtude da sua assumida vontade humana, pode ter livre-arbítrio ainda que não tenha possibilidades alternativas e, dessa forma, evitamos a contradição entre TCT e TLH.</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Mas, se existirem boas objeções para a proposta compatibilista de Frankfurt (como as apresentadas por David Widerker, Robert Kane e Carl Ginet), haverá outras formas de evitar a contradição entre TCT e TLH supondo que PPA é verdadeiro? A discussão fica em aberto. Um Santo e Feliz Natal!</p>\n<!-- /wp:paragraph -->",
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"createdAt": "2017-12-23T11:52:00+00:00",
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