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"Sebenta"
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"title": "O cristianismo e os seus puzzles filosóficos",
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"name": "Domingos Faria"
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"content": "<!-- wp:paragraph -->\n<p>Muitos dos problemas da teologia estão repletos de puzzles filosóficos. Um desses puzzles tem a ver com o facto dos cristãos acreditarem que Cristo tem duas naturezas complementares, uma divina e outra humana, que parecem contraditórias. Uma forma de mostrar esse problema passa por apresentar argumentos parecidos ao seguinte:</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:list {\"ordered\":true} -->\n<ol class=\"wp-block-list\"><!-- wp:list-item -->\n<li>Cristo é imutável (em virtude da natureza divina de Cristo).</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>Cristo é mutável (em virtude da natureza humana de Cristo).</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>Logo, Cristo é simultaneamente mutável e imutável. [De 1 e 2]</li>\n<!-- /wp:list-item --></ol>\n<!-- /wp:list -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Existem várias tentativas para evitar a contrição presente em 3. Por exemplo, pode-se negar o princípio de que algo que exemplifique uma natureza N tem quaisquer propriedades que são implicadas por ter a natureza N. Rejeitar todas as contradições lógicas (ou seja, frases da forma <em>é verdade que p e é falso que p</em>), exige a rejeição de 1, 2, ou 3. Essa tem sido a abordagem mais tradicional em que se segue a lógica clássica. Mas existe outra forma de lidar com este puzzle ao aceitar 3 (com auxílio de uma lógica paraconsistente) e, assim, ao afirmar que é verdade que Cristo é mutável e é falso que Cristo é mutável. A ideia é que algumas contradições são verdadeiras. Assim, com este tipo de lógica, rejeita-se o princípio da explosão da lógica clássica (também conhecido como <em>ex falso quodlibet</em>) de acordo com o qual:</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:quote -->\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><!-- wp:paragraph -->\n<p>(A∧¬A)⊢B</p>\n<!-- /wp:paragraph --></blockquote>\n<!-- /wp:quote -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Ou seja, de acordo com a lógica clássica, a partir de uma contradição, qualquer coisa se segue. Mas uma lógica paraconsistente, como a de <em>implicação de primeiro grau</em>(“first degree entailment”), não aceita esse princípio. Assim, neste tipo de lógica nem todas as contradições são explosivas. E a contradição presente em 3 seria um desses casos e, por isso, não é problemático aceitar 3. Por outras palavras, uma frase A é absurda de acordo com uma teoria T se, e só se, A é explosiva de acordo com T. Contudo, pode-se defender que 3 não é absurda e, por isso, não é explosiva. Para uma forte defesa desta perspetiva vale a pena ler o artigo do filósofo Jc Beall com o título <em>Christ – A Contradiction - A Defense of Contradictory Christology</em>. Esse artigo e outros textos, com um conjunto alargado de respostas e objeções, estão disponíveis <a href=\"https://journals.tdl.org/jat/index.php/jat/article/view/293/518\"><strong>aqui</strong></a>. É interessante ver que também um outro excelente filósofo, Graham Priest, aplicou <a href=\"https://aeon.co/essays/the-logic-of-buddhist-philosophy-goes-beyond-simple-truth\"><strong>aqui</strong></a> uma estratégia parecida para defender a religião budista.</p>\n<!-- /wp:paragraph -->",
"summary": "Muitos dos problemas da teologia estão repletos de puzzles filosóficos. Um desses puzzles tem a ver com o facto dos cristãos acreditarem que Cristo tem duas naturezas complementares, uma divina e outra humana, que parecem contraditórias. Uma forma de mostrar esse problema passa por apresentar argumentos parecidos ao seguinte: Cristo é imutável (em virtude da...",
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