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    "Sebenta"
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  "title": "Argumento teleológico de Tomás de Aquino",
  "author": {
    "name": "Domingos Faria"
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  "content": "<!-- wp:paragraph -->\n<p>Tomás de Aquino na&nbsp;<em>Suma Teológica</em>&nbsp;(Questão 2, Artigo 3) apresenta a seguinte versão do argumento teleológico a favor da existência de Deus:</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:quote -->\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><!-- wp:paragraph -->\n<p>“A quinta via é tomada da governação das coisas. De facto, vemos que algumas coisas, que carecem de conhecimento, como os corpos naturais, operam por causa de um fim, o que é manifesto porque sempre ou com maior frequência operam do mesmo modo, para atingirem aquilo que é óptimo. Donde, é patente que não é por acaso, mas por intenção, que atingem o fim. As coisas, porém, que não possuem conhecimento, não tendem para um fim a não ser dirigidas por algum cognoscente e inteligente, assim como a seta pelo lançador de setas. Logo, existe algo inteligente, pelo qual todas as coisas naturais são ordenadas para um fim: e isso, dizemos que é Deus”.</p>\n<!-- /wp:paragraph --></blockquote>\n<!-- /wp:quote -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>A estrutura central do argumento de Tomás de Aquino é capturada fielmente da seguinte forma:</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:list {\"ordered\":true} -->\n<ol class=\"wp-block-list\"><!-- wp:list-item -->\n<li>Alguns seres não são inteligentes mas atingem aquilo que é óptimo. (Por exemplo, as laranjeiras não têm inteligência, mas produzem laranjas).</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>Todo o ser que atinge aquilo que é óptimo atinge o seu fim.</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>Todo o ser não inteligente que atinge o seu fim é dirigido por algum ser inteligente.</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>Logo, existe um ser inteligente que dirige todo o ser não inteligente ao seu fim.</li>\n<!-- /wp:list-item --></ol>\n<!-- /wp:list -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Será este um bom argumento? Para analisar a sua validade, podemos utilizar as seguintes abreviaturas para fazermos a formalização lógica do argumento:</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:list -->\n<ul class=\"wp-block-list\"><!-- wp:list-item -->\n<li>Ix =<sub>df</sub> ‘x é inteligente (tem cognição ou conhecimento)’</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>Ox =<sub>df</sub> ‘x atinge que é óptimo (ou o melhor)’</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>Fx =<sub>df</sub> ‘x atinge o seu fim (objetivo ou propósito)’</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>Dyx =<sub>df</sub> ‘y dirige x (ao seu fim)’</li>\n<!-- /wp:list-item --></ul>\n<!-- /wp:list -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Com base nesse dicionário, a formalização do argumento teleológico de Tomás de Aquino é a seguinte:</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:list {\"ordered\":true} -->\n<ol class=\"wp-block-list\"><!-- wp:list-item -->\n<li>∃x(¬Ix∧Ox)</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>∀x(Ox→Fx)</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>∀x((¬Ix∧Fx)→∃y(Dyx∧Iy))</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>∴∃y(Iy∧∀x(¬Ix∧Dyx))</li>\n<!-- /wp:list-item --></ol>\n<!-- /wp:list -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Contudo, este argumento é inválido. Com base nas premissas apresentadas por Tomás de Aquino não se pode validamente concluir 4; nomeadamente, o argumento é inválido porque comete a falácia da inversão dos quantificadores (seria como partir da premissa “todas as pessoas têm uma mãe” para concluir “há uma mãe de todas as pessoas”). É por causa disso que o padre dominicano e lógico polaco Józef Bocheński, membro do Círculo de Cracóvia e do neotomismo analítico, assinalou no artigo <em>The Five Ways</em> que dá a impressão que a quinta via de Tomás de Aquino foi escrita muito apressadamente e que a falha lógica é totalmente flagrante. Esta falha é também notada pelo Anthony Kenny. Para o argumento ser válido é preciso modificar a conclusão. Assim, a conclusão deve ser a seguinte:</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:list -->\n<ul class=\"wp-block-list\"><!-- wp:list-item -->\n<li>4’. Logo, existe pelo menos um ser inteligente que dirige pelo menos um ser ao seu fim.</li>\n<!-- /wp:list-item --></ul>\n<!-- /wp:list -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Ou em linguagem lógica:</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:list -->\n<ul class=\"wp-block-list\"><!-- wp:list-item -->\n<li>4’. ∴∃x∃y(Dyx∧Iy)</li>\n<!-- /wp:list-item --></ul>\n<!-- /wp:list -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Neste caso o argumento já seria válido. O problema é que neste caso não se consegue mostrar que há um ser inteligente, Deus, que dirige todas as coisas naturais não inteligentes ao seu fim; mas apenas que existe pelo menos algum designer inteligente que dirige alguma coisa natural ao seu fim. Mas isso é compatível com uma pluralidade de designers inteligentes e, assim, não se mostra que Deus existe (tal como é tradicionalmente concebido).</p>\n<!-- /wp:paragraph -->",
  "summary": "Tomás de Aquino na&nbsp;Suma Teológica&nbsp;(Questão 2, Artigo 3) apresenta a seguinte versão do argumento teleológico a favor da existência de Deus: “A quinta via é tomada da governação das coisas. De facto, vemos que algumas coisas, que carecem de conhecimento, como os corpos naturais, operam por causa de um fim, o que é manifesto porque...",
  "createdAt": "2020-03-09T12:49:00+00:00",
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