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"Sebenta"
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"title": "Argumento ontológico de Descartes",
"author": {
"name": "Domingos Faria"
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"content": "<!-- wp:paragraph -->\n<p>No parágrafo 9 das <em>Meditações V</em>, Descartes apresenta da seguinte forma o seu argumento ontológico a favor da existência de Deus:</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:quote -->\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><!-- wp:paragraph -->\n<p>(…) todas as vezes (…) que me ocorrer pensar num ser primeiro e soberano (…) é necessário que eu lhe atribua todas as espécies de perfeição (…). E esta necessidade é suficiente para me fazer concluir (depois que reconheci ser a existência uma perfeição), que este ser primeiro e soberano existe verdadeiramente.</p>\n<!-- /wp:paragraph --></blockquote>\n<!-- /wp:quote -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Tal como se pode constatar, Descartes visa provar a existência de Deus com base neste argumento:</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:list {\"ordered\":true} -->\n<ol class=\"wp-block-list\"><!-- wp:list-item -->\n<li>Um ser sumamente perfeito tem todas as perfeições.</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>A existência é uma perfeição.</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>Logo, um ser sumamente perfeito existe.</li>\n<!-- /wp:list-item --></ol>\n<!-- /wp:list -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Será este um bom argumento? Tipicamente a crítica mais comum a este argumento consiste em atacar a premissa 2; pois, com base em Kant, pode-se defender que se a existência não é uma propriedade, então a existência não é uma perfeição. Mas parece-me que há problemas mais graves e básicos do que esse que não estão relacionados com a verdade das premissas, mas sim com a própria estrutura lógica do argumento.</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Para analisar com rigor este argumento, vamos formalizá-lo ao utilizar três predicados – S, P, e T – e uma constante e. Assim, ‘e’ representa a propriedade da existência, ‘Sx’ abrevia ‘x é sumamente perfeito’, ‘Px’ abrevia ‘x é uma perfeição’, e ‘Txy’ abrevia ‘x tem a propriedade y’. Com base nessas abreviaturas, pode-se formalizar intuitivamente o argumento de Descartes do seguinte modo:</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:list {\"ordered\":true,\"start\":4} -->\n<ol start=\"4\" class=\"wp-block-list\"><!-- wp:list-item -->\n<li>∀x(Sx→∀y(Py→Txy))</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>Pe</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>∴∀x(Sx→Txe)</li>\n<!-- /wp:list-item --></ol>\n<!-- /wp:list -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Nesta formalização o argumento de Descartes é claramente válido; contudo, não prova realmente a existência de um ser perfeito. Pois, em 6 não diz que há um ser sumamente perfeito que existe, mas apenas que, para qualquer x, se x é sumamente perfeito, então x tem a propriedade da existência. Mas isso é só uma condicional. Por isso, é preciso alterar a conclusão de forma a dizer precisamente que há um ser sumamente perfeito que existe. Nesse caso temos a seguinte formalização:</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:list {\"ordered\":true,\"start\":7} -->\n<ol start=\"7\" class=\"wp-block-list\"><!-- wp:list-item -->\n<li>∀x(Sx→∀y(Py→Txy))</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>Pe</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>∴∃x(Sx∧Txe)</li>\n<!-- /wp:list-item --></ol>\n<!-- /wp:list -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Com essa reformulação o argumento já teria uma conclusão existencial ao afirmar-se que pelo menos um ser sumamente perfeito existe. O problema é que neste último caso o argumento é inválido, dado que 9 não se segue validamente de 7 e 8. Para se ter um argumento válido com uma conclusão existencial é preciso alterar a formalização lógica da premissa 1 (a qual terá de ser igualmente existencial), resultando na seguinte formalização:</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:list {\"ordered\":true,\"start\":10} -->\n<ol start=\"10\" class=\"wp-block-list\"><!-- wp:list-item -->\n<li>∃x(Sx∧∀y(Py→Txy))</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>Pe</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>∴∃x(Sx∧Txe)</li>\n<!-- /wp:list-item --></ol>\n<!-- /wp:list -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Aqui temos um argumento válido com uma conclusão existencial. O problema é que comete de forma escandalosa uma petição de princípio, dado que em 10 já se está a afirmar que há um ser sumamente perfeito para depois concluir em 12 que há um ser sumamente perfeito. Ora, isso é completamente circular. Assim, o argumento falha em provar a existência de Deus. Mas há outras versões do argumento ontológico, como a versão de Leibniz, que procura ultrapassar esses problemas.</p>\n<!-- /wp:paragraph -->",
"summary": "No parágrafo 9 das Meditações V, Descartes apresenta da seguinte forma o seu argumento ontológico a favor da existência de Deus: (…) todas as vezes (…) que me ocorrer pensar num ser primeiro e soberano (…) é necessário que eu lhe atribua todas as espécies de perfeição (…). E esta necessidade é suficiente para me fazer...",
"createdAt": "2020-05-05T12:52:00+00:00",
"updatedAt": "2025-07-25T12:53:19+00:00"
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