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"Sebenta"
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"title": "A objeção de Kant ao argumento ontológico",
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"name": "Domingos Faria"
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"content": "<!-- wp:paragraph -->\n<p>Kant na <em>Crítica da Razão Pura</em> apresentou uma objeção que permite atacar a premissa 2 (de que <em>a existência é uma perfeição</em>) do argumento ontológico de Descartes e também do argumento ontológico de Anselmo. Para atacar essa premissa Kant tem a seguinte estratégia argumentativa:</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:list {\"ordered\":true} -->\n<ol class=\"wp-block-list\"><!-- wp:list-item -->\n<li>Se a existência é uma perfeição, então a existência é uma propriedade.</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>Mas a existência não é uma propriedade.</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>Logo, a existência não é uma perfeição.</li>\n<!-- /wp:list-item --></ol>\n<!-- /wp:list -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>A premissa 1 é aceite tanto por Kant quanto pelos defensores tradicionais do argumento ontológico. Mas ao passo que os defensores tradicionais fazem <em>modus ponens</em> a partir de 1, Kant faz <em>modus tollens</em>. Assim, a premissa que precisa ser bem fundamentada é a premissa 2. Para fundamentar essa premissa, Kant escreveu o seguinte na <em>Crítica da Razão Pura</em> (A599,B627):</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:quote -->\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><!-- wp:paragraph -->\n<p>“Ser não é, evidentemente, um predicado real, isto é, um conceito de algo que possa acrescentar-se ao conceito de uma coisa; é apenas a posição de uma coisa ou de certas determinações em si mesmas. (…) A proposição Deus é omnipotente contém dois conceitos que têm os seus objetos: Deus e omnipotência (…). Se tomar pois o sujeito (Deus) juntamente com todos os seus predicados (entre os quais se conta também a omnipotência) e disser Deus é, ou existe um Deus, não acrescento um novo predicado ao conceito de Deus, mas apenas ponho o sujeito em si mesmo, com todos os seus predicados e, ao mesmo tempo, o objeto que corresponde ao meu conceito. Ambos têm de conter, exatamente o mesmo.”</p>\n<!-- /wp:paragraph --></blockquote>\n<!-- /wp:quote -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Seguindo a interpretação de George Dicker (no livro <em>Descartes: an analytical and historical introduction</em>), nessa passagem Kant está a defender que:</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:list {\"ordered\":true,\"start\":4} -->\n<ol start=\"4\" class=\"wp-block-list\"><!-- wp:list-item -->\n<li>Se a existência é uma propriedade, então “existe” é um predicado descritivo.</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>Mas “existe” não é um predicado descritivo.</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>Logo, a existência não é uma propriedade.</li>\n<!-- /wp:list-item --></ol>\n<!-- /wp:list -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>De acordo com 4, salienta-se que a palavra que designa uma propriedade serve para descrever coisas como tendo ou não essa propriedade. Por exemplo, se a vermelhidão é uma propriedade, então a palavra “vermelho” é um predicado descritivo. Do mesmo modo, se a existência é uma propriedade, então “existe” é um predicado descritivo. Mas por que razão 5 é verdadeira? Kant aceita que “existe” pode ser um predicado gramatical, como quando se afirma que “tigres domesticados existem”. Contudo, “existe” não é um predicado descritivo, ou seja, não diz como as coisas são. Mas porquê? Para fundamentar isso, compare-se as seguintes frases:</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:list -->\n<ul class=\"wp-block-list\"><!-- wp:list-item -->\n<li>A. Tigres domésticos existem.</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>B. Tigres domésticos rosnam.</li>\n<!-- /wp:list-item --></ul>\n<!-- /wp:list -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Ao passo que em B o predicado “rosnam” descreve os tigres domésticos, caraterizando como eles são, na afirmação A o predicado “existem” não serve para descrever os tigres domésticos, não os caraterizando. Ora, como “existe” é no máximo um predicado gramatical, mas não descritivo, Kant defende que “existe” não é um predicado real. Então qual é função do termo “existem” na frase A? Nesse caso, a sua verdadeira função é dizer que o conceito de tigres domésticos se aplicam a alguma coisa. Assim, quando se afirma que os tigres domésticos existem, está a dizer-se que o conceito se aplica a alguma coisa, ou tem instâncias, ou é exemplificado. Mas com isso não se está a dizer que os tigres domésticos têm uma certa propriedade: a existência. Em suma, segundo Kant, é preciso distinguir entre:</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:list {\"ordered\":true,\"type\":\"lower-roman\"} -->\n<ol style=\"list-style-type:lower-roman\" class=\"wp-block-list\"><!-- wp:list-item -->\n<li>descrever uma coisa e</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>dizer que um conceito se aplica a algo.</li>\n<!-- /wp:list-item --></ol>\n<!-- /wp:list -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Com base nisso, ao dizermos que “Deus é omnipotente” estamos a descrever ou caraterizar Deus. Mas ao dizermos “Deus existe” não existamos a descrever Deus, mas sim que o termo “Deus” se aplica a algo ou é instanciado.</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Esta perspetiva de Kant tem reflexos na notação simbólica da lógica quantificada. Por um lado, uma frase descritiva, como “Deus é omnipotente”, é formalizada como ‘Od’ (lendo-se como “d tem a propriedade O”), em que ‘d’ é uma constante que denota o Deus teísta e ‘O’ é o predicado que designa a propriedade da omnipotência. Por outro lado, uma frase afirmativa existencial, como “Deus existe”, é formalizada como ‘∃x(x=d)’ (lendo-se como “existe um x tal que x é idêntico com o Deus teísta”).</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Se a conclusão 6 de Kant for verdadeira consegue-se fundamentar a premissa 2 do argumento de Kant e mostrar que a existência não é uma perfeição. Assim, o argumento ontológico tem uma premissa falsa. Mas será que Kant tem razão? Se Kant tiver razão, consegue apontar exatamente onde está o erro no argumento ontológico de Descartes (e também de Santo Anselmo). Mas há uma versão do argumento ontológico que escapa a essa a essa crítica: a versão de Leibniz.</p>\n<!-- /wp:paragraph -->",
"summary": "Kant na Crítica da Razão Pura apresentou uma objeção que permite atacar a premissa 2 (de que a existência é uma perfeição) do argumento ontológico de Descartes e também do argumento ontológico de Anselmo. Para atacar essa premissa Kant tem a seguinte estratégia argumentativa: Se a existência é uma perfeição, então a existência é uma propriedade. Mas a...",
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