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    "Sebenta"
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  "title": "Argumento dos Zombies 🧟 contra o fisicismo",
  "author": {
    "name": "Domingos Faria"
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  "content": "<!-- wp:paragraph -->\n<p>Além de Kripke, também David Chalmers, no livro&nbsp;<em>The Conscious Mind</em>&nbsp;(1996), desenvolve um argumento contra o fisicismo. Esse argumento parte de dois conceitos principais. O primeiro conceito é o de&nbsp;<em>zombies filosóficos</em>. Estes são física, comportamental e funcionalmente indistinguíveis de nós, mas não têm vida mental interior. Assim, num mundo de zombies filosóficos são exemplificados estados neurofisiológicos (como a estimulação das fibras-c) com o respetivo comportamento mas sem que os correspondentes estados fenoménicos (como a dor) ocorram. O segundo conceito importante é o de&nbsp;<em>concebilidade</em>. Alguma coisa é&nbsp;<em>concebível</em>quando é compatível com o que podemos saber&nbsp;<em>a priori</em>. Ou seja, quando não podemos descartar uma proposição com base em afirmações que são&nbsp;<em>a priori</em>. Por exemplo, é concebível que a água (o líquido incolor, inodoro, que corre nos rios e oceanos, etc) não seja feito de&nbsp;H2O, mas sim de outra molécula&nbsp;XYZ.</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Com base nesse nesses conceitos o&nbsp;<em>primeiro passo</em>&nbsp;do argumento afirma que os zombies filosóficos são concebíveis. Ou seja, não podemos descartar com base do que sabemos&nbsp;<em>a priori</em>&nbsp;que existem criaturas como nós mas sem experiências subjetivas internas. No&nbsp;<em>segundo passo</em>&nbsp;do argumento afirma-se que se os zombies são concebíveis, então são metafisicamente possíveis. Essa premissa&nbsp;<em>não diz</em>&nbsp;que&nbsp;<em>se alguma coisa é concebível, então é metafisicamente possível</em>. Pois, nesse caso, seria fácil encontrar contra-exemplos (com “necessidades&nbsp;<em>a posteriori</em>” geradas por nomes próprios e tipos naturais). Por exemplo, é concebível que Água não seja&nbsp;H2O, mas isso não é metafisicamente possível. Pelo contrário, a premissa faz referência a&nbsp;<em>zombies filosóficos</em>&nbsp;(que não envolve nomes próprios nem tipos naturais). Assim, a premissa é formulada de modo que não dá origem a qualquer “necessidade&nbsp;<em>a posteriori</em>”. Mas, então, se o termo&nbsp;<em>zombie filosófico</em>&nbsp;não gera necessidades&nbsp;<em>a posteriori</em>, mas é concebível, então pode-se concluir que é&nbsp;<em>metafisicamente possível</em>. Por fim, no&nbsp;<em>terceiro passo</em>&nbsp;salienta-se que se os zombies são metafisicamente possíveis, então o fisicismo (reducionista e não-reducionista) é falso. Isto porque o fisicismo implica que as verdades sobre os estados mentais sobrevêm das verdades sobre a microfísica. Ou seja, em todos os mundos possíveis em que os factos microfísicos são como os nossos, as criaturas que são física e funcionalmente como nós têm experiências subjetivas interiores. Assim, o fisicismo não permite a possibilidade metafísica de zombies. Ora, juntando esses três passos obtemos o seguinte argumento:</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:list {\"ordered\":true} -->\n<ol class=\"wp-block-list\"><!-- wp:list-item -->\n<li>Os zombies filosóficos são concebíveis.</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>Se os zombies filosóficos são concebíveis, então eles são metafisicamente possíveis.</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>Se os zombies filosóficos são metafisicamente possíveis, então o fisicismo é falso.</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>Logo, o fisicismo é falso.</li>\n<!-- /wp:list-item --></ol>\n<!-- /wp:list -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Será este um bom argumento? Podemos começar por questionar: são os zombies concebíveis? Algumas teorias influentes da mente implicam que os zombies são inconcebíveis, como é o caso da&nbsp;<em>teoria funcionalista</em>. Nessa teoria, os&nbsp;<em>estados mentais</em>são entendidos como relações causais entre estímulos externos ao sistema, processos no seio do sistema, e o comportamento resultante do sistema. Uma vez que os zombies iriam satisfazer todas as condições funcionais para os estados mentais (de acordo com o funcionalismo), segue-se que os&nbsp;<em>zombies filosóficos</em>&nbsp;são inconcebíveis.</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Uma outra objeção questiona se, no caso dos zombies, a concebilidade implica possibilidade. Uma vez que não temos conhecimento suficiente do mundo físico, como poderemos afirmar com segurança a possibilidade dos zombies? Pode-se fazer uma analogia com a conjetura de Goldbach (CG) que sustenta que “Qualquer número par&nbsp;&gt;2&nbsp;é a soma de dois números primos”. Se tal conjetura CG for falsa, ela não será possível (ainda que seja concebível).</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Como crítica final pode-se construir um&nbsp;<em>argumento anti-zombie</em>&nbsp;a favor do fisicalismo. Aqui estamos a entender os “anti-zombies” como seres indistinguíveis de nós que têm vida mental interna devido a fatores puramente microfísicos. Com base nisso, pode-se montar um argumento paralelo:</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:list {\"ordered\":true} -->\n<ol class=\"wp-block-list\"><!-- wp:list-item -->\n<li>Os anti-zombies filosóficos são concebíveis.</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>Se os anti-zombies filosóficos são concebíveis, então eles são metafisicamente possíveis.</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>Logo, os anti-zombies são metafisicamente possíveis.</li>\n<!-- /wp:list-item --></ol>\n<!-- /wp:list -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Ora, não se pode aceitar os dois argumentos (zombie e anti-zombie) em simultâneo. Então por que preferir um deles em vez do outro?</p>\n<!-- /wp:paragraph -->",
  "summary": "Além de Kripke, também David Chalmers, no livro&nbsp;The Conscious Mind&nbsp;(1996), desenvolve um argumento contra o fisicismo. Esse argumento parte de dois conceitos principais. O primeiro conceito é o de&nbsp;zombies filosóficos. Estes são física, comportamental e funcionalmente indistinguíveis de nós, mas não têm vida mental interior. Assim, num mundo de zombies filosóficos são exemplificados estados neurofisiológicos...",
  "createdAt": "2020-07-19T12:55:00+00:00",
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