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    "Sebenta"
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  "title": "Paradoxo da Encarnação",
  "author": {
    "name": "Domingos Faria"
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  "content": "<!-- wp:paragraph -->\n<p>O cristianismo é a religião dos paradoxos. Veja-se a encarnação:</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:list {\"ordered\":true} -->\n<ol class=\"wp-block-list\"><!-- wp:list-item -->\n<li>Tudo o que é Deus é omnipotente.</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>Nenhum humano é omnipotente.</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>Jesus é Deus e humano.</li>\n<!-- /wp:list-item --></ol>\n<!-- /wp:list -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Em lógica de predicados:</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:list {\"ordered\":true} -->\n<ol class=\"wp-block-list\"><!-- wp:list-item -->\n<li>∀x(Dx→Ox)</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>¬∃x(Hx∧Ox)</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>(Dj∧Hj)</li>\n<!-- /wp:list-item --></ol>\n<!-- /wp:list -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>E logicamente deriva-se facilmente uma contradição, tal como se pode constatar:</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:list {\"ordered\":true,\"start\":4} -->\n<ol start=\"4\" class=\"wp-block-list\"><!-- wp:list-item -->\n<li>Dj                                    [3,E∧]</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>Hj                                    [3,E∧]</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>(Dj→Oj)                           [1,E∀]</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>Oj                                    [4,6,MP]</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>∀x¬(Hx∧Ox)                   [2,CQ]</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>¬(Hj∧Oj)                         [8,E∀]</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>(¬Hj∨¬Oj)                       [9,DM]</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>¬Oj                                 [5,10,SD]</li>\n<!-- /wp:list-item -->\n\n<!-- wp:list-item -->\n<li>(Oj∧¬Oj)                         [7,11,I∧]</li>\n<!-- /wp:list-item --></ol>\n<!-- /wp:list -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Dado que temos uma contradição em 12, será que isto significa que a doutrina da encarnação é falsa e, por conseguinte, o cristianismo não pode ser verdadeiro?</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>O modelo composicional ou mereológico de Tomás de Aquino (que tem como defensores atuais Eleonore Stump e Brian Leftow) tem sido influente como resposta a este paradoxo da encarnação. Neste modelo defende-se que Jesus Cristo é uma entidade composta de propriedades divinas (possuídas pela parte divina) e propriedades humanas (possuídas pela parte humana). Ou seja, tal como não há contradição ao dizer-se p.e. que uma maça é vermelha enquanto casca e não é vermelha enquanto parte interior, também não há contradição ao dizer que enquanto natureza divina Jesus Cristo é omnipotente e enquanto natureza humana ele não é omnipotente.</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Contudo, este modelo do Tomás de Aquino é implausível por vários motivos. Em primeiro lugar, mesmo se concedermos que em Jesus Cristo a parte divina é omnipotente e a parte humana não é omnipotente, ainda surge a questão: mas afinal o sujeito de predicação, o Deus composicional encarnado, é ou não é omnipotente? E com isso o puzzle volta ao início. Em segundo lugar, de acordo com a ortodoxia, defende-se que a pessoa que é Filho de Deus é a mesma pessoa que é Filho da Virgem Maria. Mas, se seguirmos o modelo de Tomás de Aquino não se pode afirmar isso; pois, o Filho de Deus é, neste modelo composicional de Aquino, apenas uma parte do todo que é o Deus encarnado (e, dessa forma, parece facilmente cair em nestorianismo). Em suma, o modelo de Tomás de Aquino não consegue explicar que o Filho de Deus é a mesma pessoa que o Filho da Virgem Maria, mas não a mesma substância. Mas, consegue-se uma boa explicação disso, não com o modelo composicional de Aquino, mas sim com a lógica da identidade relativa de Peter Geach e de Peter van Inwagen. O problema nesse caso é que se fica sem a Lei de Leibniz. Nenhuma solução é isenta de custos.</p>\n<!-- /wp:paragraph -->",
  "summary": "O cristianismo é a religião dos paradoxos. Veja-se a encarnação: Tudo o que é Deus é omnipotente. Nenhum humano é omnipotente. Jesus é Deus e humano. Em lógica de predicados: ∀x(Dx→Ox) ¬∃x(Hx∧Ox) (Dj∧Hj) E logicamente deriva-se facilmente uma contradição, tal como se pode constatar: Dj                                    [3,E∧] Hj                                    [3,E∧] (Dj→Oj)                    [1,E∀] Oj                                    [4,6,MP] ∀x¬(Hx∧Ox)                   [2,CQ] ¬(Hj∧Oj)                    [8,E∀] (¬Hj∨¬Oj)                    [9,DM] ¬Oj                                 [5,10,SD]...",
  "createdAt": "2021-02-27T11:39:00+00:00",
  "updatedAt": "2025-07-25T11:43:00+00:00"
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