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    "Sebenta"
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  "title": "Conceção epistemológica de analiticidade",
  "author": {
    "name": "Domingos Faria"
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  "content": "<!-- wp:paragraph -->\n<p>O quarto capítulo do livro&nbsp;<em>The Philosophy of Philosophy</em>&nbsp;de Tim Williamson é dedicado à conceção epistemológica de analiticidade. A principal questão que Williamson trata nesta parte é a seguinte: o que está epistemicamente disponível simplesmente com base da competência linguística e conceptual? Por outras palavras, o que podemos epistemicamente&nbsp;<em>assentir</em>&nbsp;simplesmente com base do&nbsp;<em>entendimento</em>&nbsp;e da&nbsp;<em>apreensão</em>? A resposta de Williamson é direta: Nada! Isto porque a ligação entendimento-assentimento falha. Assim, o seu principal objetivo é mostrar que essas ligações falham (mesmo para casos paradigmáticos de analiticidade).</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>O que significa dizer que uma frase é analítica no sentido epistemológico? De forma rigorosa, a noção epistemológica de analiticidade definida para frases pode ser apresentada desta forma:</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:quote -->\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><!-- wp:paragraph -->\n<p>Uma frase&nbsp;F&nbsp;é analítica se, e só se, necessariamente, quem quer que seja que entenda&nbsp;F&nbsp;assente&nbsp;F.</p>\n<!-- /wp:paragraph --></blockquote>\n<!-- /wp:quote -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Por exemplo, se a frase “Toda a raposa é uma raposa” é analítica neste sentido, então há uma ligação entendimento-assentimento da seguinte forma:</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:quote -->\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><!-- wp:paragraph -->\n<p>(UA) Necessariamente, quem quer que seja que entenda a frase “Toda a raposa é uma raposa” assente essa frase.</p>\n<!-- /wp:paragraph --></blockquote>\n<!-- /wp:quote -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Contudo, se um agente A falha a assentir essa frase, então A falha a entendê-la. Ou seja, a falha de assentimento da frase é constitutivo da falha de entendimento de toda essa frase. Mas o que significa&nbsp;<em>entender</em>&nbsp;uma frase? De forma simples, consiste em ser linguisticamente competente; em perceber os constituintes de uma frase e a sua sintaxe, etc. E o que significa&nbsp;<em>assentir</em>&nbsp;a uma frase? Num contexto em que a frase&nbsp;F&nbsp;expressa a proposição&nbsp;p, assentir a&nbsp;F, para alguém que a entende, é algo como acreditar&nbsp;p&nbsp;sob a aparência de&nbsp;F. Por exemplo, assentir a frase “A relva é verde,” para alguém que a entenda, é algo como acreditar que a relva é verde sobre a aparência dessa frase.</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Esta ligação entendimento-assentimento tem aplicações, por exemplo, na lógica dado que podemos generalizar essa ligação para argumentos e regras de inferência. Além disso, seguindo Paul Boghossian, tal ligação entendimento-assentimento dá origem ao seguinte projeto natural da filosofia: tentar explicar a “metodologia de poltrona” da filosofia como baseada em algo como a ligação entendimento-assentimento. Ou seja, a nossa pura competência linguística e conceptual ordena o assentimento em algumas frases e inferências que formam o ponto de partida para a investigação filosófica.</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Será isto plausível? Tim Williamson argumenta que não, que esse projeto falha e que há contraexemplos para (UA). O seu argumento contra a ligação entendimento-assentimento começa com uma verdade lógica elementar:</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:list {\"ordered\":true} -->\n<ol class=\"wp-block-list\"><!-- wp:list-item -->\n<li>Toda a raposa é uma raposa. [∀x(Rx→Rx)]</li>\n<!-- /wp:list-item --></ol>\n<!-- /wp:list -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Suponha-se que um dado sujeito, Pedro, está convencido que (1) tem&nbsp;<em>importação existencial</em>. Assim, (1) é verdadeira só se existe ou existiu uma raposa. Assim, (1) implica logicamente:</p>\n<!-- /wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:list {\"ordered\":true,\"start\":2} -->\n<ol start=\"2\" class=\"wp-block-list\"><!-- wp:list-item -->\n<li>Há pelo menos uma raposa. [∃xRx]</li>\n<!-- /wp:list-item --></ol>\n<!-- /wp:list -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Além disso, devido a teorias da conspiração, o Pedro forma a crença bizarra que nunca existiu qualquer raposa. Desta forma, o Pedro tem a crença que (2) é falsa. Ora, uma vez que ele nega (2) e a considera como uma consequência lógica de (1), ele também nega (1) e, por isso, não assente (1). Contudo, o Pedro entende (1), sendo linguisticamente competente. Afinal, ele não tem perspetivas semânticas incorretas sobre “raposas,” apenas tem algumas perspetivas não-semânticas bastante invulgares sobre raposas. Deste modo, temos um contraexemplo que falsifica (UA). Para aprofundar este e outros argumentos sobre a conceção epistemológica de analiticidade, pode ver&nbsp;<a href=\"http://doc.domingosfaria.net/handout4.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">aqui</a>&nbsp;um handout que escrevi com algumas ideias.</p>\n<!-- /wp:paragraph -->",
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  "createdAt": "2021-05-14T12:41:00+00:00",
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