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  "textContent": "Casas com dezenas de animais nem sempre contam apenas uma história de afeto. Em muitos casos, revelam uma mistura mais difícil de enxergar: solidão, luto, sofrimento psíquico, falta de dinheiro para cuidados veterinários e risco sanitário. Essa é uma das principais conclusões da pesquisa desenvolvida pela médica veterinária Glória Ferreira Duailibi, no Mestrado em Saúde da Família da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul).  O estudo investigou pessoas em situação de acumulação de animais em Campo Grande e mostrou que o problema não pode ser reduzido à quantidade de cães ou gatos dentro de casa. A questão central é quando a pessoa deixa de conseguir garantir condições adequadas de higiene, alimentação, espaço e assistência veterinária, mesmo acreditando estar protegendo os bichos.  Glória conta que o interesse pelo tema surgiu durante a Residência Multiprofissional em Saúde Coletiva, quando teve contato direto com casos de acumulação de animais. A experiência em unidades de saúde também mostrou a importância do trabalho feito no território, especialmente por equipes que acompanham as famílias ao longo do tempo.  “Essa experiência me fez perceber como esses casos são complexos e necessitam de um trabalho multiprofissional”, afirma a pesquisadora.  A pesquisa ouviu pessoas cadastradas como protetores independentes pela Subea (Subsecretaria de Bem-Estar Animal) de Campo Grande. O perfil encontrado foi majoritariamente feminino, com 80% de mulheres, média de 57 anos e relatos frequentes de vínculos familiares fragilizados ou moradia solitária. Ainda assim, o estudo alerta que a acumulação não se limita a um único grupo social.  As entrevistas foram feitas nas casas dos participantes, o que permitiu observar o ambiente, as condições de moradia e a relação entre moradores e animais. Segundo Glória, em alguns relatos, o acolhimento de cães e gatos ganhou força depois da morte de familiares. Em outros, os animais surgiram como companhia em períodos de depressão ou isolamento.    Um dos pontos mais fortes do estudo é a pressão externa sofrida por essas pessoas. Participantes relataram que vizinhos e conhecidos deixam animais em suas casas porque sabem que elas costumam acolher. Em alguns casos, a situação vem acompanhada de chantagem emocional.  “Os entrevistados relataram vivenciar discursos coercitivos, como ‘ou você fica com esse animal, ou vou largar ele na rua pra morrer’”, relata Glória.  Para a pesquisadora, esse tipo de atitude transfere a responsabilidade pelo abandono para pessoas que já vivem situação de sobrecarga emocional. Na prática, quem diz estar “ajudando” pode estar apenas empurrando o problema para dentro da casa de alguém mais vulnerável.  A tese também mostra que a acumulação de animais deve ser tratada como tema de saúde pública. O estudo identificou conhecimento limitado dos participantes sobre zoonoses, doenças que podem ser transmitidas entre animais e seres humanos. Havia maior familiaridade com problemas mais visíveis, como sarna, mas pouco conhecimento sobre doenças presentes em Campo Grande, como leishmaniose visceral e esporotricose.  Durante as visitas, Glória não fez avaliação clínica sistemática dos animais. Mesmo assim, observou que, em geral, eles não apresentavam sinais evidentes de doenças graves ou risco imediato. O dado, porém, não elimina a preocupação. Com muitos animais e pouco recurso, problemas de saúde podem passar despercebidos ou não receber tratamento adequado.  Nas unidades de saúde da família, os casos mais comuns relacionados a animais envolvem mordidas e arranhões de cães e gatos, situações que exigem avaliação sobre risco de raiva. Mas a pesquisa também chama atenção para sintomas que podem estar ligados a doenças mais graves, como leishmaniose visceral e leptospirose.  Por isso, a APS (Atenção Primária à Saúde) aparece como peça importante no enfrentamento do problema. Como está mais próxima das famílias, ela pode identificar sinais de vulnerabilidade antes que a situação piore. Nesse ponto, os ACSs (Agentes Comunitários de Saúde) têm papel estratégico, porque conhecem os moradores, visitam as casas e conseguem perceber mudanças no ambiente.  O estudo aponta que os participantes não relataram grandes barreiras para procurar as unidades de saúde. Pelo contrário, houve relatos positivos sobre acolhimento e vínculo com os profissionais. O obstáculo maior está na resistência ao cuidado psicológico e na falta de dinheiro para consultas, exames e tratamentos veterinários.  “A resistência ao acompanhamento psicológico está associada ao medo de reviver traumas, ao estigma e à dificuldade de reconhecer a necessidade de cuidado. Já no campo veterinário, os custos com consultas, exames e tratamentos representam a principal barreira, especialmente diante do grande número de animais”, explica Glória.  A pesquisa defende que o atendimento a esses casos não pode depender de uma única área. A resposta precisa envolver saúde, assistência social, saúde mental e proteção animal. Também exige capacitação das equipes, campanhas contra abandono, castração, educação para guarda responsável e ampliação da assistência veterinária pública.  A dissertação foi apresentada no 14º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, o Abrascão, em Brasília. Além do trabalho acadêmico, Glória produziu um vídeo para informar a população sobre a acumulação de animais.  No fim, a tese deixa um recado incômodo, mas necessário: uma casa cheia de animais pode parecer apenas sinal de dedicação. Mas, sem estrutura e apoio, também pode revelar uma pessoa adoecida, animais em risco e um problema que o poder público não resolve só com recolhimento ou bronca.",
  "title": "Por trás de casas cheias de animais, tese revela solidão e risco à saúde"
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