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"textContent": "\nO lixo produzido por milhões de pessoas todos os dias pode parecer o último lugar onde se esperaria encontrar um aliado da Seleção Brasileira na Copa do Mundo. Mas é justamente em um aterro sanitário em Seropédica, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, que nasce parte da estratégia da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) para compensar as emissões de gases de efeito estufa das campanhas das equipes masculina e feminina. Com a iniciativa, a CBF pretende tornar o Brasil a primeira seleção nacional do mundo a neutralizar suas emissões de carbono durante uma Copa do Mundo. Os créditos de carbono utilizados pela CBF têm origem no Centro de Tratamento de Resíduos (CTR-Rio), na Baixada Fluminense, operado pela Regenera Rio, empresa da Aegea. O empreendimento recebe diariamente cerca de 10 mil toneladas de resíduos de sete municípios fluminenses: Rio de Janeiro, Seropédica, Itaguaí, Mangaratiba, Piraí, Miguel Pereira e Paty do Alferes. A iniciativa integra o projeto Seleção Carbono Neutra, criado pela CBF para compensar as emissões de gases de efeito estufa que não podem ser evitadas durante a competição. O inventário considera toda a operação da delegação, incluindo voos, deslocamentos terrestres, hospedagem, alimentação e geração de resíduos. Segundo a CBF, cerca de 72% das emissões da campanha estão associadas ao transporte da delegação, seguido por hospedagem (16%), alimentação (9%) e geração de resíduos (3%). Essa estimativa serve de base para calcular, antes de cada partida, a quantidade de créditos de carbono necessária para neutralizar a pegada da equipe. Mas o que um aterro sanitário tem a ver com futebol? Unidade de produção de biogás no CTR em Seropédica. Divulgação A resposta está no metano, gás liberado pela decomposição da matéria orgânica presente no lixo. Seu potencial de aquecimento global é cerca de 28 vezes maior que o do dióxido de carbono (CO₂). Em vez de deixar esse gás escapar para a atmosfera, o CTR-Rio o captura por uma rede com mais de 31 quilômetros de tubulações e o transforma em energia, biometano e créditos de carbono certificados. \"O nosso lixo gera gás. Quando ele se decompõe, produz biogás e chorume. O biogás contém metano, que é um gás de efeito estufa muito mais potente que o CO₂. Nós captamos esse gás, evitamos que ele seja lançado na atmosfera e o transformamos em energia e biometano. É isso que gera os créditos de carbono\", explica ao Um Só Planeta Alexandre Citvaras, diretor de Novos Negócios da Regenera Rio. Atualmente, o CTR captura cerca de 25 mil metros cúbicos de biogás por hora. Desse volume, aproximadamente 54% é metano. O potencial energético equivale a cerca de 50 megawatts, suficientes para abastecer aproximadamente 350 mil residências, ou uma população estimada em 1,2 milhão de habitantes. Segundo Citvaras, trata-se da maior operação brasileira tanto em captação de biogás quanto em produção de biometano. Como o lixo vira crédito de carbono Cada crédito de carbono representa uma tonelada de dióxido de carbono equivalente (CO₂e) que deixou de ser emitida para a atmosfera. Nos aterros sanitários, o cálculo parte do volume de metano efetivamente capturado e destruído ou aproveitado para geração de energia e produção de biometano. Como esse gás deixa de ser liberado na atmosfera, a redução das emissões é convertida em créditos certificados por metodologias reconhecidas internacionalmente. \"Quando a Seleção pega um avião para disputar uma partida, esse voo gera emissões. O mesmo acontece com o transporte terrestre, a hospedagem e outras atividades da delegação. A empresa responsável calcula toda essa pegada e utiliza nossos créditos para compensar aquilo que não pôde ser evitado\", afirma Citvaras. A iniciativa também conta com outros parceiros. O Instituto Climático VBH é responsável por calcular as emissões de gases de efeito estufa antes e depois de cada partida, elaborar o inventário final da campanha e definir a quantidade de créditos necessária para compensar as emissões que não puderam ser evitadas. Já a Caixa Econômica Federal atua na comercialização e negociação desses créditos e nas tratativas com a empresa contratada pela CBF para a mitigação das emissões da seleção na Copa do Mundo. A compensação já começou. Antes mesmo da Copa, a CBF utilizou créditos do projeto de Seropédica para neutralizar as emissões do amistoso contra o Egito, quando foram estimadas 168 toneladas de CO₂ equivalente (tCO₂e) e compensadas 273 tCO₂e. Na fase de grupos do Mundial, as emissões projetadas foram de 19 tCO₂e contra o Marrocos, com neutralização de 57 tCO₂e, e de 22 tCO₂e diante do Haiti, compensadas com 36 tCO₂e em créditos de carbono. Para a partida contra a Escócia, a estimativa foi de 61 tCO₂e, com previsão de neutralização de 80 tCO₂e. Segundo a CBF, o inventário definitivo é realizado após cada jogo e serve de base para a compensação final da campanha. Desde que entrou em operação, há mais de 15 anos, o projeto de Seropédica já gerou mais de 4 milhões de créditos de carbono. Eles abastecem o mercado voluntário e vêm sendo utilizados por empresas, bancos e grandes eventos. A COP30, por exemplo, também teve parte de suas emissões compensadas com créditos gerados no aterro. Caso a Seleção Brasileira dispute a Copa de 2026 até a final, a estimativa é que sejam necessários cerca de 1.000 créditos de carbono para compensar a campanha completa. Segundo a Regenera Rio, isso corresponde ao potencial de captura de metano associado à disposição de aproximadamente 5 mil toneladas de resíduos — metade do volume que chega ao CTR em um único dia. Muito além do antigo lixão CTR em Seropédica. Divulgação O CTR-Rio substituiu o antigo lixão de Gramacho e hoje opera como um complexo de engenharia ambiental. Além da captação de biogás, conta com sistemas de drenagem de chorume, impermeabilização do solo e monitoramento contínuo para reduzir impactos ambientais. Para Citvaras, ainda existe um grande desconhecimento sobre o que acontece com o lixo depois da coleta. \"As pessoas imaginam um lixão, com urubus, mau cheiro e resíduos espalhados. Quando visitam o CTR, descobrem uma obra de engenharia de alta complexidade. O aterro sanitário é muito diferente do lixão.\" O executivo afirma que o potencial climático dos resíduos ainda é pouco explorado no Brasil. À medida que o aterro cresce, aumenta também a produção de biogás, ampliando a capacidade de gerar energia, biometano e créditos de carbono. Em um país que ainda convive com lixões, Citvaras acredita que o maior legado da iniciativa é colocar a gestão de resíduos no centro da conversa sobre mudanças climáticas. \"O futebol dá visibilidade a um tema que normalmente não chega ao grande público. Essa parceria ajuda a mostrar que o resíduo também pode fazer parte da solução climática.\" Calor como adversário no campo A discussão sobre a pegada de carbono da Copa ocorre em um momento em que o próprio torneio vem sendo desafiado pelo calor extremo. Desde o início da competição, a FIFA adotou pausas obrigatórias para hidratação em todas as partidas, ampliou a oferta de água e áreas de resfriamento para torcedores e conta com estádios climatizados em parte das sedes, como Atlanta, Dallas e Houston. Análises divulgadas antes do Mundial indicavam que entre um quarto e um terço dos jogos poderiam ocorrer sob calor intenso, com risco de afetar o desempenho dos atletas e a saúde de jogadores e torcedores. Nesta semana, uma intensa \"cúpula de calor\" (heat dome, em inglês) se estabeleceu sobre o centro e o leste dos Estados Unidos, elevando a sensação térmica para até 46°C em algumas regiões. A onda de calor atinge parte das cidades que recebem os jogos do mata-mata e levou especialistas a reforçar os alertas para jogadores e torcedores. A previsão é que o fenômeno também influencie as condições da partida entre Brasil e Noruega, no domingo (5). Em campo, a disputa será pelo placar. Fora dele, a partida é contra um clima que já muda as regras do jogo de como todos nós habitamos a Terra. E o lixo pode ser um aliado. Mais Lidas",
"title": "Golaço climático: aterro do Rio gera créditos para compensar emissões da Seleção na Copa e mostra como lixo pode ser aliado da descarbonização"
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