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"textContent": "\nTemperaturas acima de 40°C, alertas vermelhos, escolas fechadas, risco de incêndios florestais e milhares de mortes acima do esperado para o período. A onda de calor que atingiu a Europa desde meados de junho produziu impactos que vão muito além do desconforto térmico provocado pelas altas temperaturas. O saldo de efeitos negativos até agora expõe a vulnerabilidade de cidades, serviços públicos e da população a um clima cada vez mais extremo. Pesquisas da rede científica World Weather Attribution mostram que ondas de calor como essa se tornaram muito mais prováveis e intensas em razão do aquecimento global provocado pelas emissões de gases de efeito estufa, associada principalmente à queima massiva de combustíveis fósseis. À medida que a temperatura média do planeta sobe, recordes históricos de calor passam a ser quebrados com maior frequência. Ao contrário de enchentes ou furacões, porém, as ondas de calor raramente deixam imagens de destruição imediata no imaginário social. Grande parte das vítimas morre dias depois, em decorrência do agravamento de doenças cardiovasculares, respiratórias e renais. Por isso, cada vez mais o calor extremo é considerado um dos desastres climáticos mais letais e, ao mesmo tempo, um dos mais subestimados. \"O calor é invisível. Você não o vê. As pessoas sofrem dentro de apartamentos, edifícios ou no trabalho. Quando alguém morre durante uma onda de calor, geralmente não há um sinal evidente da causa. É preciso um verdadeiro trabalho de investigação para entender o que aconteceu\", afirmou o pesquisador Jeff Goodell durante um encontro com a imprensa promovido pela plataforma Covering Climate Now nesta semana. Os números ligados à onda de calor na Europa mostram a faceta cruel desse fenômeno. Mais de 1.300 mortes acima do esperado A Organização Meteorológica Mundial (OMM) estima que mais de \"1.300 mortes em excesso\" já foram registradas desde 21 de junho em decorrência do calor extremo. O número, ainda preliminar, é calculado por meio da comparação entre o total de óbitos esperado para o período e o efetivamente registrado, método conhecido como excesso de mortalidade. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o calor é um dos desastres naturais que mais mata no mundo, principalmente entre idosos, pessoas com doenças crônicas e trabalhadores expostos ao ar livre. Mais de 150 milhões de pessoas sob alerta De acordo com a OMM, mais de 150 milhões de pessoas foram afetadas pelas altas temperaturas em diferentes partes da Europa até agora. Em vários países, autoridades emitiram alertas vermelhos, restringiram atividades ao ar livre, reforçaram recomendações para hidratação e abriram centros de resfriamento para atender a população mais vulnerável. Até 46°C Portugal e Espanha registraram temperaturas próximas de 46°C, enquanto cidades da França, Itália, Grécia, Croácia e dos Bálcãs ultrapassaram os 40°C por vários dias consecutivos. Em algumas regiões, as máximas ficaram até 18°C acima da média climatológica para esta época do ano. Mais ao norte, o calor também bateu recordes: a Inglaterra registrou o junho mais quente da série histórica, segundo o Met Office, com temperatura média de 16,9°C, enquanto os termômetros ultrapassaram 34°C em partes do país. Homem sua sob calor intenso enquanto turistas usam guarda-chuva para se proteger do sol na região do Trocadéro, em frente à Torre Eiffel, durante onda de calor na França, em junho de 2026. Jerome Gilles/NurPhoto via Getty Images Mais de 2 mil escolas fechadas na França O governo francês suspendeu as aulas em 2.213 escolas devido às temperaturas elevadas. Muitos edifícios escolares foram construídos para reter calor durante o inverno e não possuem isolamento térmico adequado nem sistemas de ar-condicionado, o que tornou inviável manter estudantes e professores em segurança durante o pico da onda de calor. Mais de mil mortes registradas na França Dados da agência Santé Publique France apontam cerca de 1.000 mortes em excesso relacionadas ao calor apenas entre o fim de junho e o início de julho. Aproximadamente 85% das vítimas tinham mais de 65 anos, reforçando o impacto desproporcional das altas temperaturas sobre a população idosa. Mais de mil mortes também na Espanha Na Espanha, o Ministério da Saúde informou que 1.029 pessoas morreram em consequência do calor extremo apenas durante o mês de junho. O período foi o segundo junho mais quente desde o início das medições meteorológicas no país e coincidiu com uma sucessão de dias acima dos 40°C em diversas regiões. Infraestrutura despreparada; menos de 20% dos domicílios europeus têm ar-condicionado Grande parte das casas, escolas, hospitais e sistemas de transporte da Europa foi projetada para um clima mais frio. Segundo a IEA, menos de 20% das residências do continente contam com ar-condicionado — no Reino Unido, o índice é de apenas 5%. Essa realidade ajuda a explicar por que temperaturas que já se tornaram relativamente comuns em um planeta mais quente continuam causando tantos impactos sobre a população e a infraestrutura. O calor extremo provocou interrupções em diferentes sistemas de transporte. No Reino Unido e na Alemanha, operadoras reduziram a velocidade dos trens por risco de deformação dos trilhos. Em algumas cidades, o asfalto cedeu sob as altas temperaturas, enquanto aeroportos e serviços ferroviários registraram atrasos e cancelamentos. Bombeiros da Brigada de Incêndio de Paris escoltam uma pessoa para fora do Museu do Louvre durante a intensa onda de calor, em 25 de junho de 2026, em Paris, na França Getty Images Energia sob pressão As altas temperaturas elevaram o consumo de eletricidade devido ao uso intensivo de sistemas de refrigeração, ao mesmo tempo em que reduziram a capacidade de geração de algumas usinas. Na França, um reator nuclear foi desligado e outros reduziram sua produção porque a água dos rios utilizada para resfriamento estava quente demais para cumprir os limites ambientais. Situação semelhante foi registrada na Hungria. Agricultura sob estresse O calor acelerou a evaporação da água do solo e aumentou o estresse hídrico em culturas agrícolas. Em regiões da Itália, Espanha e França, produtores relataram perdas em lavouras, redução da produtividade e dificuldades para irrigação. A pecuária também foi afetada, já que temperaturas extremas reduzem o bem-estar animal e comprometem a produção de leite. A Europa aquece duas vezes mais rápido A Europa é o continente que mais aquece no planeta, com uma taxa cerca de duas vezes superior à média global, segundo a OMM e o Serviço Copernicus para Mudanças Climáticas. Entre as explicações está a amplificação do aquecimento no Ártico, que influencia a circulação atmosférica sobre o continente, além de fatores geográficos e oceânicos. Como consequência, ondas de calor estão se tornando mais frequentes, intensas e persistentes. Mais Lidas",
"title": "Era de extremos: os números da onda de calor que sufoca a Europa"
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