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  "textContent": "\nA crise da água deixou de ser um problema restrito às regiões tradicionalmente secas ou aos períodos de estiagem. Hoje, ela conecta clima, alimentos, energia, saúde, cidades, tecnologia, biodiversidade e economia. O calor extremo que pressiona rios e sistemas elétricos na Europa, a irregularidade das monções que afeta cidades e lavouras na Índia, a expansão da seca no Brasil e o avanço acelerado de data centers ligados à inteligência artificial parecem fatos distantes entre si. Mas não são. Todos apontam para um mesmo cenário: mais pressão sobre a água, maior competição entre usos e menos espaço para improvisos. É disso que estamos falando quando usamos a expressão risco hídrico sistêmico. Uma onda de calor não traz apenas desconforto ou temperaturas recordes. Ela aumenta o consumo de água e energia, reduz vazões, aquece rios e reservatórios, compromete o resfriamento de usinas e indústrias, agrava problemas de saúde e diminui a produtividade agrícola. Na Índia, quando as chuvas de monção atrasam ou se tornam irregulares como o que está ocorrendo agora, o impacto aparece simultaneamente no abastecimento urbano, no calendário de plantio, na produção de alimentos, na geração hidrelétrica e na recarga dos aquíferos. Cidades e agricultores passam a bombear mais água subterrânea, criando uma sensação provisória de segurança, enquanto reduzem silenciosamente a reserva disponível para o futuro. No Brasil, o alerta está diante de nós. O Monitor de Secas da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), mostrou que a área atingida pelo fenômeno passou de 3,43 milhões para 4,21 milhões de quilômetros quadrados em maio de 2026, alcançando metade do território nacional. Isso não é apenas uma estatística ambiental. A seca repercute na irrigação, na geração de energia, na navegação, no saneamento, no combate a incêndios, nos preços dos alimentos e na disponibilidade de água para as cidades. A sequência é conhecida: menos água, menor produção, custos mais altos, pressão sobre a renda das famílias, aumento dos gastos emergenciais e menos capacidade de investir em prevenção. Uma crise que começa nas águas de um rio pode terminar no supermercado, na conta de luz, no hospital ou no orçamento de uma prefeitura. Digo isso também a partir de uma experiência que vivi intensamente. Entre 2014 e 2015, a Região Metropolitana de São Paulo enfrentou a maior seca de sua história chegando perigosamente muito perto do colapso. Naquele período, ajudei a criar a Aliança pela Água, articulação que reuniu dezenas de organizações da sociedade civil, especialistas e cidadãos para enfrentar a emergência hídrica e cobrar respostas mais transparentes e estruturadas por parte do poder público. Trabalhamos em diferentes frentes: defendendo a elaboração de um Plano de Contingência pelo Governo do Estado, contribuímos com ações de mobilização para redução do consumo e colocamos no centro do debate a necessidade de proteger e recuperar os mananciais por meio de soluções baseadas na natureza. A crise, porém, não foi vivida da mesma maneira por todos. A redução da pressão da rede durante a noite fez com que a água demorasse muito mais para chegar às regiões mais altas e periféricas. Enquanto parte da cidade ainda conseguia manter alguma regularidade no abastecimento, milhares de famílias enfrentavam interrupções prolongadas. Em áreas de Guarulhos, por exemplo, havia moradores que chegavam a ficar mais de cinco dias sem água. Essa experiência deixou uma lição que não pode ser esquecida, em que toda crise geralmente também é uma crise de desigualdade. O impacto recai primeiro, e com maior intensidade, sobre quem já vive com infraestrutura precária, baixa renda e menor capacidade de se proteger. Naquele momento, também apoiei a criação do Programa Nascentes, do Governo do Estado de São Paulo, voltado à recuperação de áreas prioritárias, inclusive aquelas com maior contribuição para a produção de água. A iniciativa ajudou a reforçar uma ideia que sigo defendendo: mananciais, florestas, solos, áreas úmidas e zonas de recarga não são elementos acessórios da política hídrica. São parte da infraestrutura que sustenta bacias hidrográficas com os seus reservatórios, sistemas de abastecimento, atividades econômicas e cidades. Recuperar uma nascente ou uma mata ciliar não substitui obras, redes de distribuição ou saneamento, mas reduz erosão, melhora a infiltração, protege a qualidade da água e aumenta a resiliência dos sistemas convencionais. O desafio atual é ainda mais complexo porque não estamos caminhando simplesmente para um mundo mais seco. O ciclo da água está mais intenso, irregular e difícil de prever. Uma mesma região pode atravessar meses de estiagem e, pouco depois, enfrentar chuvas concentradas e inundações. Solos degradados e ressecados absorvem menos água. E quando chegam as tempestades, a chuva escorre rapidamente, carrega terra, sedimentos, fertilizantes e resíduos e transforma córregos e rios em corredores de destruição. Falta água no período seco e sobra água, de forma descontrolada, no período chuvoso. Um novo fator nesse processo chama a atenção, que é a economia digital adicionando uma nova camada a esse problema. Data centers associados à inteligência artificial demandam energia, muita água, terra e sistemas de resfriamento. A questão não é apenas quanto consomem globalmente, mas onde são instalados. Uma grande estrutura localizada em uma bacia já pressionada pode disputar água com o abastecimento público, a agricultura e os ecossistemas. Eficiência tecnológica, sozinha, não responde às perguntas mais importantes, ou seja, quem assume o impacto, em qual território, durante qual época do ano e com quais contrapartidas sociais e ambientais? Será preciso discutir localização, outorga, reuso, transparência, compensação e benefício líquido para a bacia. Apesar da gravidade do cenário, o Brasil tem condições concretas de reduzir e manejar esses riscos. O primeiro passo é fortalecer a governança e os Comitês de Bacias Hidrográficas. A água não respeita limites municipais nem divisões administrativas. Sua gestão exige coordenação entre governos, comitês de bacia, empresas, agricultores, operadores de saneamento, universidades, organizações sociais e comunidades. Governança, nesse caso, não significa criar mais reuniões ou estruturas burocráticas. Significa estabelecer prioridades, responsabilidades, regras, indicadores, fontes de financiamento e mecanismos de transparência antes que o conflito se transforme em emergência. Também precisamos ampliar as soluções baseadas na natureza e conectá-las à inclusão produtiva. Recuperar nascentes, matas ciliares, áreas úmidas, solos e zonas de recarga pode gerar água, reduzir riscos e, ao mesmo tempo, movimentar economias locais. Agropecuária regenerativa e de menor impacto, pagamento por serviços ambientais, turismo de natureza, bioeconomia, a cadeia produtiva da restauração florestal, assistência técnica e manejo sustentável do solo podem criar oportunidades para agricultores familiares, povos indígenas, comunidades tradicionais e pequenos empreendedores. Há ainda uma agenda básica que não pode ser adiada, que é reduzir perdas nos sistemas de abastecimento, ampliar o reuso, melhorar o saneamento urbano e rural, monitorar aquíferos e estabelecer critérios claros para atividades intensivas em água. Em vez de gastar continuamente com respostas emergenciais, precisamos investir em prevenção, gestão de dados com qualidade, ciência, capacidade institucional e participação social. O risco é global, mas a resposta acontece nas bacias, nos municípios, nas propriedades rurais, nas periferias e nos mananciais. O Brasil já dispõe de conhecimento técnico, instituições, comitês de bacia, experiências de restauração e programas de pagamento por serviços ambientais. O que ainda falta é integrar essas iniciativas em uma estratégia de longo prazo, com continuidade política, financiamento e metas mensuráveis. A diferença entre uma crise administrável e um colapso recorrente dependerá menos de novos diagnósticos e mais da nossa capacidade de agir antes que os reservatórios esvaziem e as bacias hidrográficas se degradem. Tratar rios, aquíferos, solos e florestas como infraestrutura essencial não é romantismo. É uma decisão econômica, social e estratégica. Mais Lidas",
  "title": "Risco hídrico global em alta: o que está em jogo para o Brasil e por que devemos agir agora"
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