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"textContent": "\nO reconhecimento do Lagamar como Área Importante para Tubarões e Raias (ISRA) representa mais do que uma conquista para a conservação marinha brasileira. Ele confirma algo que pesquisadores, pescadores artesanais e instituições de conservação vêm demonstrando há décadas: determinadas áreas costeiras desempenham um papel essencial para a sobrevivência de espécies ameaçadas e precisam ser compreendidas antes que possam ser efetivamente protegidas. Localizado entre o litoral do Paraná e o sul de São Paulo, o Lagamar abriga um dos maiores e mais conservados sistemas estuarinos do Atlântico Sul. Ali, a interação entre rios, manguezais, baías e o oceano cria condições ideais para a reprodução, alimentação e crescimento de diversas espécies de tubarões e raias. Mais do que celebrar um reconhecimento internacional, vale refletir sobre o que ele representa. O caso do Lagamar mostra que a conservação não começa quando uma área recebe um título. Ela começa muito antes, com anos de pesquisa, monitoramento e produção de conhecimento científico. Apesar de ainda ser pouco associado à presença de tubarões e raias, o Lagamar desempenha um papel fundamental para a sobrevivência desses animais. A região abriga um mosaico de estuários, baías, ilhas e desembocaduras de rios que formam um ambiente altamente produtivo, criando condições ideais para alimentação, crescimento e reprodução de diversas espécies. As fêmeas utilizam essas áreas para dar à luz, enquanto os filhotes encontram abrigo e alimento durante uma das fases mais vulneráveis de seus ciclos de vida. Não por acaso, pesquisadores descrevem o Lagamar como um verdadeiro berçário natural para tubarões e raias. O Lagamar abrange áreas do litoral de São Paulo e Paraná. É considerado um dos maiores e mais bem conservados sistemas costeiros do Atlântico Sul. Laura Krama/ LAGEAMB-UFPR Estudos já identificaram 40 espécies de tubarões e quase 75 espécies de raias que utilizam a região em momentos críticos de suas vidas, reforçando sua importância para a conservação da biodiversidade marinha no Atlântico Sul. Parte desse conhecimento foi construído em parceria com pescadores artesanais. Há mais de uma década, pesquisadores trabalham junto às comunidades pesqueiras para identificar espécies, registrar ocorrências e compreender como os elasmobrânquios, grupo que reúne tubarões e raias, utilizam o litoral paranaense. O conhecimento acumulado por gerações de pescadores tem sido fundamental para ampliar a compreensão científica sobre a dinâmica dessas espécies na região. Esse avanço científico não aconteceu de forma repentina. Ele é resultado de anos de observação, monitoramento de desembarques pesqueiros, registros de filhotes e fêmeas grávidas, análises populacionais e pesquisas de campo. Mais do que confirmar a relevância da região, esse processo demonstra o valor dos monitoramentos de longo prazo para a conservação marinha. Como explica Patrícia Charvet, coordenadora regional para a América do Sul do Grupo de Especialistas em Tubarões da IUCN, as ISRAs são definidas a partir de critérios rigorosamente científicos, que consideram aspectos como dados biológicos, padrões migratórios e áreas-chave de alimentação, descanso e reprodução. Embora esse status não imponha obrigações legais aos governos, ele fornece informações qualificadas que podem subsidiar decisões futuras relacionadas à criação de unidades de conservação e outras estratégias de proteção. No caso do Lagamar, o conjunto de evidências científicas confirmou o que pesquisadores observavam há décadas, a região é estratégica para a manutenção da biodiversidade marinha do Atlântico Sul. A urgência dessa discussão se torna ainda mais evidente diante do cenário global enfrentado por tubarões e raias. Atualmente, mais de um terço dessas espécies encontra-se ameaçado de extinção. Em diversas regiões, populações vêm sofrendo reduções significativas, incluindo espécies de grande porte que antes eram comuns na costa brasileira. O declínio do cação-rola-rola é um exemplo desse processo. Além da redução no número de indivíduos, indivíduos de maior porte praticamente desapareceram de algumas populações, um indicativo das pressões enfrentadas pela espécie. Situação semelhante é observada com o tubarão-mangona, cuja ocorrência se tornou cada vez mais rara ao longo das últimas décadas, segundo registros científicos e relatos de pescadores da região. Uma das muitas lindas paisagens do Lagamar paranaense. Gabriel Marchi Dados que atravessam o tempo Se esse avanço científico não aconteceu da noite para o dia, é porque ele se apoia em algo ainda raro no Brasil, séries históricas longas e integradas de dados científicos. Anos de monitoramento permitiram reunir informações sobre desembarque pesqueiro, reprodução, presença de espécies e uso do habitat, criando um retrato detalhado da dinâmica ecológica da região ao longo do tempo. Foi justamente a integração desses dados que permitiu demonstrar, com base em evidências robustas, que o Lagamar atende aos critérios científicos necessários para ser reconhecido como uma Área Importante para Tubarões e Raias (ISRA). Mais do que confirmar sua relevância, esse status reforça o papel do Brasil como um importante hotspot de biodiversidade de tubarões e raias. A força desse reconhecimento está na qualidade das evidências produzidas ao longo dos anos. Dados consistentes permitiram comprovar que a região funciona como área de alimentação, refúgio e desenvolvimento para diferentes espécies, oferecendo uma base técnica importante para estratégias de conservação e formulação de políticas públicas. Esse esforço de pesquisa continua avançando. O projeto One Blue Health amplia a compreensão sobre o ecossistema ao investigar as conexões entre saúde ambiental, saúde animal e saúde humana, uma abordagem ainda pouco explorada no país. Entre os estudos em andamento estão análises de contaminação por metais, hidrocarbonetos, pesticidas e outras substâncias, além do monitoramento da saúde de animais resgatados e devolvidos ao mar. A produção desse conhecimento ganha relevância ainda maior em um contexto de transformações aceleradas na zona costeira. Com a implantação de grandes empreendimentos na região, como um novo porto privado no Paraná, o Lagamar passa a contar com algo raro no país, um conjunto de dados capaz de registrar as condições ambientais antes, durante e depois das intervenções. Esse tipo de monitoramento contínuo exige tempo, investimento e articulação entre diferentes instituições. Mas é justamente ele que permite compreender como alterações no ambiente afetam a biodiversidade e, consequentemente, as comunidades que dependem desses ecossistemas. Em um país onde iniciativas de longo prazo ainda são exceção, o caso do Lagamar demonstra o valor estratégico da ciência para orientar decisões ambientais mais informadas. Pesquisadores Leonardo Rios e Eloisa Giareta com raias prontas para voltar ao mar Gabriel Marchi Quando pescadores viram aliados Uma das histórias mais emblemáticas dessa trajetória envolve a raia-viola-do-focinho-curto, espécie atualmente ameaçada de extinção. Capturada incidentalmente pela pesca, ela passou a ser foco de um protocolo inédito de resgate, reabilitação e soltura desenvolvido pelo Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha (REBIMAR). “Já tivemos casos de animais que chegaram sem respirar. Fizemos massagem cardíaca, ventilação manual pelas guelras, e eles sobreviveram”, relembra Renata Daldin Leite, coordenadora das pesquisas com tubarões e raias do REBIMAR. As raias debilitadas são levadas para piscinas de monitoramento na sede do projeto, onde passam por avaliação antes de retornar ao mar. Em 15 anos, mais de 5.800 indivíduos foram devolvidos vivos ao oceano, resultado que demonstra como pesquisa e monitoramento podem contribuir diretamente para a conservação de espécies ameaçadas. Conservar o oceano é cuidar de uma só saúde O reconhecimento do Lagamar como Área Importante para Tubarões e Raias ocorre em um momento crítico para a biodiversidade marinha. Durante a Conferência Nacional de Unidades de Conservação para a Biodiversidade (UCBio), realizada em Curitiba, o ativista Paul Watson lembrou que o planeta vive o sexto evento de extinção em massa de sua história, o primeiro provocado pela ação humana. Em um cenário global de alerta crescente sobre a crise dos oceanos, ele reforçou: “Se o oceano morrer, nós morreremos”. A afirmação resume uma realidade cada vez mais evidente para a ciência: a saúde dos oceanos, dos animais marinhos e das populações humanas está profundamente conectada. Alterações em uma parte desse sistema desencadeiam impactos que se espalham por todo o ecossistema. No Lagamar, os dados científicos reforçam essa lógica. A perda de tubarões e raias não afeta apenas espécies isoladas, mas compromete processos ecológicos que sustentam a biodiversidade e os serviços ambientais dos quais dependem as comunidades costeiras. Ao longo de décadas de pesquisa, o Lagamar tem mostrado que compreender e proteger áreas-chave para a biodiversidade marinha é também uma forma de cuidar das pessoas que dependem desses ecossistemas. Conservar o oceano, nesse contexto, é preservar as conexões ecológicas que sustentam a biodiversidade e a vida das populações humanas. *Sandrah Souza Guimarães é jornalista e coordenadora de comunicação do programa Rebimar, iniciativa da Associação MarBrasil patrocinada pelo programa Petrobras Socioambiental Mais Lidas",
"title": "O que o reconhecimento do Lagamar revela sobre a conservação marinha no Brasil"
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