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  "textContent": "\nUm painel realizado nesta quinta-feira (18), durante evento promovido pela Anbima em São Paulo sobre o programa Eco Invest Brasil, discutiu como o mecanismo, que prepara o lançamento de seu quinto leilão, pode acelerar o caminho entre a pesquisa científica e a criação de empresas de tecnologia no país. A conversa reuniu Vilmar Thewes, do Banco do Brasil; Marcelo Rodrigues, professor da Universidade de Brasília (UnB) e fundador da Krilltech; e Ana Calçado, da Wyllinka, organização que atua no desenvolvimento da inovação científica brasileira. A mediação foi de Luiz Pires, da Anbima. O painel complementou uma apresentação de Mario Gouvêa de Almeida, coordenador e membro do Comitê Executivo do Eco Invest Brasil na Secretaria do Tesouro Nacional, que detalhou ao mercado o desenho do quinto leilão do programa. Segundo Gouvêa, a nova rodada deve mobilizar entre R$ 50 bilhões e R$ 55 bilhões em investimentos, valor que tornaria essa a maior edição já realizada do Eco Invest. O edital prevê a estruturação de seis fundos voltados a setores como inteligência artificial, minerais críticos, biocombustíveis e biofertilizantes, com R$ 9 bilhões em recursos do Tesouro Nacional destinados a absorver parte do risco dos investidores privados — modalidade que Gouvêa chamou de capital catalítico. Ao todo, somando as cinco rodadas, o programa pode se aproximar de R$ 200 bilhões mobilizados, depois de já ter destravado cerca de R$ 140 bilhões em suas quatro primeiras edições, segundo dados citados por integrantes do Ministério da Fazenda. Foi nesse contexto que o moderador do painel , Luiz Pires, da Anbima, provocou os três participantes a imaginar como seria sua trajetória se o Eco Invest existisse alguns anos atrás. Os relatos descreveram um ecossistema marcado por falta de recursos, desconhecimento do mercado sobre tecnologias científicas e dificuldade de transformar pesquisa em negócio. Marcelo Rodrigues contou que fundou a Krilltech após anos atuando como gestor de inovação em um hospital universitário, quando passou a estabelecer contatos entre a indústria farmacêutica e a universidade — uma aproximação, segundo ele, mal vista por parte dos colegas da academia na época. A partir de uma parceria com a Embrapa, desenvolveu um bioestimulante agrícola que teria gerado, em testes iniciais, um incremento de 20% na produtividade do tomate. Sem acesso a financiamento, Rodrigues contou que recorreu ao cartão de crédito consignado e à venda do próprio carro para abrir a empresa, hoje uma fabricante de bioestimulantes e biofertilizantes com produtos exportados para Europa, Índia, África do Sul, Estados Unidos e países da América Latina. \"Misturei cartão de crédito consignado, cheque especial, vendi meu carro, voltei a andar a pé, minha esposa quase me deixou, mas a gente conseguiu levantar a empresa.\" Marcelo Rodrigues , fundador da Krilltech , empresa de bioestimulantes e biofertilizantes agrícolas Naiara Bertão / Um Só Planeta Para Rodrigues, se o Eco Invest tivesse existido entre 2016 e 2021 — período entre o desenvolvimento da tecnologia até a primeira venda —, o processo poderia ter sido mais rápido. Na avaliação dele, fundos de capital de risco tradicionais costumam exigir retornos altos em prazos que não correspondem ao tempo necessário para esse tipo de desenvolvimento científico até gerar receita. No caso da Krilltech, foram cerca de cinco anos entre a concepção do produto e a primeira venda. \"Investir em ciência leva tempo. (...) É uma quebra de cultura dos dois lados\", diz. Rodrigues descreveu esse descompasso como uma \"quebra de cultura\" que precisa ocorrer dos dois lados. De um lado, pesquisadores precisam se aproximar das demandas reais do mercado, e, de outro, investidores precisam desenvolver paciência para esse tipo de aposta. Ele afirmou ainda que o programa pode ajudar empresas como a sua a expandir para outros setores ainda pouco explorados pelo mercado, como projetos de reflorestamento na Amazônia e produção de forragem no semiárido nordestino. Ana Calçado, da Wyllinka, atua há quase 14 anos no desenvolvimento do campo de inovação científica no Brasil, capacitando pesquisadores e apoiando instituições como incubadoras e universidades. Segundo ela, o volume de recursos disponíveis no mundo nunca foi o principal obstáculo ao financiamento de tecnologias científicas (deep techs). O entrave estaria na percepção de risco dos investidores, muitas vezes ligada à falta de familiaridade com esse tipo de negócio. Ana citou um dado apresentado por Gouvêa durante sua sessão sobre a posição do Brasil no ranking do Global Innovation Index — 52º lugar — como exemplo do espaço para avanço do país em inovação tecnológica. \"Parte desse risco não é risco, é incerteza, que faz parte desse tipo de inovação\", afirma. Ela explica que investir em deep techs envolve lidar com incertezas simultâneas de tecnologia, mercado, modelo de negócio, formação de equipe e necessidade de capital ao longo de um desenvolvimento mais longo, o que tornaria insuficientes métricas simplificadas como os níveis de maturidade tecnológica (TRL) e de maturidade de negócio (BRL). Segundo ela, mesmo fundos públicos voltados a deeptechs frequentemente têm, em seus mecanismos operacionais, regras que dificultam na prática esse tipo de investimento, ainda que o discurso institucional seja de fomento. Ana citou um estudo sobre blended finance para dívida climática, lançado recentemente pela Wyllinka em parceria com a gestora de recursos Dynamo, como uma tentativa de mapear caminhos para reduzir esse risco de forma sistêmica e destravar o fluxo de capital para esse tipo de projeto. \"Mesmo quando tem o recurso, a questão do risco permanece muito forte. (...) A hora que você vai ver nos detalhes do mecanismo, ele impossibilita.\" Vilmar Thewes, gerente de Finanças Sustentáveis no Banco do Brasil, apresentou um histórico da atuação do banco em finanças sustentáveis, iniciada em 2019 com a criação do primeiro framework de sustentabilidade da instituição e uma captação bilateral de US$ 100 milhões destinada a energia renovável e apoio a mulheres empreendedoras. Segundo Thewes, o banco havia captado R$ 4 bilhões com esse tipo de instrumento até 2022; nos últimos dois anos, o valor teria superado R$ 20 bilhões, somando hoje mais de R$ 50 bilhões captados para sustentabilidade. Ele citou ainda a emissão recente de um \"nature bond\" vinculado à recuperação de áreas degradadas, no âmbito do Eco Invest 2. Thewes afirmou que, nos primeiros anos da atuação do banco em finanças sustentáveis, foi necessário explicar o funcionamento dessas operações a cerca de 50 casas de investimento ao redor do mundo, já que os investidores não conheciam esse tipo de produto; hoje, segundo ele, o reconhecimento construído ao longo do tempo reduziu esse esforço a poucas reuniões bilaterais. O banco também investe, via fundos próprios, em startups de setores como agritech, seguros, educação financeira e economia circular, com dois fundos somando R$ 500 milhões — e contabiliza write-offs (perdas integrais) decorrentes de apostas que não sobrevivem, mas considera o resultado positivo porque avalia o retorno não apenas pelo desempenho financeiro isolado de cada investimento, e sim pelo valor estratégico que essas empresas agregam à cadeia de negócios do banco e de seus clientes. Para Thewes, mecanismos como o Eco Invest permitem ao banco repetir esse tipo de aposta estratégica com menor exposição ao risco, ao mesmo tempo em que diluem o custo entre vários grandes investidores — o que, segundo ele, reduz o custo final para quem toma o recurso e amplia o acesso a esse tipo de financiamento. Essa leitura dialoga com a expectativa de Gouvêa de que o quinto leilão amplie o apetite do mercado justamente para projetos hoje considerados arriscados demais para financiamento tradicional. \"O Eco Invest, por si só, também é uma marca extremamente valorizada globalmente. Os atores internacionais conhecem e querem muito fazer parte disso\", diz o executivo do BB. Mais Lidas",
  "title": "Inovação científica: entre o laboratório e o mercado, o gargalo é o financiamento"
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