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"publishedAt": "2026-06-17T10:00:32.000Z",
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"textContent": "\nEnquanto o mundo tenta, de forma quase obstinada, virar a página da Covid-19, a humanidade ainda carrega as cicatrizes físicas e sociais do trauma. O saldo dramático de milhões de vidas perdidas no Brasil e no mundo não ficou no passado. Ele se estende silenciosamente no presente por meio da chamada “Covid longa”. Milhares de pessoas enfrentam diariamente sequelas crônicas, neurológicas e cardiovasculares. Essas vítimas nos lembram de que os impactos de uma pandemia não se encerram com o fim da emergência sanitária. A maior lição da Covid-19 deveria ter sido a preparação. Contudo, o cenário global aponta para o oposto. Ameaças latentes, como o ressurgimento e a gravidade do vírus Marburg e de cepas do vírus Ebola na África, mostram que o risco de uma nova crise hemorrágica global é real e iminente. A OMS já até ampliou a advertência mundial em relação ao Ebola Bundibugyo. O tempo de trânsito de um patógeno entre um vilarejo isolado e qualquer metrópole global é tragicamente menor do que o seu período de incubação. E por outro lado, assistimos hoje a uma asfixia deliberada das defesas sanitárias globais. A decisão política de países como os Estados Unidos e a Argentina de se retirarem ou cortarem severamente os laços com a Organização Mundial da Saúde (OMS) empurra a instituição para uma situação de penúria financeira crônica. Retirar o financiamento da OMS no momento em que a vigilância epidemiológica global precisa ser expandida é um ato de sabotagem contra a segurança coletiva. Esse isolacionismo se agrava com o desmonte interno promovido pelo atual governo americano na saúde pública. Sob a liderança do secretário Robert F. Kennedy Jr., assiste-se a um enfraquecimento ideológico e orçamentário de pilares da ciência mundial: o National Institutes of Health (NIH) e o Centers for Disease Control and Prevention (CDC), além do sufocamento de grandes universidades americanas. Quando a maior potência científica do planeta boicota suas próprias agências de controle, a humanidade inteira perde seus olhos e sentidos na linha de frente contra os vírus. A vitória da ciência contra o negacionismo No Brasil, conhecemos bem o preço do negacionismo institucionalizado. Marcus Lacerda, pesquisador da Fiocruz na Amazônia, enfrentou severa perseguição política e ameaças de morte no governo anterior simplesmente por cumprir seu dever científico e mostrar a ineficácia da cloroquina e da ivermectina na Covid-19. A história, contudo, costuma ser justa com a ciência: hoje, Lacerda foi acolhido internacionalmente e assumiu o destacado posto de diretor do Programa Especial para Pesquisa e Treinamento em Doenças Tropicais (TDR) da OMS. Esse reconhecimento demonstra que a dignidade acadêmica resiste ao obscurantismo. A urgência de manter a guarda alta ganha contornos dramáticos no solo brasileiro. Recentemente, um estudo coordenado pela cientista Ester Sabino da USP e publicado na PLOS Neglected Tropical Diseases reacendeu um alerta crucial sobre o vírus Sabiá. Causador de uma febre hemorrágica e neurológica gravíssima, com quatro casos fatais históricos no estado de São Paulo, descobriu-se que esse Arenavírus circula silenciosamente no ecossistema brasileiro há pelo menos 142 anos. E um alerta importante é que o vírus apresenta variações genéticas preocupantes ao longo do tempo. O perigo não é hipotético. Ele está sob os nossos pés e é ativamente alimentado pela degradação ambiental. Como discuti em artigo recente, o desmatamento agressivo e o avanço de obras de infraestrutura sem o devido rigor ecológico no coração da floresta — como o polêmico asfaltamento da rodovia BR-319 — funcionam como verdadeiros convites ao desastre. Nesse sentido, os avisos do ecólogo Philip Fearnside são categóricos. Rasgar a Amazônia sem salvaguardas rigorosas destrói a governança ambiental da região. Epicentro da próxima pandemia Ao romper ecossistemas profundos, desequilibramos nichos biológicos e entramos em contato direto com hospedeiros de vírus desconhecidos. O Brasil não será apenas uma vítima da próxima pandemia. Corremos o risco de sermos o seu epicentro. Esta percepção de que os riscos são múltiplos e exigem vigilância contínua é o que move a resiliente Organização Mundial da Saúde (OMS) a coordenar frentes estratégicas de prevenção global. A agência sinalizou os patógenos com maior potencial para desencadear uma futura pandemia, organizados em famílias críticas. Entre eles, os letais Filovírus (Ebola e Marburg); os Coronavírus (SARS, MERS e variantes). Além desses, temos ainda os altamente fatais Paramixovírus (Nipah); os Arenavírus e Bunyavirales, que abrigam o nosso vírus Sabiá, Lassa e Lujo); os Flavivírus (Dengue, Zika e Febre Amarela). E soma-se ainda a essa lista a temida Doença X, representação de um agente ainda desconhecido, mas geneticamente capaz de paralisar o mundo. Mais do que enumerar as ameaças, a ciência internacional precisa saber rastreá-las na raiz. É exatamente aí que o Brasil assume protagonismo. Novos patógenos Sob a chancela do Grupo Consultivo Científico para Origens de Novos Patógenos (SAGO/OMS), a OMS estabeleceu uma estrutura unificada baseada na integração entre a saúde humana, animal e ambiental. Esse grupo conta com a participação do cientista brasileiro Carlos Morel, diretor do CDTS/Fiocruz. Publicadas em consórcio global na revista Nature Communications, essas regras de governança ecológica e laboratorial determinam como os países devem agir nos primeiros dias de um surto. O objetivo é evitar que o transbordo (spillover) de um vírus se transforme em uma nova tragédia coletiva. O enfrentamento desse cenário de vulnerabilidade exige, fundamentalmente, o fortalecimento da nossa soberania científica. O Brasil possui uma linha de frente robusta e histórica, composta por instituições de excelência como a Fiocruz e o Instituto Butantan, que será ampliada com a futura consolidação do Projeto Orion. Este projeto contempla um complexo de laboratórios de máxima segurança biológica (NB4) no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas (Projeto Orion/CNPEM). Todavia, a inovação tecnológica não nasce no vácuo e nem se sustenta por voluntarismo. É imperativo o apoio governamental contínuo e robusto por meio de agências de fomento como o CNPq, a Finep, o Ministério da Saúde e as Faps. O investimento em pesquisa básica e no complexo industrial da saúde não pode ser tratado como gasto corrente ou contingenciável. Trata-se de um investimento estratégico na defesa da vida da população dependente do Sistema Único de Saúde (SUS). Diante do avanço do negacionismo, do isolacionismo e do desmonte de agências internacionais estratégicas, torna-se imperativo que as nossas agências de fomento atuem de forma mais agressiva na ampliação da atração de talentos globais. Esses cientistas podem contribuir para o desenvolvimento de tecnologias disruptivas voltadas ao Complexo Econômico-Industrial da Saúde e ao fortalecimento do SUS, como o desenvolvimento de novos imunizantes para patógenos perigosos como o Ebola, Marburg, Sabiá, entre outros. Paralelamente, a cooperação internacional e o intercâmbio permanente com instituições do calibre do Institut Pasteur, Imperial College, Instituto Karolinska, as universidades de Harvard e Oxford, além de centros de excelência em pesquisa básica e biotecnologia na Europa e na China, precisam ser massivamente ampliados e financiados pela Capes, CNPq, Finep e Faps, consolidando a nossa soberania científica. Isolar a ciência, flertar com o negacionismo ou negligenciar a devastação ambiental é assinar, de forma antecipada, a nossa derrota para o próximo vírus. *Renato Cordeiro é Professor Emérito, Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Mais Lidas",
"title": "Desequilíbrio de ecossistemas pode levar o Brasil para o epicentro da próxima pandemia"
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