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"textContent": "\nRecentemente, ouvi de algumas empresas que os investimentos estavam “todos alocados na Copa”, como se fosse possível colocar a agenda de sustentabilidade e impacto em pausa até o próximo grande evento. Este assunto vale ser examinado porque é tão contraditório – talvez seja justamente a Copa do Mundo de 2026 o momento em que a crise climática deixará de aparecer apenas no entorno do futebol para entrar definitivamente em campo. Pela primeira vez, os alertas sobre calor extremo não surgem como preocupação secundária, mas como parte central da organização do torneio. Os estudos são claros: esta Copa terá um risco significativamente maior de partidas disputadas sob calor extremo em comparação com 1994, quando os Estados Unidos receberam o torneio pela última vez. Pelo menos 26 jogos devem acontecer em condições consideradas preocupantes para atletas e torcedores. Cinco deles podem ultrapassar níveis classificados como inseguros. Até a final, em Nova Jersey, apresenta hoje cerca de 50% mais risco de ocorrer sob calor extremo do que há três décadas. O ponto mais importante talvez seja perceber que isso já não pode mais ser tratado como exceção. O futebol sempre conviveu com diferentes climas, mas o aumento da frequência e da intensidade dos eventos extremos muda completamente a escala da discussão. Quando jogadores passam mal, árbitros precisam de atendimento médico e partidas começam a ser impactadas fisicamente pelo calor, o esporte passa a funcionar também como termômetro social da crise climática. E os sinais já estão aparecendo. Na Copa América de 2024, disputada nos Estados Unidos, houve casos de desidratação severa, tontura e hospitalizações relacionadas ao calor. Pesquisas da UFMG mostram ainda que temperaturas elevadas reduzem a intensidade física, a velocidade e a capacidade de recuperação dos atletas. O calor não afeta apenas a saúde: ele altera a dinâmica do próprio jogo. Ainda assim, parte da resposta institucional continua operando em ritmo lento diante da urgência do problema. A FIFA anunciou pausas obrigatórias para hidratação, o que é importante, mas insuficiente diante das projeções climáticas nas próximas décadas. Em cidades como Miami, Dallas e Houston, o calor extremo tende a se tornar cada vez mais frequente, inclusive fora dos estádios. Fan fests, deslocamentos urbanos, filas e concentrações públicas também passam a fazer parte dessa equação. Esse comportamento ajuda a explicar uma espécie de anestesia coletiva diante da emergência ambiental: todos reconhecem o problema, mas nem todos parecem dispostos a alterar prioridades na velocidade necessária. O futebol talvez seja uma das poucas linguagens verdadeiramente universais do planeta, e justamente por isso a Copa pode ter um papel importante nessa discussão. Quando o calor extremo começa a interferir no principal espetáculo esportivo do mundo, a crise climática deixa de parecer abstrata, distante ou restrita aos relatórios científicos. Ela ganha imagem, audiência global e impacto imediato. A Copa de 2026 provavelmente continuará sendo um enorme espetáculo esportivo. Mas ela também pode marcar o momento em que ficou evidente que o clima já começou a redefinir os limites do próprio esporte. A crise climática deixou de ser apenas o cenário da Copa. Ela passou a influenciar o jogo. *Rodrigo V. Cunha é CEO da Profile Mais Lidas",
"title": "Quando o calor muda o jogo e a crise climática ameaça a Copa do Mundo como conhecemos"
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