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"textContent": "\nEnquanto os impactos do aquecimento global se intensificam em diferentes regiões do planeta, um novo relatório alerta que o dinheiro continua seguindo, em larga escala, para as atividades responsáveis pela maior parte das emissões que alimentam a crise climática. Os maiores bancos do mundo destinaram US$ 906 bilhões em financiamentos para empresas de petróleo, gás e carvão em 2025, um aumento de US$ 64 bilhões em relação ao ano anterior. O dado consta no relatório Banking on Climate Chaos 2026, elaborado por uma coalizão internacional de organizações ambientais, e reforça a avaliação de que o sistema financeiro global continua sustentando a expansão dos combustíveis fósseis mesmo diante do agravamento da crise climática. Segundo o estudo, o volume de recursos liberados cresceu quase 8% em comparação com 2024, contrariando expectativas de redução gradual do apoio ao setor após anos de compromissos climáticos assumidos por instituições financeiras. O banco norte-americano JPMorgan Chase liderou novamente o ranking mundial de financiadores da indústria fóssil, com US$ 58 bilhões destinados ao setor em 2025, alta de 13% em relação ao ano anterior. Na sequência aparecem Bank of America, os japoneses MUFG e Mizuho Financial e o Citigroup. Ao viabilizar a expansão da produção e da infraestrutura de combustíveis fósseis, esses investimentos contribuem para o aumento das emissões de gases de efeito estufa que alimentam a crise climática e estão associados à intensificação de eventos extremos, como ondas de calor, secas prolongadas, enchentes e tempestades mais severas. Em escala local, os efeitos também podem ser observados em projetos específicos apoiados por grandes instituições financeiras. Um dos exemplos citados no relatório é o gasoduto Mountain Valley Pipeline, nos Estados Unidos, que enfrenta forte oposição de comunidades locais e grupos ambientalistas devido aos riscos de degradação ambiental e aos impactos sobre territórios atravessados pela obra. O projeto recebeu apoio financeiro de bancos como o JPMorgan Chase, líder do ranking global de financiamento a combustíveis fósseis. Em meio às disputas judiciais e mobilizações contra o empreendimento, ativistas passaram a pressionar diretamente os financiadores do projeto, argumentando que o setor bancário tem papel central na viabilização de novas infraestruturas ligadas aos combustíveis fósseis. “Energia acessível, justiça ambiental, respeito aos direitos humanos e um clima habitável são pilares essenciais da sociedade, e todos são profundamente influenciados pelas escolhas feitas pelos maiores bancos do mundo. Muitos desses bancos continuam a direcionar o seu, e o nosso, dinheiro para o frágil sistema energético baseado em combustíveis fósseis, que se tornou uma fonte de grande riqueza para poucos e uma crescente linha de vulnerabilidade para todos os demais\", ressaltam os autores no estudo. Na contramão dos alertas científicos Para os autores do relatório, o aumento dos financiamentos é incompatível com as metas estabelecidas pelo Acordo de Paris, firmado em 2015, que prevê esforços para limitar o aquecimento global a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais até 2100. Cientistas alertam, contudo, que esse limite pode ser ultrapassado ainda nesta década, diante da sequência de anos com temperaturas recordes. Desde a assinatura do acordo climático, os maiores bancos do planeta já canalizaram cerca de US$ 8,7 trilhões para atividades ligadas à exploração e produção de combustíveis fósseis. Esse financiamento não apenas se mantém elevado, mas também está cada vez mais concentrado em um grupo reduzido de instituições. Apenas 12 bancos foram responsáveis por 40% de todo o dinheiro destinado ao setor no último ano. Veja no gráfico abaixo os bancos que mais investiram em fontes fósseis desde 2021 (em dólar): 12 bancos que mais investem em combustíveis fósseis, vilões do clima. Divulgação Expansão de projetos existentes e contradições Cerca de US$ 508 bilhões dos valores desembolsados pelas instituições financeiras foram direcionados especificamente para ampliar operações já em funcionamento, um salto de 27% em comparação com 2024. Entre os maiores beneficiários estão as empresas norte-americanas Venture Global, Enbridge e Energy Transfer. O cenário ocorre em meio ao enfraquecimento de compromissos climáticos assumidos anteriormente pelo próprio setor financeiro. Nos últimos anos, diversos bancos anunciaram metas para reduzir emissões financiadas e restringir empréstimos a atividades intensivas em carbono. No entanto, muitas dessas promessas perderam força diante das mudanças políticas e econômicas recentes. O relatório cita como símbolo desse movimento o esvaziamento da Net-Zero Banking Alliance, iniciativa apoiada pela Organização das Nações Unidas (ONU) que buscava alinhar as carteiras de crédito dos bancos às metas de neutralidade climática até 2050. Após uma série de saídas de grandes instituições financeiras, a aliança acabou sendo descontinuada. Embora 26 dos 65 maiores bancos avaliados tenham reduzido seus financiamentos fósseis em 2025 — entre eles BNP Paribas, UBS e La Caixa —, a tendência geral permaneceu de crescimento. Em resposta às críticas, bancos citados no relatório afirmaram que financiam tanto projetos de energia convencional quanto iniciativas de energia limpa. As instituições argumentam que a transição energética precisa ocorrer sem comprometer a segurança, a confiabilidade e a acessibilidade do abastecimento energético. Para as organizações responsáveis pelo estudo, porém, o aumento dos investimentos demonstra que as metas voluntárias adotadas pelo setor financeiro não foram suficientes para alterar o fluxo de capital. A avaliação é que reguladores e governos precisarão assumir um papel mais ativo para alinhar o sistema bancário aos objetivos climáticos globais. Centros financeiros Ainda segundo o relatório, a maior parte do financiamento global aos combustíveis fósseis está concentrada em seis grandes centros financeiros: Estados Unidos, Canadá, Japão, China, Reino Unido e União Europeia. Juntos, eles respondem por 87% de todo o apoio bancário ao setor entre cerca de 2 mil instituições financeiras analisadas no mundo. Embora bancos europeus e algumas instituições canadenses tenham reduzido sua exposição aos combustíveis fósseis em 2025, esse movimento foi mais do que compensado pelo aumento do financiamento nos Estados Unidos, cujos bancos passaram a representar mais de 32% do total global. Para os autores, a transição para uma economia de baixo carbono dependerá não apenas das decisões individuais dos bancos, mas sobretudo da atuação de reguladores, bancos centrais e legisladores desses seis polos financeiros, considerados decisivos para reduzir o fluxo de capital destinado à expansão de petróleo, gás e carvão. Ao continuar financiando a expansão de projetos de petróleo, gás e carvão — enquanto destinam menos recursos a alternativas renováveis já consideradas mais baratas e seguras —, as instituições financeiras estariam contribuindo para manter um sistema energético mais caro, vulnerável e desigual. \"Os combustíveis fósseis não são mais uma fonte de segurança energética, mas de instabilidade\", afirmam os pesquisadores, citando como exemplos os choques provocados pela invasão da Ucrânia pela Rússia e pela escalada dos conflitos envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel. Como a maior parte do financiamento ao setor está concentrada em um número reduzido de bancos e centros financeiros, o relatório conclui que uma mudança de rumo dependerá tanto da atuação dessas instituições quanto de medidas regulatórias mais firmes para reduzir gradualmente o apoio à expansão dos combustíveis fósseis. Mais Lidas",
"title": "Na contramão dos alertas científicos, bancos destinam US$ 906 bilhões a combustíveis fósseis"
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