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"textContent": "\nAs florestas brasileiras precisam deixar de ser vistas apenas como aliadas no combate às emissões de carbono e passar a ocupar um papel central nas estratégias de adaptação às mudanças climáticas. Essa é uma das principais conclusões da segunda edição do relatório O Protagonismo das Florestas Brasileiras na Agenda Climática Global, elaborado por uma coalizão de organizações da sociedade civil, centros de pesquisa e representantes do setor empresarial. O documento, que será apresentado nas conferências da ONU sobre clima, biodiversidade e desertificação neste ano, sustenta que o valor econômico das florestas vai muito além dos créditos de carbono. Em um cenário de secas mais severas, incêndios florestais, perdas agrícolas e crises hídricas, elas passam a ser tratadas como uma espécie de infraestrutura natural capaz de reduzir riscos climáticos e sustentar atividades econômicas. \"Precisamos fazer com que o capital natural e as soluções baseadas na natureza deixem de ser vistos apenas como uma agenda ambiental e passem a ocupar um lugar central na economia\", afirma Roberto Waack, presidente do conselho do Instituto Arapyaú. \"As florestas brasileiras têm potencial para se consolidar como uma classe de ativos altamente atrativa para o mercado financeiro, gerando valor por meio de carbono, água, resiliência climática, biodiversidade e segurança alimentar.\" O estudo reúne dados sobre conservação, restauração florestal e silvicultura em todos os biomas terrestres do país. Além da Amazônia e da Mata Atlântica, a nova edição incorpora análises sobre Cerrado, Caatinga, Pantanal, Pampa e Zona Costeira. O relatório foi produzido pelo Instituto Arapyaú, Instituto Itaúsa, Agroicone, Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, Instituto Clima e Sociedade (iCS), Imazon, Amazônia 2030, CEBDS e Uma Concertação para a Amazônia. E recebeu apoio formal da presidência da COP30. “A segunda edição do relatório contribui diretamente para o esforço coletivo que orienta o Mapa do Caminho da COP30 para o fim do desmatamento”, afirmou André Corrêa do Lago, presidente da conferência. Segundo ele, o estudo demonstra que governos, empresas e sociedade civil podem avançar juntos na implementação de soluções para as florestas. Agropecuária como aliada Uma das mensagens centrais do relatório é que expansão florestal e produção agropecuária não precisam seguir caminhos opostos. Os autores destacam que uma parcela expressiva da vegetação nativa brasileira já está preservada dentro de propriedades rurais, por meio das Reservas Legais e das Áreas de Preservação Permanente (APPs) previstas no Código Florestal. Além disso, milhões de hectares de áreas degradadas ou com baixa aptidão agrícola poderiam ser destinados à restauração florestal sem comprometer a produção. \"O estudo mostra que conservação florestal, restauração e produção agropecuária não são agendas concorrentes\", afirma Rodrigo C. A. Lima, sócio-diretor da Agroicone. \"O Brasil já possui uma das maiores áreas conservadas dentro de propriedades privadas rurais e pode ampliar sua liderança global ao conectar agricultura, florestas e soluções climáticas em uma estratégia de desenvolvimento de longo prazo.\" Segundo o relatório, o país já demonstrou que é possível reduzir o desmatamento sem frear o crescimento do setor agropecuário. Entre 2004 e 2012, o desmatamento na Amazônia caiu cerca de 80%, enquanto a produção agropecuária da região praticamente dobrou. Os autores também ressaltam que a própria agricultura depende da manutenção das florestas. A umidade transportada da Amazônia para outras regiões do país pelos chamados \"rios voadores\" ajuda a sustentar as chuvas que abastecem áreas agrícolas do Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Potencial para ampliar a cobertura florestal A primeira edição do estudo já havia apontado que o Brasil poderia reverter a trajetória de perda de vegetação e ampliar sua cobertura florestal de 517 milhões para 525 milhões de hectares até 2035 — um crescimento de aproximadamente 8 milhões de hectares, área equivalente a cerca de duas vezes o território da Suíça. Agora, novos levantamentos reforçam esse potencial. Uma análise preliminar conduzida pela Agroicone e pelo movimento Floraz identificou cerca de 2,6 milhões de hectares aptos para projetos de restauração em aproximadamente 8 mil propriedades rurais, especialmente em áreas de pastagens degradadas. Além dos benefícios para biodiversidade e clima, a recuperação dessas áreas pode ajudar produtores a regularizar passivos ambientais e abrir oportunidades econômicas ligadas aos mercados de carbono, biomateriais e bioenergia. Uma projeção citada no relatório estima que atividades associadas à restauração florestal poderão movimentar até US$ 141 bilhões no Brasil até 2050. Povos indígenas ganham destaque O documento também reforça o papel dos povos indígenas e comunidades tradicionais na proteção dos ecossistemas brasileiros. Dados do Imazon mostram que as terras indígenas responderam por apenas 3% do desmatamento registrado na Amazônia entre 2012 e 2024, o menor índice entre as diferentes categorias fundiárias monitoradas. Para os autores, ampliar o reconhecimento e o financiamento dessas populações é uma condição necessária para alcançar metas de conservação e restauração em larga escala. \"O Brasil concentra cerca de 500 milhões de hectares de florestas nativas, domina tecnologias de conservação, restauração e silvicultura e reúne condições únicas para liderar a agenda global de soluções baseadas na natureza\", afirma Beto Veríssimo, cofundador do Imazon. \"Quando falamos em clima, segurança alimentar e resiliência econômica, estamos falando diretamente da importância estratégica das florestas brasileiras.\" O desafio do financiamento Apesar do crescente reconhecimento do papel das florestas na estabilidade climática e econômica, o relatório alerta que os recursos destinados ao setor ainda são insuficientes. A avaliação é que ampliar o fluxo de investimentos exigirá novos instrumentos financeiros capazes de reduzir riscos e atrair capital privado. Entre as alternativas defendidas estão modelos de financiamento misto, combinando recursos públicos e privados, além de garantias financeiras específicas para projetos florestais. Para os autores, o sucesso da agenda florestal dependerá menos de uma solução única e mais da combinação de diferentes mecanismos de financiamento. O estudo busca influenciar as negociações internacionais para que as florestas sejam reconhecidas não apenas como reservatórios de carbono, mas como ativos estratégicos para a adaptação climática e a resiliência das economias diante de um planeta cada vez mais quente. Mais Lidas",
"title": "'Infraestrutura essencial': estudo mostra por que florestas devem estar no centro da estratégia econômica e climática do Brasil"
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