Notas baixas: o que o 'boletim' dos frigoríficos do Cerrado revela
Um só Planeta [Unofficial]
June 3, 2026
Quem tem filhos em idade escolar sabe que, em determinados momentos do ano, terá acesso ao temido boletim, aquele documento que reúne notas, médias, frequência e ajuda a medir o desempenho ao longo do período letivo. Para alguns alunos, é motivo de orgulho. Para outros, um pesadelo. Mas existe algo que todo estudante aprende cedo: o boletim é como um diagnóstico e apenas revela o que está acontecendo. Com os frigoríficos avaliados pelo Radar Verde acontece algo parecido. O levantamento funciona como uma espécie de boletim da cadeia da carne, avaliando critérios como monitoramento de fornecedores, transparência, rastreabilidade e compromissos socioambientais. E, para a maioria dos 225 frigoríficos analisados na edição da pesquisa Radar Verde Cerrado 2026, o resultado revela notas muito baixas. A pesquisa, desenvolvida pelo Instituto O Mundo Que Queremos e pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), avaliou pela primeira vez empresas responsáveis por 262 plantas frigoríficas no Cerrado, bioma que responde por quase 55% de toda a área desmatada no Brasil em 2025, segundo dados recentes do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM). A pergunta do Radar Verde era simples: os frigoríficos possuem políticas verificáveis e efetivamente implementadas para evitar que a carne comercializada esteja associada à destruição da vegetação nativa? A análise indica que, na maior parte dos casos, as evidências públicas disponíveis não demonstram esse compromisso. Os resultados da pesquisa revelam: a situação atual é como se estivéssemos diante de uma sala de aula com muitas notas baixas. Das 225 empresas avaliadas, 216 (96%) receberam classificação de grau muito baixo de compromisso contra o desmatamento. As demais ficaram na faixa de compromisso baixo e nenhuma alcançou classificação intermediária, alta ou muito alta. Outro dado que chama atenção é que nenhuma empresa respondeu ao questionário enviado pelo Radar Verde. Isso não significa, por si só, que estejam comprando gado de áreas desmatadas, mas reduz a transparência e limita a avaliação às evidências públicas disponíveis, como políticas divulgadas, auditorias independentes e documentos oficiais. O problema está na cadeia de fornecimento A pesquisa identificou apenas sete empresas com algum nível de controle sobre fornecedores diretos: Marfrig, Masterboi, Minerva, JBS, Cooperfrigu, Carnes Boi Branco e Plena Alimentos. O quadro muda completamente, porém, quando a análise inclui os fornecedores indiretos, que são as fazendas de cria, recria e engorda. O frigorífico costuma conhecer a fazenda que lhe vende o animal, mas nem sempre consegue acompanhar todo o percurso anterior. É justamente nessa parte da trajetória que se concentra uma das maiores fragilidades da rastreabilidade. Em outras palavras, avaliar apenas as fazendas fornecedoras diretas pode não ser suficiente para compreender os riscos socioambientais associados à origem do gado. Essa discussão ganha relevância porque a agropecuária continua sendo o principal fator associado à perda de vegetação nativa no Cerrado. Segundo levantamento do IPAM, o setor esteve relacionado a 99,5% da área desmatada registrada no bioma em 2025. Outros vetores, como mineração, expansão urbana, geração de energia, aquicultura e abertura de estradas, responderam conjuntamente por uma parcela residual da área convertida. Um desafio que a Amazônia enfrentou antes A dificuldade de controlar as fazendas fornecedoras indiretas não decorre da falta de soluções técnicas. Na Amazônia, os Termos de Ajustamento de Conduta (TACs) firmados com o Ministério Público Federal contribuíram para reduzir a compra de gado proveniente de áreas com desmatamento recente. No Cerrado, porém, nenhum mecanismo equivalente está em vigor. O Protocolo de Monitoramento Voluntário de Fornecedores de Gado no Cerrado, lançado em 2024, representa um avanço importante, mas sua adesão continua sendo voluntária. Além disso, o próprio contexto do bioma impõe desafios adicionais. Enquanto na Amazônia a legislação exige a preservação de até 80% da vegetação nativa em propriedades rurais, no Cerrado esse percentual varia entre 20% e 35%. Isso torna mais complexa a definição de compromissos capazes de ir além do simples cumprimento da lei. O Cerrado abriga mais de 970 mil fazendas com pelo menos um hectare de pastagem. Dessas, aproximadamente 78% estão fora da Amazônia Legal, região onde os sistemas de monitoramento dos frigoríficos foram historicamente concentrados. Esse dado ajuda a dimensionar o problema. Grande parte das propriedades potencialmente fornecedoras de gado no bioma permanece fora do alcance dos mecanismos de rastreabilidade desenvolvidos ao longo das últimas décadas. A análise do Radar Verde não deve ser interpretada como uma sentença sobre empresas específicas, mas como um diagnóstico do estágio atual da governança socioambiental da cadeia da carne no Cerrado. Os resultados do levantamento apontam caminhos claros, como ampliar compromissos específicos para o bioma, avançar no monitoramento das fazendas fornecedoras indiretas, fortalecer a transparência e expandir mecanismos independentes de verificação. O boletim da cadeia da carne no Cerrado chegou e, neste caso, a nota ajuda a medir muito além do desempenho de um setor econômico, mensura a capacidade de uma cadeia produtiva em responder a um dos principais desafios ambientais do Brasil. Voltando à metáfora da sala de aula, o problema vai além das notas baixas, é que boa parte da prova continua sem resposta. Dayane Nascimento é jornalista e coordenadora de projetos em O Mundo Que Queremos. Mais Lidas
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