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"textContent": "\nAs metas climáticas apresentadas pelos países do G20, grupo das maiores economias mundiais, avançaram em sofisticação e ambição no novo ciclo das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), no entanto, ainda carregam diferenças metodológicas, dificuldades de implementação e um debate que ainda é perene: até que ponto reflorestamento e compensações podem conviver com a expansão de combustíveis fósseis? Essa é uma das principais conclusões do relatório \"Um olhar para os compromissos climáticos: Avaliação das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDC) do G20\", elaborado pelo LACLIMA (Instituto que tem como missão disseminar e implementar conhecimento e políticas climáticas), divulgado no final deste mês de maio de 2026. Leia o documento completo aqui. O estudo analisa as metas climáticas de grandes economias do planeta até 2035 e mostra que, embora exista uma tendência de continuidade da redução de emissões, os países seguem adotando trajetórias diferentes de descarbonização. A não uniformidade é um problema. Para o diretor-técnico da LACLIMA, André Castro Santos, um dos principais entraves ainda está na própria estrutura do Acordo de Paris, que permite flexibilidade metodológica aos países. “Os países desenvolvidos e os países em desenvolvimento têm exigências que, embora sejam comuns, possuem flexibilidades diferentes. Isso faz com que exista uma dificuldade metodológica importante de comparabilidade”, enfatiza. A escolha dos anos-base usados nas metas altera diretamente a percepção de ambição climática, por exemplo. Países desenvolvidos, que já possuíam obrigações desde o Protocolo de Kyoto, normalmente utilizam 1990 como referência para corte. Já muitos emergentes passaram a usar anos mais recentes, como 2005 ou 2015. “Quanto mais recente é o ano utilizado como referência, maior tende a ser a base de emissões. Então a redução absoluta acaba sendo relativamente menor”, explica. O relatório mostra que a heterogeneidade das NDCs continua sendo um desafio para medir o esforço climático global de forma homogênea. Há países que utilizam metas absolutas, outros trabalham com cenários projetados de emissões e alguns ainda adotam modelos híbridos. O estudo ressalta que financiamento, tecnologia, fortalecimento de capacidades e instrumentos de mercado seguem como fatores decisivos para a implementação das NDCs Europa e a sua trajetória mais linear A análise da LACLIMA aponta que União Europeia e Reino Unido aparecem entre os casos de maior continuidade climática, aliando avanço até 2030 com reduções adicionais relevantes até 2035. Para André Castro, isso ocorre porque esses países começaram antes o processo de redução de emissões. “São países que vêm desde o Protocolo de Kyoto tomando medidas para reduzir emissões e fazer transição energética. Eles têm obrigações internacionais mais antigas”, afirma. Já países em desenvolvimento possuem uma trajetória histórica diferente. O princípio das “responsabilidades comuns, porém diferenciadas”, previsto no regime climático internacional, reconhece que essas economias se industrializaram mais tarde e, portanto, começaram a emitir gases de efeito estufa depois. “Esses países têm o direito de levar o pico de emissões mais para frente antes de iniciar uma trajetória mais forte de redução”, argumenta. O relatório também identifica que parte dos países emergentes concentra esforços climáticos após 2030 devido à expectativa de financiamento internacional para viabilizar a transição energética. “Muitos países ainda condicionam parte das suas ações de mitigação ao recebimento de financiamento climático ou transferência de tecnologia”, afirma André. O financiamento climático, contudo, é um dos temas mais controversos em reuniões globais climáticas e permanece, em grande parte, travado. André Castro Santos, diretor técnico da LACLIMA Divulgação Florestas ajudam, mas não substituem corte de fósseis Um dos pontos do estudo está na discussão sobre metas líquidas de emissões (“net”), que consideram o balanço entre emissões e remoções de carbono por florestas e outros ecossistemas. O documento alerta que essa lógica não pode ser interpretada como autorização para ampliar emissões fósseis sob a justificativa de compensação ambiental. Vista aérea de floresta e rios da Amazônia Valter Campanato/Agência Brasil “Uma política climática ideal passa por duas coisas: parar de colocar carbono fóssil na atmosfera e, ao mesmo tempo, armazenar mais carbono em forma de biomassa”, diz André Castro. Há uma diferença estrutural entre o carbono fóssil e o carbono armazenado em florestas. “O carbono fóssil estava armazenado no subsolo há milhares de anos. Já o carbono em biomassa está muito mais suscetível de voltar à atmosfera, seja por desmatamento, degradação ou incêndios”, afirma. O relatório argumenta que reflorestamento e conservação são fundamentais, mas não substituem a necessidade de descarbonização estrutural da economia global. Brasil no debate sobre petróleo e floresta No caso brasileiro, a pesquisa detalha que a estratégia climática segue fortemente associada à redução do desmatamento e ao papel do setor florestal na remoção de carbono. O Brasil utiliza 2005 como ano-base e projeta emissões de aproximadamente 1,2 GtCO₂e em 2030 e 845 MtCO₂e em 2035. André Castro analisa que a floresta tropical brasileira tem papel decisivo no equilíbrio climático regional e global. “Florestas são reguladores climáticos importantes não só pela questão das emissões, mas também pela disponibilidade de chuva e equilíbrio climático”, afirma. Ao mesmo tempo, o especialista, que é colunista do Um Só Planeta, considera que o Brasil ainda precisa amadurecer o debate sobre expansão de combustíveis fósseis. “Ainda existem novas frentes de petróleo que o Brasil deseja explorar. Então é importante entender que aumento de florestas não compensa novas emissões por queima de combustíveis fósseis”, afirma. A foz do rio Amazonas, área de prospecção de petróleo offshore visada por empresas de Brasil, Suriname e Guiana Landsat/Nasa Apesar disso, ele reconhece que o país possui vantagens relativas em comparação com outras economias emergentes. “O Brasil tem uma matriz energética razoavelmente limpa, com forte participação de hidrelétricas, além da expansão da energia solar e eólica”, diz. Transparência climática ganha peso Outro eixo do relatório é o fortalecimento dos sistemas de transparência e monitoramento climático. Há um avanço na formulação das metas e no fortalecimento da transparência, contudo, como citado, diferenças metodológicas exigem cautela na leitura da ambição climática. Segundo André Castro, políticas climáticas bem-sucedidas dependem de mudanças concretas de comportamento econômico e industrial. “As políticas mais bem-sucedidas são aquelas que conseguem transformar comportamentos”, afirma. Ele cita como exemplos: investimentos em transição energética; incentivos econômicos para reduzir emissões; pressão de mercado por produtos menos intensivos em carbono; além de sistemas robustos de monitoramento. “Quanto maior a transparência, maior também a pressão social e econômica para mudanças de rota”, afirma. Saída dos EUA reduziu dinheiro climático O relatório também dedica atenção ao impacto da nova saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris em 2026. Um dos efeitos mais imediatos foi de ordem financeira. “Os Estados Unidos eram um dos maiores financiadores de iniciativas climáticas. Hoje existe menos dinheiro disponível para políticas ambientais no mundo”, afirma. Isso aumentou a pressão sobre outros países desenvolvidos, como Canadá, Japão e União Europeia, embora nenhum deles tenha assumido plenamente essa lacuna. Ainda assim, ele avalia que a saída americana não provocou um “efeito dominó” entre outras economias. “Existe uma percepção de que essa é uma política específica do governo Trump (Donald Trump, atual presidente dos EUA) e uma expectativa de que os Estados Unidos possam voltar ao acordo em uma futura alternância de poder”, afirma. “A realidade começa a se impor” Apesar das dificuldades, André Castro avalia que a agenda climática ganhou consistência nos últimos anos, especialmente após o Global Stocktake de 2023, que explicitou a distância entre o esforço atual e o necessário para limitar o aquecimento global. Os efeitos da crise climática começam a ser percebidos de forma concreta pela população. “As pessoas começam a perceber que está mais calor, que as secas são mais intensas, que as chuvas estão mais extremas. O agricultor percebe isso diretamente na produtividade”, afirma. Para o diretor-técnico da LACLIMA, esse cenário reduz espaço para discursos negacionistas e aumenta a tendência de pressão por descarbonização. “O negacionismo vai perdendo espaço pela realidade que se impõe”, finaliza. Mais Lidas",
"title": "LACLIMA aponta avanço das metas climáticas do G20, mas alerta: proteger florestas não substitui corte de combustíveis fósseis"
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