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"textContent": "\nA edição deste ano da Brazil Week em Nova Iorque consolidou uma mudança importante no debate global. O que até poucos anos atrás era tratado como agenda ambiental, pauta ESG ou discussão diplomática paralela passou definitivamente para o centro das decisões econômicas, industriais e geopolíticas. Ao longo de quatro dias de encontros promovidos por bancos, grupos empresariais e associações de negócios brasileiras, estadunidenses e internacionais, um tema apareceu de forma recorrente em praticamente todas as conversas: o mundo entrou definitivamente na era da disputa por ativos naturais, energéticos e alimentares. Segurança alimentar, segurança energética, inteligência artificial, minerais críticos, fertilizantes, data centers, semicondutores, infraestrutura digital e reorganização das cadeias produtivas passaram a ocupar o centro das discussões entre empresários, investidores, parlamentares e representantes internacionais. A sensação predominante era clara. A lógica da eficiência globalizada, que marcou as últimas décadas, começa a ser substituída por uma lógica de segurança econômica, soberania industrial e redução de vulnerabilidades geopolíticas. Em diferentes mesas, executivos e investidores destacaram como o crescimento exponencial da inteligência artificial está ampliando drasticamente a demanda global por energia, minerais estratégicos e infraestrutura computacional. A expansão dos data centers apareceu repetidamente associada à necessidade de energia abundante, estável e sustentável. Fertilizantes e cadeias alimentares passaram a ser tratados não apenas como temas agrícolas, mas como ativos estratégicos para estabilidade global. Ao mesmo tempo, representantes políticos e empresariais dos EUA reforçaram a crescente preocupação do país com dependências industriais críticas, especialmente em relação à China. Em um dos eventos, Mike Pompeo afirmou que energia, tecnologia, cadeias produtivas, moedas, inteligência artificial e logística passaram a fazer parte de uma mesma disputa estratégica global. Em outro momento, Donald Trump Jr. defendeu o fortalecimento econômico das Américas e maior integração hemisférica como resposta à crescente fragmentação geopolítica. Por outro lado, empresários latino-americanos presentes demonstraram uma visão mais pragmática e menos ideológica sobre esse novo cenário. Em diferentes conversas, prevaleceu a percepção de que o desafio não será escolher lados em uma disputa entre Estados Unidos e China, mas entender como navegar um mundo cada vez mais multipolar, fragmentado e competitivo. Talvez o principal insight da semana tenha sido justamente perceber como o Brasil passou a ocupar um espaço singular dentro dessa reorganização global. Em praticamente todos os debates, o país apareceu associado a cinco grandes temas estratégicos: energia, alimentos, minerais críticos, expansão industrial e estabilidade diplomática. Poucos países hoje conseguem reunir simultaneamente abundância energética, liderança agrícola, capacidade mineral, matriz relativamente limpa, escala territorial e relações relevantes tanto com Estados Unidos quanto com China e Europa. Esse novo posicionamento ficou simbolicamente evidente durante a própria semana em Nova Iorque. Enquanto os encontros aconteciam, o presidente Donald Trump viajou para uma reunião estratégica com o líder chinês Xi Jinping levando ao seu lado uma delegação de empresários de tecnologia e indústria. Entre eles estava Cristiano Amon, CEO da Qualcomm, que foi um dos homenageados durante a semana do Brasil em Nova Iorque. A imagem sintetiza bem a complexidade deste novo momento histórico. Ao mesmo tempo em que cresce o discurso de rivalidade estratégica entre Estados Unidos e China, aumenta também a interdependência econômica, tecnológica e industrial entre as duas potências. As falas de Mike Pompeo talvez tenham representado a visão mais dura e ideológica desse novo cenário. Em vários momentos, ele associou diretamente energia à segurança, inteligência artificial à poder geopolítico, cadeias produtivas à soberania, tecnologia à defesa e informação à guerra estratégica. Sua visão foi muito mais binária e civilizacional do que a apresentada pelos empresários latino-americanos presentes. Enquanto representantes dos EUA enfatizavam rivalidade estratégica com a China, muitos investidores e empresários latinos pareciam mais focados em como navegar pragmaticamente neste mundo que se apresenta. E talvez justamente aí esteja o ponto mais interessante. Porque, ao final da semana, ficou evidente que os temas tradicionalmente associados à sustentabilidade finalmente migraram para o centro da agenda econômica global. Mas também ficou evidente uma ausência curiosa: havia relativamente poucos especialistas da área nas mesas principais. As discussões passaram a girar exatamente em torno de temas que esse ecossistema debate há anos – transição energética, bioeconomia, fertilizantes sustentáveis, minerais críticos, adaptação, cadeias industriais estratégicas –, mas agora traduzidos para a linguagem de segurança econômica, infraestrutura estratégica, competitividade industrial, soberania tecnológica e geopolítica. Muitos investidores, inclusive, comentaram que tiveram que rever a “linguagem” das teses de seus fundos para não fazer referência direta a ESG ou sustentabilidade. Certamente estamos entrando em uma nova fase da transição global: os temas da nova economia de baixo carbono podem não estar sendo impulsionados apenas por consciência ambiental e planetária, mas por interesse econômico, segurança energética, disputa tecnológica e reorganização das cadeias produtivas globais. A grande questão agora é saber se conseguiremos unir definitivamente essas agendas. Porque o verdadeiro desafio dos próximos anos não será apenas climático ou econômico. Será provar que é possível construir um modelo capaz de gerar simultaneamente competitividade, retorno financeiro, regeneração ambiental, estabilidade social e prosperidade humana. E poucos países parecem hoje tão bem-posicionados para testar essa hipótese quanto o Brasil. Mais Lidas",
"title": "Brazil Week: por que o Brasil agora está no centro da nova disputa global?"
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