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Após desocupação, ouro ilegal continua reorganizando cidades da Amazônia, aponta estudo

Um só Planeta [Unofficial] May 11, 2026
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A retirada de garimpeiros ilegais das Terras Indígenas Munduruku, no sudoeste do Pará, reduziu parte da pressão direta sobre o território indígena, mas não interrompeu a engrenagem econômica que sustenta a atividade na região. Um estudo inédito do Instituto Mãe Crioula, em parceria com a Universidade do Estado do Pará (Uepa), aponta que o garimpo ilegal segue reorganizando cidades, rotas comerciais e estruturas urbanas mesmo após as operações federais de desintrusão realizadas em 2025 em Jacareacanga. O relatório “O Circuito Espacial do Garimpo Ilegal no Pós-Desintrusão” conclui que a mineração ilegal funciona como um sistema econômico regional complexo, com articulações entre comércio, transporte, abastecimento de combustível, circulação financeira e rotas clandestinas na Amazônia. Comércio mostra a importância da exploração do ouro nas cidades paraenses Divulgação/Instituto Mãe Crioula “O relatório demonstra que o garimpo ilegal no Tapajós funciona como um circuito econômico e logístico complexo, com extração, circulação, financiamento e comercialização do ouro”, explicou o geógrafo Aiala Colares de Oliveira Couto, doutor em Ciências do Desenvolvimento Socioambiental pela Universidade Federal do Pará (Ufpa), professor da Uepa e diretor-presidente do Instituto Mãe Crioula, em entrevista ao Um Só Planeta. Na visão do pesquisador, desmontar apenas os acampamentos de garimpo não é suficiente para impedir a reorganização da atividade. “Seria necessário atacar principalmente os mecanismos de comercialização do ouro, especialmente as Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários e pontos de compra que legalizam ouro de origem ilícita”, alegou Aiala. A pesquisa foi realizada a partir de trabalho de campo, entrevistas, registros fotográficos com drones, análise cartográfica e imagens de satélite, buscando compreender as transformações territoriais e econômicas após a retirada de não indígenas das áreas invadidas. Economia O estudo enfatiza que o garimpo ilegal não opera isoladamente dentro da floresta, no entanto, depende de uma ampla cadeia econômica que inclui postos de combustíveis, oficinas mecânicas, serviços de transporte, comércio urbano e estabelecimentos financeiros. “Também é fundamental controlar a cadeia de insumos, como combustíveis, mercúrio, cianureto, maquinários e peças de reposição, que abastecem continuamente as frentes garimpeiras”, argumenta Aiala. O pesquisador também aponta que balsas fluviais, pistas clandestinas e rotas terrestres e fluviais continuam funcionando como elementos estruturantes da atividade ilegal. “As redes logísticas garantem mobilidade e abastecimento ao circuito ilegal”, afirmou. O relatório destaca ainda que a ilegalidade acaba sendo “naturalizada” na dinâmica regional porque parte dessa estrutura se mistura a atividades formalmente legais. Se não bastasse, o estudo aponta conexões entre garimpo ilegal, lavagem de dinheiro e mercados internacionais do ouro. “O estudo também aponta a necessidade de enfrentar mecanismos de lavagem de dinheiro e as conexões entre garimpo, narcotráfico e mercados internacionais do ouro”, acrescentou Aiala. Minero-dependência no sudoeste do Pará Um dos conceitos do relatório é o de “minero-dependência”, definido pelos pesquisadores como um modelo em que economias urbanas e rurais passam a girar quase inteiramente em torno da extração mineral ilegal. A pesquisa detalha que cidades como Itaituba e Jacareacanga consolidaram, ao longo de décadas, estruturas econômicas diretamente associadas à circulação do ouro no Vale do Tapajós. A própria infraestrutura urbana passou a refletir essa dependência, incluindo comércio especializado, lojas de insumos para maquinário de garimpo e forte circulação financeira. Em Itaituba, considerada um dos principais polos econômicos do sudoeste paraense, moradores e comerciantes relataram queda significativa na movimentação financeira após as operações de desintrusão. “Com a saída dos garimpeiros, moradores e comerciantes relataram ter havido uma redução significativa no movimento econômico”, afirma o relatório. A pesquisa alerta que, sem alternativas econômicas estruturadas, operações federais tendem a produzir efeitos temporários. “Sem ações estruturais sobre essas redes, as operações estatais tendem a produzir efeitos temporários, com possibilidade de reorganização da atividade em outras áreas ou posterior retorno aos territórios desintrusados”, indica o documento. Pressão sobre rios e territórios indígenas Além da reorganização econômica, o estudo identificou impactos persistentes nos rios e ecossistemas da região. Os pesquisadores registraram mudanças no leito dos cursos d’água, processos de assoreamento e alterações na qualidade da água após anos de atividade garimpeira. Curso dos rios é diretamente impactado pela exploração ilegal de ouro Divulgação/Instituto Mãe Crioula Ainda de acordo com o relatório, esses efeitos atingem diretamente as formas tradicionais de vida dos povos Munduruku, que dependem dos rios para alimentação, transporte e atividades cotidianas. “O relatório evidencia que essas demandas são interdependentes, mas aponta algumas prioridades imediatas”, afirmou Aiala. Entre elas, segundo o pesquisador, estão: vigilância territorial com participação indígena; recuperação ambiental; monitoramento da contaminação por mercúrio; fortalecimento de cadeias produtivas sustentáveis. “Em primeiro lugar, destaca-se a vigilância territorial com participação ativa dos próprios Munduruku, considerada estratégica para evitar o retorno do garimpo e fortalecer a autonomia indígena”, afirmou. O desafio do pós-garimpo Superar a dependência econômica do ouro exige modelos de desenvolvimento adaptados às realidades amazônicas e baseados no fortalecimento das economias indígenas e comunitárias. Entre as alternativas apontadas estão sistemas agroflorestais, manejo florestal comunitário, reflorestamento, agroecologia, pesca, extrativismo e fortalecimento de cadeias da sociobiodiversidade. “O desafio não é apenas gerar renda, mas construir modelos econômicos territorialmente sensíveis, capazes de fortalecer a autonomia local, conservação ambiental e permanência das populações tradicionais em seus territórios”, afirmou Aiala. Para os autores, a experiência no sudoeste do Pará mostra que o combate ao garimpo ilegal não depende apenas de operações policiais ou militares, mas de uma presença contínua do Estado e da criação de alternativas econômicas sustentáveis para municípios historicamente organizados em torno do ouro. Mais Lidas

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