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O papel dos povos indígenas na agenda climática global

Um só Planeta [Unofficial] May 5, 2026
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A crise climática obrigou o mundo a encarar uma pergunta decisiva: quem, de fato, protege os ecossistemas dos quais depende o equilíbrio do planeta? Na Amazônia, essa resposta passa, necessariamente, pelos povos indígenas. Durante muito tempo, o papel dos povos indígenas no debate sobre as mudanças climáticas e a conservação ambiental foi tratado de forma periférica, quase como um elemento marginal. Essa visão já não se sustenta. Há hoje evidências consistentes de que os povos indígenas ocupam uma posição estratégica na agenda climática global, não apenas porque conservam a floresta, mas porque acumulam saberes, práticas e formas de governança territorial fundamentais para enfrentar a crise do clima. O próprio IPCC reconhece a relevância dos conhecimentos indígenas e locais para compreender riscos climáticos e fortalecer estratégias de adaptação e mitigação mais eficazes. Os povos indígenas vêm assumindo uma participação crescente em fóruns nacionais e internacionais, e isso deve aumentar. Esse reconhecimento não é abstrato. Na Amazônia, terras indígenas apresentaram uma participação de 1,3% no desmatamento, enquanto as unidades de conservação federais e estaduais registraram percentuais superiores, segundo dados do MapBiomas com base no Relatório Anual do Desmatamento 2024, publicado em 2025. Nos últimos 5 anos, esse padrão se mantém: as terras indígenas registraram cerca de 1% de área desmatada, enquanto as unidades de conservação federais ficaram em torno de 4% e as estaduais em cerca de 7%. Esse contraste revela, de forma objetiva, o papel desses territórios na conservação da biodiversidade e na contenção do desmatamento. Essa proteção tem impacto direto no equilíbrio climático global. Não se trata apenas de conservar florestas, mas de evitar que os estoques de carbono virem fumaça e contaminem a atmosfera, e também de proteger a biodiversidade e manter serviços ambientais essenciais para o funcionamento do clima, especialmente o regime de chuvas. A dimensão desse protagonismo também aparece em escala global. A ONU aponta que cerca de 36% das florestas remanescentes estão em terras de povos indígenas. Esses números mostram que os povos indígenas são agentes centrais para o equilíbrio climático global e o futuro da humanidade. Mas há uma contradição que precisa ser enfrentada. Ao mesmo tempo em que os povos indígenas são decisivos para a conservação da Amazônia, continuam entre os mais expostos aos impactos das mudanças climáticas e entre os menos atendidos por políticas públicas municipais, estaduais e federais. Isso é um dos casos mais emblemáticos de injustiça climática em todo o mundo. Os índices de pobreza multidimensional são muito maiores entre os povos indígenas do que a média da população brasileira. No Brasil, segundo dados do IBGE de 2024, o país tinha 1.694.836 pessoas indígenas, distribuídas em 391 etnias e 295 línguas indígenas. Estamos falando de uma enorme diversidade de povos, territórios e formas de conhecimento que não pode ser tratada de forma homogênea. Reconhecer o papel dos povos indígenas na agenda climática global exige ir além do discurso. É preciso garantir proteção territorial, financiamento e assistência técnica para a geração de renda, empoderamento de associações e outras formas de representação, acesso à infraestrutura e serviços básicos, como água potável, energia limpa, conectividade, educação e saúde. Essa agenda complexa requer uma abordagem sistêmica. Os governos precisam aprimorar suas políticas públicas, aproveitando melhor as inovações desenvolvidas por organizações da sociedade civil e instituições de pesquisa. Também é preciso superar uma visão ultrapassada de desenvolvimento, na qual as terras indígenas são muitas vezes vistas como sendo obstáculos ao desenvolvimento regional. Ao conservarem suas florestas, os povos indígenas se tornam provedores de serviços ambientais, protegendo nascentes dos rios e contribuindo para o equilíbrio das chuvas local e regionalmente. Não existe solução para o enfrentamento da emergência climática no Brasil sem o adequado reconhecimento do papel dos povos indígenas. Isso significa dar prioridade e ampliar o investimento em adaptação às mudanças climáticas em terras indígenas. Tanto governos quanto a filantropia e o investimento social privado devem ampliar os orçamentos destinados à proteção da natureza por povos indígenas. Ignorar a relevância desse protagonismo não é apenas uma injustiça histórica: é uma escolha ineficiente diante da urgência climática. Isso afeta diretamente o futuro do Brasil, especialmente a produção agropecuária, a geração de energia elétrica e o abastecimento urbano de água. Mais Lidas

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