External Publication
Visit Post

Oito vezes mais carne e sem auditoria das fazendas fornecedoras indiretas: o que o Brasil não comprova ao exportar para os EUA

Um só Planeta [Unofficial] April 29, 2026
Source
Em 2025, o Brasil exportou 271,8 mil toneladas de carne bovina para os Estados Unidos, oito vezes mais do que em 2016, quando o volume era de 33,2 mil toneladas. O crescimento acelerou a partir de 2020 (59.669 toneladas), mais do que dobrou em 2021 (138.615 toneladas) e atingiu novo recorde no ano passado. Por trás desse desempenho estão fatores como a inflação dos EUA de alimentos e as pressões climáticas sobre a produção global, inclusive em fornecedores tradicionais como a Austrália. O problema é que essa expansão não veio acompanhada de um avanço equivalente na capacidade de comprovar a origem do produto. Um novo estudo do Radar Verde analisou todas as empresas da Amazônia Legal habilitadas a exportar carne bovina para os Estados Unidos. O resultado é que 100% dos frigoríficos apresentaram efetividade baixa ou muito baixa em suas políticas de controle do desmatamento. Ao todo, foram avaliadas 7 empresas responsáveis por 15 frigoríficos. Os números do levantamento revelam que 11 dos 15 frigoríficos demonstraram algum nível de controle sobre seus fornecedores diretos, que são as fazendas que vendem gado diretamente para frigoríficos e abatedouros. Mas nenhuma empresa publicou dados auditados sobre fornecedores indiretos, que são as fazendas que estão um passo antes na cadeia, revendendo animais para os fornecedores diretos. É justamente nesse elo que se concentra uma das principais fragilidades apontadas pelo estudo. Sem rastreabilidade verificada ao longo de toda a cadeia, não é possível afirmar com segurança que o gado abatido não esteja associado, direta ou indiretamente, a áreas embargadas, ao desmatamento recente ou a regiões com maior risco futuro de conversão florestal entre 2025 e 2027. A exposição ao risco de desmatamento de cada frigorífico varia de 144 mil hectares, área maior que a do município do Rio de Janeiro, a 2,8 milhões de hectares, equivalente ao estado de Alagoas. A empresa com maior exposição é a Frialto (Vale Grande Indústria e Comércio de Alimentos S/A), com dois frigoríficos licenciados para exportar aos EUA, um localizado no município de Matupá, em Mato Grosso, e o outro em Ji-Paraná, no estado de Rondônia. Em 2025, 93% dos frigoríficos analisados assinaram Termos de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público Federal, comprometendo-se formalmente a não adquirir gado de fazendas associadas ao desmatamento ilegal. Ainda assim, quando o Radar Verde buscou informações diretamente com essas empresas em 2025, nenhuma respondeu sobre suas políticas de controle. A distância entre o compromisso assumido e a transparência praticada aparece, portanto, como um dos principais gargalos revelados pela análise. O que o Forest Act exigiria Esse cenário ganha contornos regulatórios quando confrontado com a proposta do Forest Act 2023, legislação estadunidense em tramitação no Congresso dos EUA que incluiria a carne bovina entre as commodities sujeitas a controle de origem. Pela proposta, importadores seriam obrigados a rastrear toda a cadeia de fornecedores, incluindo diretos e indiretos, e declarar eletronicamente que nenhum produto veio de terra ilegalmente desmatada. Os dados sobre a cadeia e os sistemas de controle deveriam ser públicos e atualizados anualmente. Nas condições atuais, a análise do Radar Verde demonstra que as empresas brasileiras não estariam em conformidade com esses requisitos se a lei entrasse em vigor hoje. Isso acende um alerta para um mercado que, em 2022, já movimentava cerca de US$ 1,1 bilhão em importações estadunidenses de carne e couro brasileiros. A proposta também prevê que as empresas que comprovarem a origem sustentável de seus produtos teriam vantagem de 10% no preço em licitações públicas dos EUA, um diferencial competitivo direto para quem se adequar primeiro. O que o estudo recomenda O Radar Verde apresenta um conjunto de recomendações dirigidas tanto às empresas quanto ao governo dos Estados Unidos. No lado das compras, sugere priorizar frigoríficos localizados em regiões de menor risco de desmatamento e exigir políticas que cubram fornecedores diretos e indiretos, com verificação por auditorias independentes. No plano estrutural, recomenda que os governos brasileiros (federal e estaduais) tornem públicos os dados de rastreabilidade do gado, como as Guias de Trânsito Animal (GTAs), integrados às informações ambientais das propriedades rurais, como o Cadastro Ambiental Rural (CAR) e os Planos de Recuperação Ambiental (PRA). Essa integração tornaria o monitoramento mais viável para as próprias empresas. O estudo propõe ainda que o Forest Act vá além do desmatamento ilegal e passe a incluir a proibição de importações associadas a áreas recentemente desmatadas, mesmo quando o desmatamento tenha ocorrido dentro da legalidade. O argumento é que, sem esse avanço, o problema pode apenas se deslocar, especialmente em um contexto em que anistias ambientais, como a de 2012 no Brasil, historicamente estimularam novos ciclos de destruição florestal. Comércio e floresta são um nó a desatar O que está em jogo não se resume à reputação das empresas ou ao acesso a um mercado específico. O estudo enquadra a questão na dimensão da relação entre conservação florestal, estabilidade climática e segurança alimentar. Eventos climáticos extremos já pressionam a produção global de alimentos, e a conservação das florestas é parte dessa equação. O desafio, portanto, não é interromper o crescimento das exportações, mas garantir que esse crescimento seja sustentado por cadeias que possam demonstrar, com evidências verificáveis e auditadas, que estão livres do desmatamento. O estudo mostra que, hoje, essa demonstração ainda não existe e o mercado estadunidense já discute instrumentos para exigi-la. *Dayane Nascimento é jornalista e coordenadora de projetos em O Mundo Que Queremos. Mais Lidas

Discussion in the ATmosphere

Loading comments...