De maionese a cerveja: biodigestores transformam resíduos industriais em energia e cortam emissões
Um só Planeta [Unofficial]
April 17, 2026
Transformar resíduos industriais em energia limpa deixou de ser uma promessa distante. Empresas de grande porte têm investido em biodigestores - que são sistemas que convertem matéria orgânica em biogás - como estratégia para reduzir emissões de gases de efeito estufa, cortar custos e avançar na economia circular. Do processamento de alimentos à produção de bebidas, exemplos recentes mostram como diferentes cadeias industriais estão adaptando a tecnologia a desafios específicos, com benefícios ambientais e até operacionais. Na indústria alimentícia, um dos casos emblemáticos vem da Unilever, que conseguiu converter resíduos de maionese em biogás em sua fábrica de Pouso Alegre (MG). O desafio não era simples: produtos ricos em óleos e graxas, como a maionese, são formulados justamente para resistir à degradação, o que dificulta sua decomposição em sistemas biológicos. “O grande desafio foi quebrar a estabilidade de um produto pensado para não se degradar facilmente. Conseguimos estruturar um sistema biológico capaz de lidar com essa complexidade de forma controlada”, afirma o responsável técnico pelo projeto, Rodrigo Cano. A solução envolveu a combinação de biodigestão com inteligência artificial. Um sistema monitora variáveis como temperatura e composição do gás para prever falhas e otimizar a produção. “Hoje conseguimos prever desvios e aumentar a eficiência da geração de biogás com mais segurança”, afirma Cano. Com isso, a unidade consegue evitar a emissão de até 400 toneladas de CO₂ por ano e utiliza o próprio biogás para manter o processo industrial, o que reduz a dependência de combustíveis fósseis. “Transformamos um resíduo complexo em uma fonte de energia limpa, com impacto direto na redução de emissões e na eficiência da fábrica”, destaca o diretor da unidade, Edmundo Mollo. Da cerveja ao biometano: a indústria reaproveita resíduos Na Ambev, o uso de biodigestores está diretamente conectado à rotina industrial. Em entrevista ao Um Só Planeta, o head de Sustentabilidade da companhia, Luiz Talarico, detalhou como o biogás tem sido incorporado à operação. “O biogás, especialmente na forma de biometano, desempenha um papel estratégico em nossas operações industriais ao substituir o gás natural fóssil em processos térmicos, como caldeiras e fornos”, afirma. A base do processo está no reaproveitamento de efluentes das cervejarias. A empresa utiliza principalmente resíduos industriais ricos em matéria orgânica, que passam por decomposição anaeróbica, processo no qual microrganismos atuam na ausência de oxigênio e geram biogás com alta concentração de metano. Após purificação, o combustível atinge padrão elevado de qualidade. “Esse biogás é purificado até atingir níveis superiores a 90% de metano, tornando-se biometano, que utilizamos diretamente nos nossos processos industriais”, explica Luiz. Luiz Talarico: o uso de biometano já está em etapas diversas da cadeia produtiva Divulgação Um dos diferenciais, segundo Talarico, é a facilidade de integração com a estrutura existente. “Utilizamos esse biocombustível sem necessidade de grandes adaptações nos equipamentos, o que garante continuidade operacional”. Impacto nas emissões O ganho climático aparece como um dos principais resultados da estratégia. De acordo com a Ambev, a substituição do gás natural por biometano pode reduzir em até 99% as emissões associadas aos processos térmicos. Além disso, há impacto na gestão de resíduos. “Ao recuperarmos o biogás gerado no tratamento de efluentes, evitamos sua liberação ou queima sem aproveitamento, ampliando ainda mais o impacto positivo em nossa pegada de carbono”, informa Talarico. Operação da fábrica de cerveja avança para ser mais sustentável Divulgação/Ambev O uso do biometano também já avança para outras etapas da cadeia produtiva. No Rio de Janeiro, o gás é utilizado em uma fábrica de vidros da companhia. Nesse contexto, o biometano abastece fornos de produção de embalagens, para a fabricação de garrafas com menor intensidade de carbono. Economia circular Com diferenças entre os projetos, mas há um ponto em comum: o reaproveitamento de resíduos como insumo energético. Na prática, isso significa transformar passivos ambientais, como efluentes industriais ou restos de produção, em ativos estratégicos dentro da própria operação. “A tecnologia permite transformar resíduos em energia renovável, promovendo a economia circular e reduzindo significativamente as emissões de gases de efeito estufa”, afirma Talarico. Saiba mais Desafios A expansão dos biodigestores ainda enfrenta entraves no Brasil, principalmente ligados à infraestrutura e ao custo. “Como ainda não há ampla rede de distribuição conectada, dependemos do transporte por caminhões, o que exige planejamento logístico rigoroso”, explica o executivo. Ele também aponta limitações de mercado. “A oferta ainda é limitada e os custos são mais elevados em relação ao gás natural, o que representa um desafio para a expansão” Mesmo com os desafios e as soluções de problemas operacionais, a tendência é de que o biogás ganhe espaço na indústria nos próximos anos. Os exemplos de Unilever e Ambev indicam que a tecnologia começa a se consolidar como solução viável para reduzir emissões e dar destino mais eficiente a resíduos industriais, até então, um dos principais gargalos ambientais do setor. Mais Lidas
Discussion in the ATmosphere