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  "textContent": "\nDa areia da praia, uma formiga observava o mar. As baleias passando, o azul imenso... Tudo aquilo despertou uma paixão. Hoje, prestes a completar 80 anos, a 'Formiga', como a tripulação chama Heloisa Schurmann, completou quatro voltas ao mundo nos mares, além de inúmeras outras expedições com a família de navegadores mais famosa do Brasil. Em conversa com Um Só Planeta, a navegadora e ativista aponta para o plástico, especialmente o chamado “descartável”, como maior ameaça aos oceanos. Heloisa lembra que há no Congresso uma proposta de projeto de lei para proibir a fabricação de itens plásticos de uso único, como talheres, copos e pratos, uma vez que muitos acabam no fundo do mar, ou ainda, no estômago de animais, como os Schurmann já mostraram nos registros de suas viagens e a comunidade científica vem alertando ano após ano. “Esse microplástico é o grande vilão também, sendo ingerido por animais bivalves e outros, entrando nessa cadeia alimentar e nós estamos consumindo esse microplástico em todas as partes do mundo”, ressalta a velejadora. A última expedição dos Schurmanns, Voz dos Oceanos, foi dedicada à pesquisa ambiental, em parceria com a USP (Universidade de São Paulo), recolhendo amostras em várias partes do mundo e terminando na COP30, em Belém. Heloisa conversou com a reportagem do Um Só Planeta após ler para mais de uma centena de crianças em Lauro de Freitas (BA). Seus livros infantis contam a história de Kat, uma heroína que luta contra a poluição dos mares, inspirada na filha adotiva falecida em 2006, aos 13 anos de idade, devido a complicações decorrentes do vírus HIV, do qual era portadora desde seu nascimento. Além de discorrer sobre as ameaças aos mares, e também as soluções que já estão em prática para salvar este patrimônio global, Heloisa contou um pouco sobre a vida com a família no mar, que incluiu a educação dos filhos longe das escolas. “Era como dois tijolos de uma tonelada nos meus ombros tirar as crianças da escola em 1984, de uma vida normal. Tinha que ter uma disciplina muito grande. Sem isso, eu caía na lábia deles, ‘olha que lindo o mar, vamos nadar, depois a gente tem aula’ [m”, conta, entre risos e muita determinação em defender o oceano, a vida livre e o direito de sonhar. Leia a entrevista a seguir. Um Só Planeta: a sra vai completar 80 anos, praticamente 50 deles no mar. Com essa experiência, o que diria que é mais urgente fazer pelos oceanos? Heloisa Schurmann: cuidar, a palavra é cuidar. Precisamos de mais consciência de que dependemos dos oceanos. Pensamos que só quem mora na praia precisa cuidar, mas todos dependemos dos oceanos porque eles são o pulmão do mundo, responsáveis por mais de 50% do oxigênio que respiramos. Com a experiência de navegar pelo mundo, penso que se não cuidarmos dos oceanos, não vamos respirar. Um Só Planeta: o plástico é realmente o grande vilão dos oceanos? Heloisa Schurmann: é o primeiro vilão do oceano, o grande poluidor. Estamos sendo praticamente sufocados pelos plásticos nos oceanos do mundo. Não é que o plástico vai parar na praia, ele está em todas as partes. E tem o agravante de vermos os grandes plásticos, isopor, garrafas, mas com o tempo ele vai se quebrando e forma o microplástico. Esse microplástico é o grande vilão também, sendo ingerido por animais bivalves e outros, entrando nessa cadeia alimentar e nós estamos consumindo esse microplástico em todas as partes do mundo. Navegamos quatro anos na expedição Voz dos Oceanos [2021-2025] e todos os lugares que passamos tinha plástico, em qualquer lugar do mundo. É muito assustador que nós fomos a lugares como a Indonésia, e de repente o veleiro parou porque estávamos cercados de plástico. Veleiro Kat, da Família Schurmann, atravessa ilha de plástico no Oceano Índico. Divulgação Um Só Planeta: o veleiro encalhou no plástico? Heloisa Schurmann: era como se estivéssemos encalhados. Paramos o barco porque não podíamos continuar, para não afetar as hélices dos motores. Acontecia várias vezes… Estávamos nadando e de repente vem um rio de plástico, eu era agredida por garrafa de xampu, recipientes, copinhos, pote de margarina. É um choque muito grande. Aqui no Brasil vemos muito isso acontecer nos fins de ano, com as festas, as praias ficam cobertas pelo plástico, então imagine os oceanos. Um Só Planeta: que tipo de soluções a sra. vem acompanhando? Heloisa Schurmann: uma das grandes motivações que temos é que todo esse grande panorama terrível dos plásticos tem um lado oposto. Cada vez mais encontramos ONGs, entidades, comunidades trabalhando para combater esse cenário. São soluções às vezes simples, às vezes científicas, e soluções que funcionam. Na Costa Rica, temos uma empresa que faz tijolos para construção de baixo custo com plástico 100% reciclado. É 10% de massa e o resto plástico, fazem blocos para a construção de casas populares. Eles hoje estão expandindo para África do Sul, Austrália e em contato com o Brasil. É algo que começou com um engenheiro fazendo casas, uma coisa simples, não é uma máquina de milhões de dólares. No Brasil, a Tramontina está recolhendo plástico nas praias para fazer cadeiras. Temos as limpezas das praias, catadores, distribuidores, há soluções na indústria, de cidadãos… E lógico que hoje trabalhamos no lado político dessa situação. Está parado no Congresso há dois anos o PL 2524, que pede a proibição da fabricação do plástico de uso único como balões de festa, pratos, copos, que são grandes causadores da poluição. Não é enxugar gelo, as pessoas estão envolvidas e querem ajudar. Eu sou carioca e via baleia no mar, mas era uma coisa rara, que saía em jornal quando acontecia. Hoje são mais de 20 mil baleias-jubarte que visitam o Brasil anualmente. Isso aconteceu porque tem ONGs que divulgaram, ensinaram as pessoas nas redes sociais, pela televisão, para mostrar a realidade. Dificilmente as pessoas veem que dependem do oceano. é para ir para a praia, fazer esporte… Mas quando elas sentem que o oceano ajuda na sua vida, eles começam a cuidar. Um Só Planeta: sobre a vida no mar, como definiria uma rotina com tantos papéis? Heloisa Schurmann: eu sou um polvo, são vários braços para mexer. Desde que eu comecei a navegar, cada vez mais é um caso de paixão, um amor pelo oceano. Se eu pudesse fazer alguma coisa hoje pelo mundo, eu diria amem e cuidem dos oceanos. Como mãe, eu abri os braços e deixei o oceano entrar em meu coração. O norte da minha vida é alertar as pessoas em palestras, com meus livros infantis sobre a poluição dos oceanos. O oceano definiu a Heloisa como mãe, professora, mas principalmente como ativista muito ferrenha na defesa dos oceanos. Tudo que faço é pensando na voz dos oceanos, o que podemos desenvolver de melhor. meu sonho é que as pessoas entendam e conheçam mais sobre os oceanos. Como mulher, toda a vida, desde que começamos a navegar, em 1974, lugar de mulher era em casa, com os filhos… Me chamavam de papagaio de pirata do Vilfredo [Schurmann, marido de Heloisa]. Mas eu me colocava para mostrar que eu vou junto, e não sou papagaio. Para manter meu protagonismo como mulher, sempre tive que ter minha palavra, assumir o leme. Nunca tive isso de não fazer algo por ser mulher, que meu cabelo vai desmanchar. Eu tenho que levar o barco como levava o Vilfredo, como hoje leva o Wilham, e trazer com o passar do tempo mais mulheres para a tripulação. Na terceira viagem, tivemos duas mulheres a bordo, e nessa última expedição terminamos com quatro mulheres e dois homens. Nós [mulheres] somos capazes e vamos lá fazer. Gosto de saber que estou inspirando mulheres a realizar seus sonhos. Ver a Tamara Klink inspirando novas gerações é algo maravilhoso. Desistir é uma palavra riscada no meu dicionário. Tenho sonhos, nós vamos atrás, sonhamos juntos. Você tendo as energias sobre o que quer, você faz acontecer. Um Só Planeta: a sra. treinou atendimento de emergência. Quando precisou usar os conhecimentos de primeiros socorros? Heloisa Schurmann: o sentimento de família me fez me preparar para cuidar deles. Isso foi antes da nossa primeira viagem. A principal preocupação é se alguém ficar doente, isso me levou a estudar com meu irmão, médico, no hospital, para entender como eu poderia resolver uma situação de saúde que existisse. Fiz curso de socorrista de ambulância e me preparei para lidar com qualquer situação, sem pânico, como usar remédios etc. Usei esse aprendizado com pessoas de fora da tripulação [os Schurmanns nunca tiveram emergências graves em suas viagens]. Por exemplo, mergulhadores na Venezuela que tinham inflamação de garganta e não tinham recursos. Até hoje, estou alerta às questões básicas também, como alimentação, e termos não só o cuidado, mas cuidar dos outros, ter empatia. Nem sempre a tripulação acorda de bom humor, está feliz a bordo. Dentro da nossa rotina são oito pessoas com idades, nacionalidades e personalidades diferentes. Mergulho da Família Schurmann no Oceano Índico revela a poluição plástica durante expedição Voz dos Oceanos. Reprodução Um Só Planeta: e a educação dos filhos durante as navegações, como conseguiu garantir? Mudaria algo? Heloisa Schurmann: isso vem de uma preparação desde que começamos a navegar. Eram dois tijolos de uma tonelada nos meus ombros, tirar as crianças da escola em 1984, de uma vida normal. Eu via franceses, ingleses que davam homeschooling [ensino doméstico] para os filhos e ia perguntar. A educação desde o início era mais do que se aprende na escola, algo mais abrangente. Nós tínhamos um método da Escola Dinâmica, em Florianópolis, depois os meninos passaram a estudar por uma escola americana, com dever para entregar a cada 20 dias. Mas os meninos estavam no barco, tinha que ter uma disciplina muito grande. Sem isso, eu caía na lábia deles, ‘olha que lindo o mar, vamos nadar, depois a gente tem aula’. A primeira obrigação é com o trabalho, mas com alguma flexibilidade. A leitura foi fundamental na educação deles, história, geografia. Nas primeiras viagens, eu levei 18 volumes de enciclopédia, e hoje temos tudo online. Comecei a dar aula e expandir, quebrei paredes da sala de aula. Por exemplo, estávamos na Martinica, com o vulcão Pelé. Dizia ‘vamos subir e ver o vulcão, entender a história dele’. Imagina estar em Galápagos e ter o Instituto Darwin. Isso não era matéria de escola, era expansão. Assim tem sido a vida inteira. Eu continuo uma eterna aluna, aprendiz. Cada lugar que eu vou, mesmo que já tenha passado nesse lugar, sempre tenho que buscar uma coisa nova, o que mudou no país, posso aprender com esse povo, o que mudou nos oceanos. A vida para mim é uma escola. Isso reflete nos meus filhos: a disciplina, leitura, aprendizado de idiomas e relacionamento com outras pessoas. Meus filhos desciam em uma ilha em Fiji e tinham que brincar com crianças das tribos - tribos mesmo. Pierre estudou administração e hoje trabalha com aquisição de empresas, seguiu a carreira dele. O David trabalha com cinema… Quando ele fez 12 anos, demos uma câmera para ele que ele usou para filmar nossa viagem para cruzar o Canal do Panamá. Fomos sempre respeitando e incentivando. O Wilham não quis fazer universidade, foi ser windsurfista profissional, é a carreira dele. Foi cinco vezes campeão mundial, seguiu o chamado do coração. Cada um deles seguiu sua paixão. Família Schurmann, da esquerda para a direita: David, Vilfredo, Wilhem, Heloisa e Pierre. Crédito: Luciano Candisani / Divulgação Um Só Planeta: uma curiosidade: por que dá azar zarpar na sexta-feira? Heloisa Schurmann: isso é uma superstição que vem da época inglesa das navegações. Dizem eles que zarpar na sexta-feira dá azar. Vai fazer 42 anos que zarpamos no sábado 14, depois de uma sexta-feira 13. Hoje, mesmo com essa modernidade, os barcos ainda não zarpam na sexta. Você não começa uma viagem nesse dia, são várias superstições. Dizem que Cristo foi crucificado na sexta-feira… Nesse mundo marítimo é assim. Sabemos que é superstição, navios hoje partem na sexta, regatas também. Quem vive no mar sabe que o preparo é o que define, mas a gente não sai na sexta, não [risos]. Recentemente, Wilham estava com o [veleiro] Kat no Pará, deu um problema e ele teve que sair no dia seguinte, sexta-feira. Ele esperou e saiu no outro dia. A gente fica embebido nessa lenda, e não sai mesmo. Uma vez esquecemos completamente que era sexta-feira. No segundo dia de viagem, a vela rasgou, começou a dar tudo errado, e nos demos conta que tínhamos saído na sexta. Outra superstição importante para barco a vela é quando você coloca o mastro: você põe uma moeda no pé do mastro, algo que todo mundo faz. Antigamente tinha que passar um estreito no Mediterrâneo, e a moeda era um pagamento aos deuses, para dar sorte na jornada. Cada barco guarda essa moeda no mastro. Um Só Planeta: algo mais que a sra. gostaria de destacar? Heloisa Schurmann: queria falar que mais e mais eu vejo pessoas se aventurando no mar, independentemente da idade que têm. Em Florianópolis, um casal com 80 e 82 anos comprou um barco e vive a bordo de um veleiro. Digo que é preciso viver o seu sonho. Tenha um sonho para poder realizá-lo. Eu continuo realizando meu sonho e hoje entrei na escola de canoa havaiana, que sempre quis aprender e nunca tive oportunidade. Faço aula duas vezes por semana, um novo esporte na minha vida. Digo sempre, não pare de sonhar, com 60, 70, cada vez mais as pessoas vão tendo a oportunidade de longevidade, cuidar da saúde física e da mental. Não percam sua curiosidade. Sem preguiça mental, leia mais, procure se interessar pela vida ao seu redor e também além do horizonte. Mais Lidas",
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