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"textContent": "\nEm 1991, o cientista Carlos Nobre, um dos maiores climatologistas e ambientalistas do país -- e agora nomeado pelo papa Leão XIV como membro do conselho que vai tratar de desenvolvimento humano no Vaticano--, publicou uma hipótese até então inédita sobre a Amazônia. “Mudanças no ciclo hidrológico da região e a ruptura de relações complexas entre animais e plantas podem ser tão profundas que, uma vez destruídas, as florestas tropicais não serão capazes de se restabelecer”, disse ele em artigo. As mudanças desses biomas condicionam o futuro do planeta. “Eu nasci em 1951 e, se viver 90 anos, vou enfrentar umas 15 ondas de calor. Com o mesmo tempo de vida, um bebê que nasce agora vai enfrentar entre 40 e 50 ondas de calor.” Isso, claro, se conseguirmos manter a elevação de temperatura em 1,5 ºC em relação aos níveis pré-industriais. Naquela época, a savanização do bioma com maior diversidade de vida no planeta era uma hipótese remota. Infelizmente, não é mais. Entre 1990 e 2019, a emissão de gases de efeito estufa aumentou 55%. No mesmo período, a região amazônica perdeu entre 15% e 17% de sua cobertura original. “Hoje, a gente sabe que a Amazônia está muito próxima do ponto de não retorno”, afirma Nobre. “O Pantanal e o Cerrado também.” ÉPOCA NEGÓCIOS Como o senhor imagina que será a COP40, em 2035? Carlos Nobre: Infelizmente, não temos mais um futuro previsível. Em vez disso, temos cenários possíveis. A COP40 vai depender muito do que fizermos nos dez anos que nos separam dela. Na COP21, realizada em 2015, os 196 países presentes aprovaram o Acordo de Paris, concordando em não deixar a temperatura global aumentar 2 ºC acima dos níveis pré-industriais. Mas, apesar disso, em 2024 tivemos as mais altas emissões da história. Nesse tempo todo, elas nunca pararam de aumentar. Se a gente não acelerar muito a redução da emissão dos gases de efeito estufa, vamos atingir um aumento permanente de 1,5 ºC antes da COP40. Há um risco enorme de isso acontecer. NEGÓCIOS E a vida no planeta, como fica caso esse aumento permanente de 1,5 ºC se confirme? Nobre: Todos os fenômenos climáticos extremos – ondas de calor, secas, incêndios florestais, chuvas excessivas, rajadas, aumento do nível do mar – crescerão exponencialmente. Isso é exatamente o que aconteceu entre o segundo semestre de 2023 e abril de 2025, quando a temperatura global, pela primeira vez, subiu 1,5 ºC: todos os eventos extremos bateram recordes. [Segundo a ONU, em 2024 ocorreram dez eventos climáticos extremos no Brasil, sendo três deles classificados como sem precedentes: as chuvas no Rio Grande do Sul, a seca na Amazônia e a onda de calor na região central do país. Segundo a Organização Meteorológica Mundial, as enchentes no Rio Grande do Sul se tornaram o pior desastre climático do país.] NEGÓCIOS O mundo está preparado para esses eventos extremos? Nobre: Não. Bilhões de pessoas não estão sequer preparadas para se adaptar aos climas extremos. Temos que acelerar a redução das emissões em pelo menos 43% até 2030 e dar muita escala para a melhor solução baseada na natureza, que é a restauração dos biomas. Estudos de muitos anos atrás diziam que seria necessário restaurar 5 ou 6 milhões de quilômetros quadrados de todos os biomas para evitar os eventos extremos. Hoje, levantamentos já indicam que o número subiu para 9 a 10 milhões de quilômetros quadrados. NEGÓCIOS Por que essa recuperação é tão necessária? Nobre: Em todo o mundo, os biomas, em especial os tropicais, quando se regeneram, removem rapidamente o gás carbônico da atmosfera. Biomas de altas e médias latitudes crescem lentamente, ao longo de 100 anos. Mas durante todo esse tempo a remoção está acontecendo. Hoje, não temos ainda a escala que seria necessária de remoção de gás carbônico com soluções baseadas na natureza. Elas são muito importantes, não só porque removem CO2 da atmosfera, mas por protegerem a biodiversidade. Se nós não restaurarmos praticamente todos os ecossistemas do mundo – principalmente as florestas tropicais, que retêm 80% da biodiversidade –, vamos gerar um gigantesco risco de extinção de espécies. Até mesmo da nossa espécie, por causa das epidemias e pandemias que virão. Por isso, essa solução baseada na natureza é essencial, e precisa ser feita agora, em nível global. NEGÓCIOS Qual é o papel do Brasil no futuro do meio ambiente? Nobre: O Brasil tem a maior biodiversidade do mundo, com 18% a 20% das espécies de fauna e flora conhecidas. A Amazônia tem o bioma mais rico; o Cerrado, a Caatinga e o Pampa são os mais diversos entre seus tipos de bioma; e a Mata Atlântica também é valiosíssima. Nós temos uma enorme responsabilidade na restauração desses biomas. A ciência mostra com muita clareza o risco altíssimo de perdê-los, por causa da sua capacidade de reciclar a água e aumentar a chuva, diminuindo a estação seca. Até 2070, nossa biodiversidade pode sumir. O Pantanal pode deixar de ter água. Evoluções hidrológicas de milhões e milhões de anos serão perdidas. Para impedir isso, temos que zerar todos os desmatamentos. NEGÓCIOS Como está o Brasil nesse esforço de recriação de biomas? Nobre: Há políticas corretas. O Governo Federal e alguns estados estão investindo bastante na restauração florestal. Recentemente, o BNDES e o Ministério do Meio Ambiente lançaram o Arco da Restauração Florestal da Amazônia, com a proposta de restaurar 60 mil quilômetros quadrados entre 2025 e 2030, e outros 180 mil quilômetros quadrados entre 2030 e 2050. O BNDES também está financiando a restauração de vários outros biomas, como a Mata Atlântica e o Cerrado. Recentemente, o Congresso derrubou quase todos os vetos que o presidente Lula fez àquele PL 2159/2021, que acabou ganhando o apelido de PL da Devastação. [Pela proposta aprovada, a maior parte dos licenciamentos ambientais passam a ser feitos por Licença por Adesão e Compromisso (LAC), uma espécie de autolicenciamento.] Uma coisa é clara: precisamos de um projeto que seja o oposto desse, sem autodeclaração, nada disso. Só assim conseguiremos zerar os desmatamentos de todos os biomas brasileiros. NEGÓCIOS Qual será o papel do mercado de carbono na preservação da natureza? Nobre: Será bastante efetivo. Hoje o preço de um crédito de carbono é US$ 20, sendo que um crédito equivale a uma tonelada de gás carbônico que você não emite por desmatamento, ou que você remove pela restauração da floresta. Como a floresta tropical cresce muito rápido, o retorno da restauração florestal e de zerar o desmatamento está na faixa de US$ 250 a US$ 400 por hectare ao ano. Isso é muito mais do que a pecuária. E até mesmo mais do que a agricultura rende financeiramente na Amazônia. Isso sem considerar o Fundo Florestas Tropicais para Sempre [a proposta apresentada pelo governo durante a COP 30 remunera países pela conservação das florestas tropicais, reservando 20% para povos indígenas e comunidades tradicionais], que deverá destinar aos países US$ 4 por hectare de florestas mantidas ao ano. Com esse fundo, estamos valorizando pela primeira vez todos os serviços ecossistêmicos das florestas tropicais – e não apenas a remoção do gás carbônico ou a redução das emissões por desmatamento, como faz o mercado de carbono. NEGÓCIOS Valorizar os serviços ambientais, além da mera captura de carbono, pode estimular iniciativas mais completas de preservação? Nobre: Sem dúvida. Hoje, a emissão de carbono é o que conseguimos medir com clareza, mas limitar o foco àquilo que podemos medir é perder oportunidades. Devemos remunerar todos os serviços – manter a biodiversidade, manter a temperatura mais baixa, reciclar muito bem a água, aumentar a chuva, diminuir a duração da estação seca. A cada ano, cresce muito o conhecimento da biodiversidade. Centenas de milhares de espécies ainda nem são conhecidas. Mesmo que ainda não consigamos calcular o valor de todos os serviços, sabemos da importância de preservar. NEGÓCIOS Como a bioeconomia pode se inspirar na sabedoria dos povos originários? Nobre: Os indígenas da América do Sul chegaram à Amazônia 14 mil anos atrás. Desenvolveram sua ciência, domesticaram centenas de espécies, criaram os sistemas agroflorestais. Utilizaram mais de 2,3 mil produtos da biodiversidade amazônica, quase 1,5 mil plantas medicinais, mais de 250 frutas comestíveis, óleos vegetais etc. Um estudo recente mostra que muitas frutas consumidas pelos indígenas não eram importantes só como alimentos, também ajudavam demais no cuidado com a saúde. Quando os europeus chegaram às Américas, trouxeram a agricultura deles e o boi para a pecuária, que foi o vetor principal dos desmatamentos. Isso foi uma infelicidade muito grande. Hoje, os produtos provenientes da biodiversidade representam menos de 0,5% do PIB brasileiro. É possível imaginar um futuro em que a prosperidade econômica e a conservação não sejam interesses conflitantes? Sem dúvida, mas estamos distantes disso. NEGÓCIOS O que falta para alcançarmos esse futuro? Nobre: Esse desafio não é só econômico, é cultural. Eu sempre visitei os mercados da Amazônia. Em Belém do Pará, tem o famoso mercado Ver-o-Peso, com milhares de produtos de todos os países amazônicos. No supermercado, contudo, você não encontra nenhum produto local – só o açaí, lógico, que chegou ao mundo inteiro. Em vez disso, tem maçã, pera, frutas que vieram da Europa e são produzidas no sul do Brasil. Precisamos mudar essa lógica e transformar a Amazônia, de polo consumidor para polo produtor. Esta reportagem foi publicada na edição de dezembro de 2025/janeiro de 2026 de Época NEGÓCIOS. Mais Lidas",
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