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  "textContent": "\nMuito antes de o debate climático ganhar repercussão mundial, mulheres da Amazônia já estavam na linha de frente de uma das formas mais emblemáticas de resistência ao desmatamento no Brasil: colocando o próprio corpo entre a floresta e os equipamentos que insistiam em derrubá-la. Na Amazônia, especialmente no Acre, nas décadas de 1970 e 1980, os chamados “empates” surgiram com o avanço da pecuária sobre a floresta, quando comunidades extrativistas passaram a ser expulsas de seus territórios. Para impedir a derrubada, seringueiros se organizavam em grupos e se colocavam diante das árvores e das motosserras, em ações coletivas e não violentas que buscavam barrar o desmatamento com o próprio corpo. Liderado pelo seringueiro e ativista Chico Mendes, o movimento ganhou projeção internacional e se tornou um marco na luta ambiental no Brasil. Mais de cinco décadas depois, na primeira Bienal de Arquitetura Brasileira, em São Paulo, o Pavilhão Casa Empate recria uma moradia tradicional seringueira para contar, a partir de dentro, o papel das mulheres que protagonizaram a resistência. Para quem viveu essa realidade ou cresceu sob a força dessa memória, o que está em jogo vai além da lembrança histórica. “Eu não estive nos empates, mas eu cresci dentro dessa história. Sou filha, sobrinha, neta e prima de mulheres que estiveram ali, corpo a corpo com o medo”, afirma a liderança seringueira, Ronaira Barros, que carrega na própria família a memória das mobilizações em defesa da floresta. Ela é prima de Chico Mendes e filha de Raimundo Mendes de Barros, o Raimundão, ativista e líder seringueiro. Ronaira ao lado da estátua do seu primo, Chico Mendes Arquivo Pessoal Entre armas, medo e decisão Nos anos 1970 e 1980, diante do avanço da pecuária sobre a Amazônia, comunidades extrativistas passaram a organizar os chamados empates. Para quem esteve lá, o sentimento não era ausência de medo, mas uma decisão. “O medo existia, claro. Era impossível não sentir. Mas existia algo maior que o medo: a defesa da vida, da floresta e da família”, diz Ronaira. “Não era ausência de medo, era a decisão de não deixar o medo vencer”. Essa experiência foi vivida diretamente por Emília Campos, representante da Comunidade Seringueira da Cachoeira, no Acre, que participou dos empates ainda jovem. Ela resume o que estava em jogo naquele momento. “Se a gente não tivesse feito isso, nós nem aqui estávamos. A floresta é de onde nós tiramos o sustento dos nossos filhos e dos nossos netos”. Lista de mulheres homenageadas no Pavilhão Casa Empate, na Bienal de Arquitetura Brasileira, resgata nomes que estiveram na linha de frente dos “empates\" Tatiana Angotti Emília reforça que a motivação nunca passou, naquele momento, por uma leitura da importância global, mas por uma necessidade de sobrevivência. “O que nós pensávamos era só em conseguir algo melhor para o futuro, para nossos filhos, nossos netos e a floresta em pé”. A força do gesto Diante de policiais e homens armados, as estratégias adotadas pelas comunidades carregavam múltiplos significados: proteção e afirmação política ao mesmo tempo. “Colocar as crianças à frente era dizer: ‘é por elas que estamos aqui’. Era mostrar que ali existia vida, futuro, família”, explica Ronaira. Já Emília relembra o impacto dessas ações. “Quando as crianças foram para frente e as mulheres começaram a cantar o Hino Nacional, os policiais abaixaram as armas e deram a palavra para o Chico Mendes”. “A gente estava defendendo o nosso pão de cada dia, a nossa floresta”. Uma história que não terminou Apesar do atual reconhecimento, lideranças da floresta alertam que os empates ainda são frequentemente tratados como um episódio encerrado. “Muita gente vê como algo do passado, como um episódio isolado, quando na verdade é uma luta que continua até hoje”, afirma Ronaira. Os empates deixaram um ensinamento que ainda não foi plenamente assimilado pelo país. “Não foram só resistência contra o desmatamento. Foram uma forma de ensinar outro jeito de viver, de se relacionar com a floresta, com o coletivo, com o futuro”. A casa é memória e manifesto A casa foi desenvolvido pela arquiteta e urbanista acreana Marlúcia Cândida, com apoio do arquiteto e designer Marcelo Rosenbaum Tatiana Angotti Essa dimensão é o que a arquiteta e urbanista acreana Marlúcia Cândida, idealizadora do Pavilhão Casa Empate e pesquisadora da arquitetura amazônica, busca traduzir na instalação apresentada na Bienal. “Essa casa é um manifesto porque ali nós estamos colocando o sentimento, a alma, o pertencimento das mulheres que participaram dos empates”, afirma Marlúcia. Casa representa uma manifestação simbólica de um momento relevante na história brasileira Tatiana Angotti O espaço, que teve o apoio do arquiteto e designer Marcelo Rosenbaum, recria uma casa tradicional seringueira, com elementos do cotidiano que transformam a história política em experiência sensorial. “Precisa ter utensílios, precisa ter fogão, precisa ter a memória. Tem bordados, tem a lembrança das avós, tem o passado registrado ali de uma maneira poética, mas sem deixar de ser casa e sem deixar de ser manifesto político”. Símbolos e parte de uma cultura, que foi silenciada, estão representadas na casa Tatiana Angotti A própria estrutura da casa também ajuda a traduzir um conhecimento construído na relação direta com o território. “O vernáculo tem muito a nos ensinar, porque ele já é uma adaptação do homem naquele meio ambiente”, diz Marlúcia. “A gente aprende que precisa suspender a casa, permitir que o vento passe, usar materiais naturais que deixam a construção respirar”. Modo de vida na Amazônia, baseado na floresta, é retratado Tatiana Angotti \"Silenciada\" Ao chegar à Bienal, a história dos empates ganha projeção nacional. No entanto, para quem vive essa realidade, o reconhecimento ainda é parcial. “É importante que essa história chegue a esses espaços, porque por muito tempo ela foi silenciada”, afirma Ronaira. Ainda assim, ela faz um alerta. “Entender de verdade exige escuta, respeito e reconhecimento de que essas populações sempre souberam caminhos que o Brasil ainda está aprendendo”. Para Emília, a visibilidade traz também um sentimento de conquista. “É muito gratificante saber que essa história está sendo conhecida no Brasil inteiro”, argumenta. “Porque a floresta é muito especial para nós. E ela só continua de pé porque alguém decidiu defendê-la”. Mais Lidas",
  "title": "'Empates' contra a destruição: mulheres que enfrentaram motosserras na Amazônia são tema de pavilhão na 1ª Bienal de Arquitetura Brasileira"
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