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Mulheres no centro da adaptação climática

Um só Planeta [Unofficial] March 31, 2026
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Em todo o mundo, mulheres e meninas são desproporcionalmente afetadas pelos efeitos das mudanças climáticas, um fenômeno que reflete e amplifica desigualdades históricas de acesso a renda, recursos, informação e poder de decisão. Dados internacionais mostram a dimensão desse desafio. Segundo o Gender Snapshot 2024, relatório da ONU Mulheres e do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas, as mudanças climáticas podem empurrar até 158 milhões de mulheres e meninas para a pobreza até 2050, número significativamente maior do que o observado entre homens e meninos. O mesmo relatório aponta que 47,8 milhões de mulheres a mais que homens já enfrentam insegurança alimentar no mundo. Em contextos de desastres climáticos, essas desigualdades tornam-se ainda mais evidentes. Relatórios da ONU Mulheres apontam que mulheres têm menos acesso a informações, mobilidade, recursos e espaços de tomada de decisão, fatores que podem reduzir suas chances de sobrevivência em eventos extremos e dificultar a recuperação econômica após crises ambientais. Ao mesmo tempo, quando eventos climáticos extremos comprometem o acesso a recursos, são elas que frequentemente assumem a responsabilidade de reorganizar a vida familiar e comunitária, garantindo o sustento e o cuidado das famílias. As enchentes históricas que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 escancararam essa realidade. Milhares de mulheres perderam casas, trabalho e renda. Muitas passaram a sustentar sozinhas suas famílias em meio à reconstrução. Foi nesse cenário que iniciativas voltadas à adaptação climática com recorte de gênero se mostraram essenciais. No RS, foram apoiados programas que colocam as mulheres no centro da reconstrução. Um exemplo é o Instituto Mulher em Construção, que atua há quase duas décadas formando mulheres para atuar na construção civil, um setor historicamente masculino. Após as enchentes, a organização estruturou um Centro de Capacitação Emergencial no Vale do Taquari. O programa ampliou sua atuação para formar mais 150 mulheres na área, ampliando suas possibilidades de acesso a emprego e renda. Outro exemplo é o Regenera Direitos, iniciativa que oferece orientação jurídica a famílias afetadas pelas enchentes, ajudando-as a acessar benefícios emergenciais como o Auxílio Reconstrução e o FGTS Calamidade. O projeto capacita advogadas da rede Black Sisters in Law para atuar nos territórios, fortalecendo o protagonismo de mulheres negras na defesa de direitos e ampliando o acesso à justiça para comunidades que perderam tudo. Também foram apoiados projetos como o Sabão da Tinga (Projeto Aurora), em Porto Alegre, que une economia circular e geração de renda. Nele, mulheres em situação de vulnerabilidade aprendem a transformar óleo de cozinha usado em sabão ecológico e velas aromáticas, criando uma fonte de renda sustentável ao mesmo tempo em que contribuem para a redução de resíduos e para a educação ambiental. Os projetos desenvolvidos pelo Misturaí têm apoiado na reconstrução de Porto Alegre com foco em mulheres, especialmente aquelas em situação de maior vulnerabilidade social. Iniciativas como o Amparaí, voltadas à segurança alimentar, garantem acesso contínuo a refeições e insumos básicos, aliviando a pressão cotidiana enfrentada por muitas chefes de família e permitindo que elas possam reorganizar suas rotinas e buscar outras formas de sustento . Ao atuar diretamente em territórios periféricos e comunidades tradicionais, essas ações também fortalecem redes de cuidado e solidariedade, que são essenciais em contextos de crise climática, onde a reconstrução passa pela garantia do básico. Esse ecossistema se complementa com iniciativas como o coletivo Conceito Arte, que amplia as dimensões da adaptação climática ao incorporar educação, cultura e geração de renda. O projeto atua como espaço de educação não formal e fortalecimento comunitário do Bairro Sarandi, em Porto Alegre, um dos bairros mais atingidos pelas inundações, oferecendo oficinas, atividades culturais e formação crítica. Essas experiências mostram algo fundamental: mulheres não são apenas importantes vítimas da crise climática; são também protagonistas das soluções. Incorporar a perspectiva de gênero nas políticas climáticas não é apenas uma questão de justiça social. É uma estratégia indispensável para fortalecer a capacidade de adaptação das sociedades diante de um futuro cada vez mais marcado por eventos extremos. Colocar mulheres no centro da reconstrução significa, na prática, ampliar a resiliência coletiva. E essa é uma lição que o Rio Grande do Sul, após uma das maiores tragédias climáticas de sua história, tem aprendido. *Manuela Fonseca coordenadora executiva do RegeneraRS, iniciativa multissetorial criada para apoiar a reconstrução do Rio Grande do Sul após as enchentes, articulando organizações, empresas e lideranças.

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