Chuvas intensas atingem municípios no Pará e expõem vulnerabilidades urbanas no estado da COP30
Um só Planeta [Unofficial]
March 25, 2026
O Estado do Pará, que sediou a COP30 no final de 2025, enfrenta os efeitos de um regime de chuvas intenso e persistente que já atinge dezenas de municípios, com famílias desabrigadas, prejuízos estruturais e liberação de recursos emergenciais. Cidades próximas da capital Belém, como Marituba, estão entre as mais afetadas, em um cenário que combina eventos extremos e vulnerabilidade urbana. Estimativas, embora já desatualizadas, apontam mais de 500 pessoas afetadas. O Governo Federal anunciou que todas as famílias que tiveram suas casas destruídas ou condenadas vão receber novas moradias por meio do programa Compra Assistida. Munícipios mais distantes da capital também sofrem com o mesmo problema: Santarém, no Oeste do Pará, decretou situação de emergência após chuvas atingirem mais de duas mil pessoas. Inclusive, o Corpo de Bombeiros Militar do Pará listou 23 municípios em emergência. Bragança, Jacareacanga, Pau d’Arco e Xinguara já possuem decretos homologados. Por outro lado, Anapu, Baião, Bom Jesus do Tocantins, Ipixuna do Pará, Dom Eliseu, Itupiranga, Jacundá, Monte Alegre, Novo Progresso, Novo Repartimento, Pacajá, Rio Maria, Santa Maria das Barreiras, Santarém, São Geraldo do Araguaia, Trairão, Uruará, Vitória do Xingu e Marituba estão em análise. Dados do Instituto Nacional de Meteorologia indicam que o padrão de chuvas neste ano fugiu do comportamento esperado. “O padrão de chuvas este ano apresentou um cenário bem diferenciado”, explica o meteorologista José Raimundo Abreu de Sousa, do Instituto Nacional de Meteorologia. Janeiro registrou déficit de precipitação em cerca de 80% do Estado, enquanto março apresenta volumes acima da média histórica em praticamente todo o território. Da estiagem à chuva A irregularidade no regime climático é um dos principais fatores por trás da crise atual. Após um início de ano com menos chuva do que o esperado, mesmo sob influência do fenômeno La Niña, o Pará passou a registrar precipitações intensas e prolongadas a partir da segunda quinzena de fevereiro. “Belém já está com acumulados de chuva em torno de 530 mm e a média é de 506,3 mm”, afirma o meteorologista. Em áreas do litoral paraense, como Bragança, Salinópolis e Marudá, os volumes ultrapassam os 600 mm. Em outras regiões, como o Nordeste do estado e municípios do Xingu, os acumulados superam 400 mm. Mais do que o volume, chama atenção a forma como a chuva tem ocorrido. “Tivemos até 48 horas consecutivas com poucas interrupções”, diz Sousa. “O tempo predominante ficou encoberto, com chuvas a qualquer hora do dia, diferente do padrão típico de pancadas à tarde”. Fenômenos intensificam chuvas De acordo com o especialista, a intensidade das chuvas está associada à atuação simultânea de diferentes sistemas meteorológicos. “A combinação da Zona de Convergência Intertropical, da Zona de Convergência do Atlântico Sul, da Alta da Bolívia e dos vórtices ciclônicos do Nordeste foi responsável por cerca de 85% das chuvas no Estado”, explica. Esse conjunto de fatores criou condições para precipitações persistentes e distribuídas por todo o Pará, ampliando os impactos especialmente em áreas urbanas mais vulneráveis. Alagamento dificulta circulação de moradores em área urbana de Marituba Reprodução/TV Liberal/Globo Municípios em alerta O cenário já mobilizou autoridades locais e federais. O governo federal liberou recursos para municípios afetados pelas chuvas, enquanto o governo do estado reconhece que cidades como Marituba estão entre as mais impactadas. O resultado é: alagamentos, interrupções de vias, danos a residências e famílias obrigadas a deixar suas casas. Em áreas com infraestrutura precária de drenagem e ocupação em regiões de risco, a água avança rapidamente, gerando prejuízos de toda ordem. Clima imprevisível e desafio Embora não seja possível atribuir um evento isolado diretamente à mudança climática, a quebra de padrão observada neste ano, com estiagem inicial seguida por chuvas intensas, está alinhada a um cenário de maior variabilidade climática. “O que estávamos prevendo pelos modelos era um comportamento típico de La Niña, com mais chuva no Norte, mas isso não ocorreu no início do período”, afirma Sousa. “Houve um descompasso, um desequilíbrio”. Esse tipo de instabilidade aumenta a dificuldade de planejamento, impacta atividades econômicas, como o plantio agrícola, e expõe fragilidades estruturais nas cidades da Amazônia. Alerta O episódio ocorre poucos meses após o Pará sediar a COP30, conferência global que teve como um de seus principais eixos a adaptação de cidades diante da crise climática. Agora, o Estado vive, na prática, os desafios discutidos no evento. “Tivemos até 48 horas consecutivas com poucas interrupções. O tempo predominante ficou sempre encoberto, com chuvas a qualquer hora do dia, passava a noite toda com chuva fraca, chuvisco e às vezes pancada de chuva de forte intensidade. Ou seja, uma situação diferente do padrão que nós temos aqui na região”, afirma o meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia. O mapa de previsão do INMET reforça um cenário ainda problemático, indicando volumes elevados de precipitação concentrados especialmente no Pará, nas próximas semanas. Mais Lidas
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