Empresas avançam em soluções para a crise da água, mas desafio estrutural ainda persiste
Um só Planeta [Unofficial]
March 22, 2026
O avanço de iniciativas lideradas por empresas tem ampliado o acesso à água e ao saneamento em diferentes regiões do Brasil, ao mesmo tempo em que projeta experiências nacionais para o debate internacional. No Dia Mundial da Água, celebrado dia 22 de março, projetos ligados ao Pacto Global da ONU mostram que soluções já estão em curso, no entanto, uma dúvida persiste: há escala para alcançar a dimensão do problema? Apesar do crescimento dessas iniciativas, há um questão estrutural expressiva. “O desafio estrutural de acesso à água e ao saneamento no Brasil ainda é enorme — proporcional às dimensões do nosso país — e especialmente nas regiões mais vulneráveis”, afirma a Gerente de Água, Oceano e Resíduos do Pacto Global da ONU – Rede Brasil, Gabriela Otero, que é Bacharel e Licenciada em Geografia e Mestre em Ciências, e tem mais de 15 anos de experiência em gestão e execução de projetos nacionais e internacionais. Entre 32 e 34 milhões de brasileiros ainda não têm acesso à água potável, enquanto mais de 90 milhões vivem sem coleta de esgoto. O impacto vai além da infraestrutura: em 2024, foram registradas mais de 340 mil internações no Sistema Único de Saúde (SUS) relacionadas à falta de saneamento. São dados do Trata Brasil, de 2024. Soluções em curso Para enfrentar parte desse cenário, empresas brasileiras têm desenvolvido iniciativas que combinam infraestrutura, restauração ambiental, tecnologia e eficiência no uso da água, com atuação em diferentes territórios. No eixo de acesso, a Aegea Saneamento tem ampliado a oferta de água tratada e esgotamento sanitário em áreas vulneráveis. Em Manaus (AM), o projeto “Vem com a Gente” levou serviços básicos a comunidades sobre palafitas, como o Beco do Nonato, onde moradores passaram a ter acesso regular à água e coleta de esgoto. Implantação de rede de esgoto no Beco Nonato, em Manaus, utiliza estrutura elevada para levar saneamento a áreas de palafitas e adaptar a infraestrutura às condições do território. Divulgação A empresa também mantém iniciativas no Rio de Janeiro, com impacto em mais de dois milhões de pessoas, combinando expansão da infraestrutura com tarifa social e ações de educação ambiental. “A expansão do saneamento básico mostra que garantir acesso à água e ao esgotamento sanitário transforma realidades para melhor. Quando levamos essa infraestrutura para territórios vulneráveis, ampliamos oportunidades e melhoramos a qualidade dos recursos hídricos”, afirmou o presidente do Instituto Aegea, Édison Carlos. Ainda na Amazônia, a Coca-Cola Brasil desenvolve soluções voltadas ao acesso à água em comunidades ribeirinhas por meio do programa Água+Acesso, em parceria com a Fundação Amazônia Sustentável (FAS) e outras organizações. As iniciativas incluem sistemas de abastecimento com uso de energia solar, adaptados às condições locais, com o objetivo de ampliar o acesso à água potável e reduzir custos operacionais. “Ao atuar em coalizão com outras empresas e organizações, conseguimos ampliar o alcance das iniciativas e contribuir para soluções mais consistentes nos territórios”, afirmou a diretora de Sustentabilidade da companhia, Katielle Haffner. Vista aérea da comunidade quilombola do Tambor (AM), onde foram implementadas soluções de abastecimento de água por meio do projeto Água+Acesso Michael Dantas/Divulgação Sudeste Na agenda ambiental, a Ypê atua na recuperação de áreas estratégicas para a segurança hídrica. Por meio do projeto “Plantar Vida”, desenvolvido em parceria com Imaflora, H2A Hub Agroambiental e SOS Mata Atlântica, a companhia apoia produtores rurais na bacia do rio Camanducaia (SP) na regularização ambiental e na restauração de 80 hectares de Áreas de Preservação Permanente até 2026. A iniciativa contribui para a segurança hídrica de uma região que abastece cerca de 300 mil pessoas no interior de São Paulo e sul de Minas Gerais. “O Plantar Vida é uma oportunidade para avançar na regularização ambiental e na segurança hídrica das propriedades. A restauração florestal é fundamental para o meio ambiente, para a produção e para o próprio produtor”, considerou o diretor de Sustentabilidade da Ypê, Gustavo de Souza. Participantes do projeto Plantar Vida, da Ypê, realizam o plantio de mudas em área de recuperação ambiental na bacia do rio Camanducaia (SP), iniciativa que contribui para a restauração de nascentes e o fortalecimento da segurança hídrica na região. Divulgação Construção civil Outra atuação empresarial está na eficiência hídrica em setores intensivos em consumo. A MRV tem investido no reuso e no monitoramento do consumo de água em seus canteiros de obras e registrou, em 2025, a reutilização de 617 mil litros de água — volume equivalente a mais de 12 piscinas residenciais de médio porte. O recurso reaproveitado é destinado a atividades como cura de concreto, limpeza de equipamentos e lavagem de áreas, reduzindo a necessidade de captação em fontes externas. De acordo com o gestor executivo de Relações Institucionais e Sustentabilidade da MRV&CO, José Luiz Esteves da Fonseca, o consumo varia ao longo das etapas da obra, exigindo gestão contínua. “Ao longo de todo o processo, monitoramos a utilização e adotamos iniciativas de redução e reaproveitamento”, afirma. Canteiro de obras da MRV adota práticas de reuso e monitoramento do consumo de água, com soluções que reduzem desperdícios. Divulgação Além do reuso, a empresa adota dispositivos economizadores nas unidades entregues, como aeradores em torneiras, descargas de duplo fluxo e sistemas de captação de água da chuva, em um setor que responde por cerca de 5,3% das retiradas globais de água. Desafios Apesar dos avanços, as soluções ainda operam em escala limitada frente à dimensão do problema. “As iniciativas empresariais têm um papel relevante de inovação e ajudam a colocar o tema no centro da agenda, mas esse é um desafio grande demais para ser enfrentado por um único ator”, diz Gabriela Otero. A lógica da operação das empresas faz com que muitos projetos se concentrem em áreas com maior viabilidade de implementação, o que pode deixar de fora justamente as populações mais vulneráveis, como aquelas em regiões remotas ou em ocupações irregulares. “O ponto central é que esse ainda é um problema sistêmico e muito desigual. Precisamos conseguir chegar onde historicamente o acesso nunca chegou”, afirma Gabriela. Saiba mais Integração com políticas públicas Para ampliar o impacto das soluções já existentes, o principal caminho apontado é a integração entre setor privado, poder público e realidades locais. “O ganho real de escala acontece quando essas iniciativas se conectam a políticas públicas”, explica Otero. Na opinião dela, a articulação permite replicar soluções bem-sucedidas e direcionar esforços para regiões mais vulneráveis. Além disso, o avanço depende de maior priorização do saneamento nas agendas públicas, definição de metas intermediárias e monitoramento contínuo dos resultados. Hoje, segundo a especialista, ainda há um descompasso entre a importância do tema — que impacta diretamente saúde, educação e produtividade — e o nível de prioridade que recebe. Outro fator decisivo é o engajamento da população. “Sem entendimento do saneamento como um direito essencial, os avanços estruturais ficam mais lentos e menos sustentáveis”, afirma. Urgência A universalização do acesso à água e ao saneamento ainda depende de um esforço coordenado, capaz de transformar iniciativas pontuais em políticas estruturantes. “O desafio agora é como levar essas soluções para escala e garantir impacto duradouro. Isso só será possível com integração, metas claras e foco nas regiões mais vulneráveis”, conclui Gabriela Otero. Mais Lidas
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