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"textContent": "\nA desigualdade no acesso à água e ao saneamento tem uma dimensão marcada pelo gênero. Segundo a ONU, 2,2 bilhões de pessoas vivem sem acesso seguro à água potável e 3,5 bilhões sem saneamento adequado. Em regiões da África Subsaariana e da Ásia Meridional, mulheres e meninas são responsáveis pela coleta de água em mais de 70% dos domicílios. Relatórios da ONU Mulheres e do UNICEF mostram ainda que, em comunidades rurais, meninas podem dedicar até 200 horas por ano a mais que os meninos à coleta de água. Esse tempo, que poderia ser investido em educação, lazer ou qualificação profissional, transforma-se em trabalho invisível e não remunerado. A crise da água, portanto, não é apenas ambiental ou de infraestrutura, é também uma crise de igualdade. Foi nesse contexto que a ONU escolheu “Água e Gênero” como tema do Dia Mundial da Água de 2026 (22 de março). Criado em 1993, o Dia Mundial da Água é um marco global para refletir sobre a importância desse elemento vital para a vida. A decisão de colocar gênero no centro do debate reconhece que a desigualdade entre homens e mulheres começa muitas vezes no acesso ao mais básico dos direitos: a água. No Brasil, mais de trinta milhões de pessoas vivem sem acesso regular à água tratada e à coleta de esgoto. Estudos mostram que a precariedade do saneamento atinge desproporcionalmente mulheres pobres e negras. Quando a água não chega, são elas que organizam o uso doméstico, garantem higiene e improvisam soluções. Esse trabalho invisível e não remunerado significa menos tempo para estudar, trabalhar ou empreender. A crise hídrica amplia ainda mais essa desigualdade, ela aumenta a carga de cuidado que já recai sobre as mulheres. Além disso, buscar água longe de casa expõe meninas e mulheres a riscos de violência e doenças relacionadas à falta de saneamento. Eventos climáticos extremos, como secas e enchentes, tornam essa realidade ainda mais dura, já que afetam de forma desproporcional comunidades vulneráveis. Buscar água longe de casa expõe meninas e mulheres a riscos de violência e doenças relacionadas à falta de saneamento Getty Images Não estamos falando apenas de infraestrutura, mas de direitos humanos. Apesar de serem as principais responsáveis pela gestão cotidiana da água, mulheres ainda são minoria em instâncias decisórias como nos conselhos municipais, em comitês de bacias hidrográficas, cargos técnicos do setor e de alta liderança. Decisões continuam sendo tomadas sem a escuta ativa de quem vive o problema diariamente. Há exemplos inspiradores de boas práticas. Em países africanos, programas comunitários que capacitam mulheres para liderar projetos de abastecimento têm mostrado resultados positivos. No Brasil, iniciativas locais de cisternas e gestão comunitária da água no semiárido revelam como a participação feminina fortalece a sustentabilidade e a justiça social. A desigualdade hídrica também reflete raça e renda. Mulheres negras e de baixa renda são as mais afetadas. Universalizar o acesso à água e ao saneamento é política social e estratégia de desenvolvimento econômico. Quando mulheres adoecem menos e gastam menos tempo buscando água, aumentam sua produtividade e participação no mercado de trabalho, reduzindo pobreza e pressão sobre o sistema de saúde. Então o que precisa mudar? Reconhecer que as decisões relativas à água não são neutras. A forma como ela chega ou não chega às casas revela desigualdades profundas. Políticas públicas precisam incorporar análise de impacto de gênero. É necessário priorizar territórios vulneráveis de quem é mais afetado. É preciso rever o entendimento de que cuidar da água e da casa é responsabilidade feminina. Sem redistribuição do cuidado, a desigualdade persiste mesmo com melhorias de infraestrutura. E ampliar a participação feminina nos espaços de decisão do setor hídrico é fundamental. Sem o acesso à água de boa qualidade, não há saúde. Sem saneamento, não há dignidade. E sem igualdade no acesso à água, não há igualdade de gênero. Diversidade melhora políticas públicas e a democracia. Ao colocar “Água e Gênero” no centro do debate global, a ONU lança um convite ou talvez um alerta de que a crise hídrica e climática é também uma crise de justiça social. No Brasil, onde ainda convivemos com enormes déficits de saneamento, a resolução dessa questão não pode ser mais adiada. A água que não sai da torneira é o retrato concreto de uma desigualdade histórica. Garantir água para todas e todos é um passo técnico. Mas também garantir água com equidade é um passo civilizatório. * Samuel Barrêto é ambientalista, especialista em segurança hídrica, adaptação & resiliência climática e engajamento multisetorial. É pesquisador associado do Observatório das Águas (OGA). Foi diretor de água e sistemas alimentares da TNC Brasil, gerente nacional do WWF-BR e coordenador da Fundação SOS Mata Atlântica impulsionando o empoderamento de lideranças socioambientais e governança participativa, com políticas públicas e iniciativas voltadas para os múltiplos benefícios e impactos gerados com a conservação e revitalização de bacias hidrográficas no Brasil. Mais Lidas",
"title": "Dia Mundial da Água: por que as mulheres devem estar no centro da transformação que redefine o nosso futuro"
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